Apenas em raras ocasiões vemos expressões vocais de oposição em conferências gerais da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Ao invés de interpretá-las como um sinal de uma grave ruptura na estrutura da Igreja, uma visão mais benigna, sem necessariamente aprová-las, seria entende-las como sendo a influência de uma prática democrática se infiltrando em uma organização teocrática.

Democracias estáveis modernas permitem manifestações de oposição, mesmo as excessivamente acaloradas. Um contestador interrompeu o discurso do presidente dos EUA, Ronald Reagan, na Casa Branca em outubro de 1982. Eu vi a cena na televisão no Brasil numa época em que o país ainda estava sob uma ditadura. Ficamos admirados quando soubemos que as autoridades americanas não prenderam nem processaram o desordeiro. E muitos se lembram das gritarias descontroladas em reuniões públicas sobre a reforma do sistema de seguros de saúde em 2009.

Na conferência geral da Igreja em abril 2015, vimos aquela prática democrática em um ambiente teocrático. Santos dos Últimos Dias pelo mundo a fora reagiram com diferentes graus de espanto, o que é compreensível, considerando que muitos ou são jovens demais, ou não são membros da Igreja o tempo suficiente, para ter testemunhado raras manifestações anteriores de oposição em uma sessão de uma conferência geral.

Hoje a Igreja está na vanguarda dos esforços para preservar e solidificar princípios de liberdade religiosa em sociedades livres em todo o mundo. Apoio à liberdade religiosa em uma democracia exige o reconhecimento de diferentes pontos de vista filosóficos. Ao retornarem às suas reuniões dominicais regulares, torna-se imperativo que os Santos dos Últimos Dias evitem o aviltamento daqueles que têm demonstrado a sua oposição devido a alguma questão social ou política, enquanto ainda professam sua fé. Moderação ao lidar com tais membros é um sinal de maturidade em uma igreja mundial.

Ao invés de retornar às reuniões religiosas como congregações divididas, ao exercer moderação nós nos apresentamos como um povo de fé e sensível que aceita diversidade em uma democracia, enquanto, ao mesmo tempo, preserva princípios organizacionais teocráticos recebidos por revelação. Ao invés de tentar calar dissidentes, tal como diria o “meme” popular: “Fique calmo e reafirme a doutrina”.

A doutrina revelada sobre a natureza de Deus é a base para a crença da Igreja na origem divina e destino exaltado do casamento e da família. Os pontos de vista contrários da atualidade poderiam ser uma extensão do debate social mais amplo sobre a definição do gênero e do casamento, uma consequência de um processo de secularização em curso há décadas.

Artigos na mídia sobre a Igreja frequentemente ignoram o relato de Joseph Smith da sua Primeira Visão do Pai e do Filho. Geralmente, eles colocam a gênese da Igreja na primeira visita de Moroni. Poucos dão espaço ao poder do testemunho de Joseph de que Deus é um homem exaltado com afeições perfeitas que tem um plano perfeito de felicidade eterna para todos os seus filhos. Em sociedades largamente seculares este testemunho pode ser considerado desconfortável, porque traz a compreensão de que existem leis, convênios, ordenanças, e expectativas divinas inescapáveis a serem acatadas.

Como eu declarei em um discurso em 2008, a vitalidade do mormonismo deriva-se de suas doutrinas e ordenanças extraordinárias, e nas bênçãos, privilégios e promessas contidos na mensagem da restauração do evangelho de Jesus Cristo. Falando figurativamente, é o bosque sagrado, não o carrinho de mão dos pioneiros, que está na raiz das crenças da Igreja. Ao invés de proteger meros valores tradicionais sobre o casamento e a família, a Igreja defende verdades eternas que permanecem independentes de variações nos valores sociais.

Assim, seguimos em frente, nos esforçando para ensinar de forma eficaz as verdades fundamentais sobre a existência de Deus, a divindade e eternidade da instituição do casamento, e todos os assuntos que lhe digam respeito. Ao mesmo tempo, permitindo o livre exercício da consciência, como defendeu o Profeta Joseph Smith, mas sem comprometer a pureza da doutrina.

Depois de tudo isso, esperamos pacientemente e coletivamente oramos, como escreveu o Élder Parley P. Pratt, “Vem, ó Rei dos Reis! Há muito esperamos por ti”*.

*Hinos #28 – tradução livre de “Come, O thou King of Kings! We’ve waited long for thee”; Hymns #59.

(Este comentário não constitui uma declaração oficial de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias)

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Marcus H. Martins

Marcus H. Martins possui Doutorado (Ph.D.) em Sociologia da Religião e Relações Raciais e Étnicas. Serviu como Bispo e Presidente de Missão.
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