Uma experiência que tenho frequentemente é ouvir pessoas que leram critérios diagnósticos de depressão, ansiedade, transtorno bipolar ou outro transtorno mental dizerem algo como: “Eu tenho todas as coisas que li!”

Na realidade os sintomas de transtornos mentais não passam de características existentes em uma pessoa dita normal com intensidade e duração alteradas, geralmente aumentadas. Todas as pessoas experimentam dias ou momentos de tristeza; mas só algumas estão tristes todos os dias, ou nos dias em que ficam tristes não conseguem fazer nada. Todas as pessoas podem passar por algum momento de euforia, onde agem de forma impulsiva; mas somente algumas terão uma semana inteira de euforia, onde imergem no limite do cartão de crédito comprando coisas de que não tinham nenhuma necessidade, e ao se darem conta disto, vão passar a outra semana angustiados pelo destempero que tiveram. A maior parte das pessoas, ao ver um cachorro correndo em sua direção sentirão o coração disparar, o corpo tremer e um medo intenso; poucos sentirão este medo simplesmente por pensar que cachorros existem, ou até sem causa aparente.

O que define a diferença do normal e do patológico?

Gosto de definir isto em duas palavras: Sofrimento e disfunção.

Sofrimento:

Os transtornos mentais geralmente têm duração longa, e as pessoas que os experimentam sofrem. Após a morte de um ente querido, é absolutamente normal sentir tristeza e angustia pelo luto. Em condições normais esperamos que em menos de um mês, todos retomem suas atividades, embora ainda sintam a dor da perda, que normalmente se reduz de modo gradativo. Não podemos confundir um dia ruim, o luto, a angustia devido a um evento adverso com uma doença.

Sofrer, estar em agonia de modo prolongado ou muito recorrente, ao ponto deste sofrimento nos paralisar, impedir que conduzamos nossas atividades, não é normal.

Disfunção:

O transtorno mental atrapalha o andamento da vida daqueles que sofrem, mas há casos em pessoas que não aparentam sofrimento. Muitas vezes atendi homens que estavam prestes a perder seu casamento e família. As queixas comuns dos familiares eram irritabilidade, hostilidade e até agressividade verbal e física. Eles não se davam conta do quanto produziam disfunção na vida dos filhos e da esposa (não sofriam pessoalmente, mas faziam outros sofrerem), alguns só procuraram tratamento às portas do divórcio. Na avaliação médica deles, muitos eram cronicamente depressivos, ansiosos ou apresentavam transtorno bipolar, e boa parte só conseguiu notar o estrago que estava causando após iniciar o tratamento medicamentoso. Alguns diziam: “Aquele monstro não era eu!”

Mais que preencher critérios diagnósticos, a avaliação passa por quanto sofrimento e disfunção isto está causando ao indivíduo, aos familiares e a outros. Geralmente, quando a pessoa sofre, tenta lutar com seus melhores recursos contra a doença. Mudanças de comportamento, atividades físicas, quantidade de lazer e trabalho balanceadas, viver o evangelho, buscar aconselhamento de amigos e líderes, servir ao próximo são recursos valiosos contra o adoecimento. Quando tudo isto tem sido feito e mesmo assim o sofrimento e disfunção permanecem constantes ou muito recorrentes, é hora de procurar ajuda profissional.

Neste ponto os líderes da igreja e familiares podem auxiliar muito. Muitas vezes convivemos com estas pessoas que a despeito dos melhores esforços continuam a sofrer, algumas precisam entender que a hora de procurar ajuda profissional chegou. Muitos já estão sem esperança, por terem tentado lutar muito sem ver resultados, imaginando que o Senhor não os ouve, pois mesmo vivendo o evangelho não conseguiram melhorar, mas muitos ainda não utilizaram todos os recursos.

Elder Jeffrey R. Holland falou na Conferência Geral de outubro de 2013: “Se as coisas continuarem a ser debilitantes, procurem o conselho de pessoas de confiança, com formação profissional comprovada, competência e bons valores. Sejam honestos com elas sobre sua história e suas dificuldades. Em espírito de oração e de modo responsável, ponderem o conselho delas e as soluções que receitarem. Se vocês tiverem apendicite, Deus espera que procurem uma bênção do sacerdócio e também o melhor atendimento médico disponível. O mesmo se dá com os distúrbios emocionais. Nosso Pai Celestial espera que usemos todos os maravilhosos dons que Ele concedeu nesta maravilhosa dispensação.”

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Luciano Sankari

Serviu na Missão Brasil Recife Sul de 1996 a 1998.Graduado em medicina em 2003 na Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná, com Especialização em Cardiologia HC-UFPR e em Gestão do Trabalho e Educação em Saúde ENSP/FIOCRUZ. Trabalha na área de psiquiatria há 12 anos. É Presidente da Estaca Curitiba Brasil Novo Mundo. Casado, tem 3 filhos.
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