Muitas vezes sou questionado por familiares ou amigos de pessoas visivelmente doentes: “O que eu faço, ele não quer ajuda? Diz que não está doente!” Estas perguntas são muito frequentes nos casos de alcoolismo e uso de outras drogas e nos casos de transtorno bipolar onde o comportamento eufórico é predominante. Muitos pacientes com transtorno obsessivo compulsivo “aceitam a ideia” de que compulsões ou pensamentos obsessivos são parte “normal” de seu dia a dia. De um modo geral pessoas que sofrem com ansiedade ou depressão tendem a procurar ajuda.

No caso específico das dependências químicas, ou do uso abusivo de algum tipo de droga, é comum ouvir: “Não sou viciado!” (e de fato nem todo usuário de droga está dependente), “Eu sei meu controlar!”, “ ão estou causando mal à ninguém!” Estas afirmações típicas deixam familiares e amigos com um sentimento de impotência.

Há uma fase inicial do uso de drogas que costumo chamar de lua de mel. É um período festivo onde o usuário não experimentou, ou conseguiu enxergar, nenhum efeito deletério em sua vida; não perdeu emprego, a família ainda está integrada, os estudos ainda continuam relativamente bem.

O que devo fazer?

A insistência de familiares e amigos em fazer com que a pessoa reconheça a necessidade de ajuda, é tratada como um exagero e, por vezes, os que tentam ajudar são hostilizados. Não há uma solução mágica a ser prescrita, citarei alguns exemplos com o objetivo de demonstrar algumas intervenções benéficas.

Recebi um paciente que procurou tratamento quando a esposa decidiu se divorciar. Ele era cronicamente mal humorado e irritado, o que gerava um comportamento de agressividade verbal e algumas vezes física. Durante o período em que a esposa tentava responder na mesma moeda, não houve aceitação da possibilidade de uma doença. O ponto de virada foi quando ela, com uma postura humilde, expôs a ele o quanto ela estava sofrendo. Ao ser apresentado ao sofrimento da esposa, ele teve a possibilidade de visualizar seu problema. Nesta situação a mudança existiu quando a esposa saiu da postura de ataque e decidiu explicar os sentimentos dela, o quanto estava sendo custoso suportar o comportamento, incluindo a possibilidade de deixar o casamento.

Durante um curso de formação para agentes de saúde que ministrei, conheci uma agente que tinha um irmão alcoólatra. Ela relatou que costumava tratá-lo com desdém e de modo hostil. Após a primeira aula, ela tomou a decisão de mudar de atitude. Em uma das chegadas do irmão alcoolizado, ela o cumprimentou com um “boa tarde” seguido do nome dele. Ela se assustou com o estado de choque do irmão ao ser recebido desta maneira, e percebeu logo que poderia obter sucesso. No dia seguinte ele chegou em casa menos alcoolizado e após a mesma recepção ela sentou para ouví-lo, perguntou sobre seu dia, e sobre outras amenidades. A cada dia que se passava ele chegava melhor e mais colaborativo, passou inclusive a trazer alimentos para casa, ao invés de gastar todo o dinheiro no bar. Uma semana depois ela perguntou, em tom nem um pouco agressivo, quais eram os motivos que o levaram a beber e o papel da bebida em sua vida, o que gerou maior desejo e força para ajudar. Nesta situação o ouvir, mudar atitudes, se importar e elogiar cada pequeno progresso fez a diferença, mesmo que ele não tenha conseguido parar totalmente com a bebida até onde acompanhei a história.

Certa ocasião tive a oportunidade de ouvir a esposa de um membro extremamente fiel, que era atormentada por um ciúme obsessivo de uma ex-namorada de seu marido. Ele nunca teve contato com esta pessoa após o término daquele namoro. Eles estavam sofrendo, pois a esposa tinha sua mente invadida por estes pensamento, e muitas vezes afligiu o esposo com comentários ofensivos. Ela notava o quanto fazia mal a si e ao esposo, mas apesar de orar e jejuar não conseguia se livrar dos pensamentos. Era um caso inequívoco onde os melhores esforços foram tentados, ela estava enfrentando pensamentos doentios. Ela aceitou o conselho e iniciou um tratamento, o que melhorou muito a vida familiar. Nesta situação a ajuda de um terceiro foi essencial, o marido jamais conseguiria ajudá-la a entender a natureza patológica de seus pensamentos.

Há situações que não podem esperar, cabe ressaltar que quando uma pessoa põe em risco a vida ou segurança de si mesmo ou de terceiros, cabe ao serviço de saúde internar ou medicar mesmo que involuntariamente, nestas situações há previsão legal para esta atuação (Lei federal 10.216 de 2001).

Geralmente eventos extremos impulsionam pessoas resistentes a procurar ajuda, já atendi pessoas que só aceitaram tratamento após terem a vida em risco, prisões, processos judiciais, agressões a pessoas que amavam, quando deprimiram, dentre outras situações. Lamentavelmente, alguns só aceitam ajuda quando estão próximo ao “fundo do poço”, como ocorreu com o filho pródigo.

Os membros da igreja contam com muitos aliados. Os líderes podem ser aquele terceiro que será melhor ouvido do que os familiares, ou serem fonte de orientação. Além disto temos o direito de receber revelação para lidar com estes desafios. Temo que muitos dos que sofrem por terem um parente ou amigo que não aceita ajuda não estejam utilizando todos os recursos do evangelho como:

· Orar e jejuar para que a pessoa compreenda sua situação;
· Colocar o nome do familiar ou amigo na lista de oração do templo;
· Demonstrar amor através de ouvir e servir aquela pessoa que não reconhece sua doença;
· Aplicar a quantidade correta de firmeza na repreensão e correção;
· Buscar ouvir e agir de acordo com as orientações do Espírito Santo, sabendo que ele vai nos aconselhar em todas as coisas;
· Contar com ajuda da liderança eclesiástica;
· Oferecer a oportunidade para realização de bênçãos do sacerdócio;
· Ter paciência e longanimidade;

Além da igreja, no caso de dependência química, há grupos para familiares, mesmo de pessoas que não desejam tratamento como Al-Anon, Alateen e Nar-Anon. Estes grupos ajudam aos familiares a conviver melhor e até a oferecer ajuda de uma forma mais efetiva. Outra possibilidade é que os familiares passem por uma consulta médica ou com psicólogo para relatar o caso e receber orientação.

Os bispos, na maioria das localidades, têm acesso a uma listagem de profissionais que são membros da igreja cadastrados nos Serviços Familiares SUD. Estes profissionais são membros da igreja em sua maioria, ou referenciados por membros, e podem ser consultados. A atuação destes profissionais não é um chamado da igreja, de modo que eles podem cobrar seus honorários, alguns prestarão o serviço por um valor menor aos membros da igreja.

Assim como ocorreu com o povo de Alma, como descrito em Mosias 24, pode ser que o Senhor não remova de forma definitiva o desafio imediatamente, mas certamente ele pode nos oferecer todos os recursos necessários para conseguirmos suportar o desafio de conviver com alguém que não aceita a devida ajuda. Além disto Ele pode proporcionar experiências e meios, através da oração, para abrir os olhos dos que não aceitam ajuda.

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Luciano Sankari

Serviu na Missão Brasil Recife Sul de 1996 a 1998.Graduado em medicina em 2003 na Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná, com Especialização em Cardiologia HC-UFPR e em Gestão do Trabalho e Educação em Saúde ENSP/FIOCRUZ. Trabalha na área de psiquiatria há 12 anos. É Presidente da Estaca Curitiba Brasil Novo Mundo. Casado, tem 3 filhos.
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