Certa vez estava no templo de São Paulo passando o dia todo em treinamento em preparação para servir como oficiante.

Já no período da tarde, como estava grávida de cinco meses, algumas irmãs não queriam que eu fizesse muita coisa.

Naquela época não haviam as mesmas orientações de hoje quanto as oficiantes não serem mães de crianças pequenas, então minha empolgação me fazia insistir em continuar com os treinos e memorizações.

De repente, uma movimentação mais acelerada começou a acontecer em minha volta. Tratei de saber o que se passava, foi quando me explicaram que inúmeros membros que haviam vindo de uma caravana de Manaus estavam prestes a entrar na sala celestial.

As oficiantes estavam radiantes, todas tinham um semblante de grande felicidade, como se elas mesmas estivessem passando por aquela experiência pela primeira vez. ” Toda vez que recebemos caravanas de Manaus, sempre temos experiências fortes. Eles fazem muitos sacrifícios para vir até o templo” -disse-me uma das minhas treinadoras. TODOS querem oficiar nos dias que eles estão aqui. Quanto maior o sacrifício, maior o crescimento! Para minha surpresa, uma oficiante para a sala celestial foi requisitada.

“Posso ir!” – Afirmei com toda convicção! Como eu acabara de ter minha ficha de treinamento assinada pela coordenadora, e o trabalho dentro da sala celestial seria algo bem simples para minha gravidez, uma autorização foi logo dada.

Abriram-se as portas e me posicionaram dentro da sala celestial antes que qualquer pessoa lá entrasse. Fiquei sozinha por alguns minutos, num doce silêncio que pareciam eternos, sem jamais imaginar a experiência que teria logo em seguida.

Dentro da sala, minha atuação seria bem simples, só precisaria receber as pessoas que viriam da sessão para ter um momento dentro daquele ambiente sagrado, e ficar atenta para ver se alguém precisaria de ajuda, ou no caso, se alguém precisasse se retirar.

Aos poucos a sala começou a ficar repleta de pessoas. Podia-se notar que eram muitas e muitas famílias, ao ponto de ocuparem todos lugares dentro da sala celestial. Praticamente não havia mais espaço, mas as pessoas continuavam a chegar. Ficamos como uma multidão! Num silêncio tocante… abraços apertados, muitos sorrisos. Olhos chorosos… lágrimas silenciosas… olhares de ternura, Expressão de gratidão!

E eu os observava atentamente como havia sido orientada. Até que não pude deixar de notar um grupo em especial. Estavam abraçados em círculo, todos apertados, com os braços entrelaçados fortemente como se quisessem se certificar de que TODOS realmente estavam alí naquele momento.

Assim que um último indivíduo que eles aguardavam se juntou àquele grande abraço todos começaram a chorar e chorar desenfreadamente. Fui me aproximando … ainda sem saber ao certo o que deveria fazer.

O choro se intensificava e o som já havia enchido toda a sala. Aguardei por um instante e então perguntei se tudo estava bem. Um sorriso respondeu-me que sim! Acabei mencionando que aquele era um momento muito emocionante mesmo. Então num breve diálogo pude compreender o que se passava, a razão de toda aquela emoção. “Viemos de muito longe irmã!” Me disseram limpando as lágrimas. Eu sei! Respondi. Vocês vieram de Manaus não é? Imagino o quanto deve ter sido sacrificante chegar até aqui. Sim!- Responderam. “queríamos vir todos juntos e poder fazer o selamento da família. Mas não tínhamos dinheiro suficiente para que todos pudessem vir e ser selados. – Alguém me explicou.

Meu olhar atento deve ter-lhes feito a pergunta que se formara na minha mente: “Então, como conseguiram viajar até aqui?” Antes que eu abrisse a boca numa acanhada tentativa de fazer-lhes a tal pergunta, uma voz mais jovem respondeu: “- Nossa casa! Vendemos nossa casa irmã! ”

Uma avalanche de emoções tomou conta de mim e para tentar manter o controle, continuei com o diálogo: – E como vão fazer agora? Como vai ser quando voltarem pra casa? Aliás, que casa? – pensei! Uma voz mais madura respondeu: “Talvez vamos nos separar, cada um vai para a casa de um parente ou amigo. Não sabemos direito ainda. Mas voltaremos todos selados!” Balancei a cabeça concordando com a resposta dada e tratei de me afastar na tentativa de me recompor de tantas emoções e aprendizado. Sim! Compreendo!

Passarão a viver em casas separadas temporariamente. Mas mesmo que o tempo passe e que essa vida não lhes ofereça a oportunidade de terem uma outra casa, grande o suficiente para viverem juntos em família, pois que eram muitos, isso não importava… pois a partir daquele dia, teriam uma família selada! Não importava se viveriam separados, estariam selados! Quanto maior o sacrifico… maior o crescimento!

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Vera Ribeiro

Vera Ribeiro, casada, mãe de três filhos, é escritora de livros infantis e juvenis. Além dos livros, desde 2011 tem tido publicações de alguns poemas e crônicas no exterior. Atualmente está trabalhando em projetos de CDs, peças teatrais e videoclipes voltados para o entretenimento da criança brasileira.
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