Alguns anos atrás, quando o Pew Research Center pesquisou sobre os Mórmons nos EUA e suas posições na sociedade, mais de 60 por cento dos participantes disseram que os americanos “estão desinformados sobre o mormonismo”. Os Mormons são cerca de dois por cento da população americana – quase o mesmo que os judeus – mas eles não têm certeza se o resto do país os compreende ou aceita. O mais impressionante é que a maioria dos Mórmons descreveu erros de interpretação sobre sua religião ou “falta de aceitação na sociedade Americana”.

Mas há ao menos um lugar na sociedade americana onde os Mórmons encontraram um grau de aceitação pouco comum – em agências como o Departamento de Segurança Nacional, o FBI e a CIA, que vêem os Mórmons particularmente como recrutas desejáveis e têm uma reputação de contratarem um número desproporcional de pessoas que pertencem à igreja.

Embora seja uma surpresa para a maioria das pessoas, é senso comum em Washington e particularmente entre as pessoas que trabalham ou prestam contas para inteligência e aplicação de leis. E ocasionalmente isso transparece para a cultura popular: em suas memórias de 2009 “Agent Bishop”, Mike McPheters descreve seus anos agindo em duplicidade como um agente do FBI e um bispo Mórmon – uma posição de liderança na comunidade que ele herdou de um outro agente do FBI. Mais recentemente uma (controversa) subtrama no seriado da ABC “Quantico” mostrou um recruta Mórmon cuja reputação elevada escondia um segredo sombrio.

Mas, na realidade, os Mórmons vão parar nessas agências por razões perfeitamente lógicas. O número desproporcional de Mórmons está normalmente calcado em três fatores: Os Mórmons costumam ter fortes habilidades de linguagem, por causa das missões; uma facilidade relativamente grande de passar por certificados de segurança, dada a sua abstenção ao álcool e drogas; e uma boa vontade em servir.

Existiram agentes do FBI Mórmons desde o início da história dos Departamentos de Investigação Americanos. Algumas histórias alegam que J. Edgar Hoover tinha um interesse particular em recrutar agentes Mórmons: um líder Mórmon muito conhecido, J. Martell Bird, serviu no auge dos dias de Hoover, dos anos 1940 até o final dos anos sessenta, e há uma famosa história de um agente Mórmon que, em 1940, apenas cinco dias depois do moderno FBI ter nascido, recebeu a tarefa de apoiar o primeiro agente duplo da agência, na Alemanha.

Mas foi só nos anos 1970 que os outros começaram a prestar mais atenção e estabeleceram conexões entre os proeminentes Mórmons e a CIA, a conspiração do Watergate e outras atividades governamentais. Um relatório da CIA de 1975, por exemplo, incluiu o rumor que uma empresa de Relações Públicas de propriedade de um Mórmon deixou disponíveis alguns “escritórios além-mar” como disfarce para funcionários da Agência operando no exterior. E em 1980 um professor da BYU disse aos autores de “The Mormon Corporate Empire”, um estudo social científico de 1985 sobre a igreja e seu poder, que “nunca tivemos problema em qualificar alguém que tenha se candidatado à CIA”. “Todos os anos eles pegam quase qualquer um que se candidata”, ele disse.

Foi por volta dessa época, também, que dois casos puseram os membros Mórmons do FBI dramaticamente diante dos olhos do público. Em 1984, o agente do FBI Richard W. Miller foi preso; ele depois se tornou o primeiro agente do FBI a ser acusado e eventualmente condenado de espionar para a União Soviética. (Miller não foi o primeiro Mórmon a estar nessa posição, entretanto: antes, em 1983, um Mórmon que havia trabalhado na inteligência do exército foi preso por transmitir segredos aos Soviéticos). Miller se envolveu com uma imigrante da União Soviética e acabou preso e excomungado da Igreja. Depois que Miller falou aos superiores sobre seu relacionamento com Svetlana, em seu julgamento, depoimentos revelaram um emaranhado de religião e trabalho nos escritórios do FBI de Los Angeles no qual ele oficiou. Miller acabou não sendo demitido, e muitos achavam que fosse por proteção de chefes do FBI que também eram mórmons.

Outro caso foi o de Perez, um agente do FBI latino, que tinha dado entrada no escritório em sua primeira reclamação por discriminação sobre oportunidades iguais para os funcionários. No curso dos próximos anos ele, junto com outros 300 agentes, daria entrada em uma ação de classe conjunta contra o FBI por discriminação. Parte da reclamação deles era que seus superiores Mórmons tinham favorecido agentes de sua própria religião.

O Juiz decidiu em favor do agente hispânico, na acusação de discriminação, ele escreveu que o testemunho no julgamento mostrou que o líder Mórmon “tomou decisões pessoais que favoreceram membros da igreja deles às custas dos membros da classe hispânica”.

Juntos, esses dois casos, que foram extensivamente cobertos pela mídia, criaram uma nova ideia na mente do público: De que havia um corporativismo Mórmon dentro do FBI.

É difícil definir os números exatos deste fenômeno, tanto antes quanto agora. As estatísticas demográficas públicas da agência não incluem o histórico religioso de seus funcionários, mas o FBI não é conhecido por sua diversidade. Mesmo depois que os funcionários hispânicos ganharam aquela causa de discriminação e depois de outros processos similares sobre a prática de contratação, a maior parte das pessoas trabalhando para o FBI é de homens caucasianos. O que é sabido é que agências como a CIA e o FBI ainda recrutam pela BYU, procurando por estudantes com habilidades em línguas e interesse em serviço público, apesar de que mesmo a faculdade não sabe quantos de seus estudantes no fim das contas conseguem esses empregos. “Nós tentamos rastrear a efetivação e o recrutamento, e é realmente difícil definir” disse um porta-voz da BYU.

Esses não são necessariamente empregos galmourosos. Muitos dos recrutas Mórmons da CIA trabalham em análises, os caras por trás das mesas do mundo da inteligência, e deixam sem contruir toda uma carreira no governo. Para aqueles que quiserem, entretanto, há um movimento fácil a fazer, quando estiverem prontos para deixar o serviço do governo. É comum que, depois de uma longa carreira no FBI, os agentes vão se juntar ao Departamento de Segurança dos Santos dos Últimos Dias. Bird, o agente do FBI que trabalhou com Hoover, se tornou chefe da segurança da igreja; Richard Bretzing, o chefe de investigação de Los Angeles que foi chave ao espalhar a ideia de que havia uma máfia Mórmon, deixou o departamento em 1988 – e se tornou diretor geral do mesmo escritório.

Tradução e adaptação Eduardo Marcondes

Fonte: www.atlasobscura.com

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Eduardo Marcondes

É jornalista há 20 anos, com ênfase na atuação em Rádio e Televisão. Foi repórter, editor e apresentador, com passagens por praticamente todas as emissoras com sede na capital paulista, entre elas o Grupo Bandeirantes e o SBT. Atualmente faz trabalhos de textos em parceria com alguns empresários e escreve regularmente na internet há pouco mais de ano.
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