Falar ou dar conselhos práticos sobre uma dor que não se sente é algo muito fácil. O médico que coloca uma fratura no lugar não sabe exatamente a intensidade da dor que o paciente sente, a menos que ele tenha passado pelo mesmo procedimento. Ainda assim a analogia é fraca pois pessoas têm limiares de dor diferentes.
Frases belas e motivadoras são pouco úteis: “Você precisa deixar isto para trás!” , “Precisa ser forte!”A ansiedade por oferecer algum tipo de consolo com estas frases pode nos levar a ser mais um incômodo.
É muito difícil dizer como cada situação vai evoluir. O tempo para maturação da assimilação de uma experiência traumática é imprevisível. Pensando de uma forma muito pragmática, o importante é o cuidado com a vítima. O primeiro trabalho são com os próprios sentimentos, exigir inicialmente que a vítima tenha compaixão ou perdoe pode ser uma carga que esteja acima da capacidade de suportar.
A primeira necessidade é que as visões distorcidas das vítimas sejam corrigidas. Embora não precisem receber perdão, por não terem cometido pecado algum, o fantasma de que o ocorrido foi por culpa própria ou por “ter merecido” como castigo  invade com violência os pensamentos de quem sofreu abuso. A sensação de estar sujo ou em pecado é uma estratégia satânica para destruir o indivíduo. Todas estas ideias precisam ser desconstruídas.
Talvez alguns possam estar pensando que estou sendo excessivamente complacente, mas não importa quem é a vítima, abuso sexual não pode ser tratado com um julgamento moral. A moça que foi a uma festa  de saia curta e sabendo que no ambiente haveria  bebida, drogas, pessoas sem padrão com músicas de conteúdo pornográfico está sujeita a um risco? Sim, numa proporção parecida como alguém que resolve andar com grandes joias de ouro em uma região de alto índice de criminalidade. É inegável que sim, mas isto jamais deve ser o centro da discussão. Nada, em absoluto, justifica a decisão pessoal de um abusador de fazer uma vítima. Quantas vítimas completamente inocentes conhecemos? Culpabilizar a vítima não é a melhor estratégia. Em contrapartida devemos entender que viver os padrões do evangelho nos oferece segurança adicional e pode reduzir muito a possibilidade de nos tornarmos vítimas.
Tive algumas entrevistas em que fui procurado por jovens ou adultos pensando que tinha culpa por quebra da lei de castidade, pois quando eram crianças foram levadas por coação ou convencimento de alguém mais velho à práticas sexuais. Coube-me assegurar que foram vítimas, não pecadores. Recordo que para justiça brasileiras relação de uma adulto com criança menor de 14 anos, mesmo que consentida, é ilegal, considerada estupro de vulnerável.
O amado Elder Richard G. Scott ensinou:
“Para encontrar alívio das consequências do abuso e dos maus-tratos, é bom compreender o que causa esses males. Satanás é o autor de todas as consequências destrutivas do abuso. Ele tem a capacidade extraordinária de conduzir uma pessoa até um beco sem saída, no qual não se pode encontrar a solução para problemas extremamente difíceis. Sua estratégia é afastar a alma que sofre, da cura que ela pode receber de um Pai Celestial compassivo e de um Redentor amoroso
Se você sofreu abuso, Satanás tentará fazer com que você se convença de que não há solução. Mas ele sabe perfeitamente bem que a cura existe. Satanás reconhece que a cura vem por meio do amor inabalável que o Pai Celestial tem por todos os Seus filhos. Ele também sabe que o poder de cura é inerente à Expiação de Jesus Cristo. Portanto, sua estratégia é fazer todo o possível para separar você de seu Pai e do Filho Dele. Não se deixe convencer por Satanás de que não há como você receber ajuda.
Satanás usa o abuso que você sofreu para minar seu auto-respeito, destruir sua confiança nas autoridades, gerar medo e suscitar sentimentos de desespero. O abuso pode prejudicar sua capacidade de desenvolver relacionamentos humanos saudáveis. Você precisa crer com fé que todas essas consequências negativas podem ser resolvidas, caso contrário elas impedirão que você se recupere completamente. Embora essas consequências tenham poderosa influência em sua vida, elas não definem quem você é.
Satanás tentará fazer com que você se afaste de seu Pai Celestial, dizendo que se Ele amasse você teria impedido a tragédia. Não se afaste da fonte da verdadeira cura por causa das artimanhas do príncipe do mal e de suas tirânicas mentiras. Reconheça que se tiver o sentimento de que o Pai Celestial não ama você, isso se deve à manipulação de Satanás. Mesmo que pareça difícil orar, ajoelhe-se e peça ao Pai Celestial que lhe dê a capacidade de confiar Nele e de sentir o amor que Ele sente por você. Peça para saber que o Filho Dele pode curar você por meio de Sua misericordiosa Expiação” Como Curar as Devastadoras Consequências dos Maus-tratos e do Abuso, Richard G. Scott, Conferência Geral de Abril de 2008.
Além de negar qualquer ideia destrutiva e falsa, na ausência do que falar, o melhor é ouvir. Talvez um diálogo qualificado em  situações  como estas seja:“Eu não sei o que dizer ou fazer em uma situação como estas, mas estou ao seu lado e me ajude a saber como te ajudar.”
Com o passar do tempo precisamos cuidar para que reações como a superproteção dos cuidadores ou o medo da vítima não bloqueiem os eventos necessários para evolução na vida. A vida precisa ser retomada, atividades salutares precisam preencher o espaço ocupado pela dor.
Eu não sei todas as coisas. Não sei na prática todos os detalhes de como a expiação de Cristo pode agir em cada ponto, a mecânica dos milagres, mas a promessa é que todas as dores e injustiças podem ser corrigidas pela expiação de Cristo, e sei que isto é verdade.
“E ele seguirá, sofrendo dores e aflições e tentações de toda espécie; e isto para que se cumpra a palavra que diz que ele tomará sobre si as dores e as enfermidades de seu povo.  E tomará sobre si a morte, para soltar as ligaduras da morte que prendem o seu povo; e tomará sobre si as suas enfermidades, para que se lhe encham de misericórdia as entranhas, segundo a carne, para que saiba, segundo a carne, como socorrer seu povo, de acordo com suas enfermidades.” Alma 7:11-14
Quando as questões pessoais das vítimas  se resolvem, o perdoar e esquecer surgem naturalmente. Este processo pode ser muito demorado, mas com o exercício do evangelho ele virá, a vítima não deve se flagelar durante este tempo, exigindo de si mesma a capacidade de perdoar imediatamente.
O ABUSADOR SEMPRE PRECISA SER DENUNCIADO NO MÍNIMO AO LIDERES ECLESIÁSTICOS. Embora possa ser uma decisão difícil, sempre oriento a busca de autoridades policiais, principalmente se a vítima continua sofrendo abuso. A igreja conta com um departamento legal para ajudar os líderes em assuntos como este.
Tenho extremo temor da ideia licenciosa de dar indefinidas chances aos que cometem abusos no ambiente familiar , é necessário ter grande cuidado para não ser uma vítima constante da mesma pessoa, ou não permitirmos que o abusador faça vítimas em série.
Gosto muito de imaginar como Cristo ouviria uma vítima de abuso. Não consigo imaginar outra coisa que não um olhar sincero e amável, um ouvinte atento, sem julgar mau, capaz de transmitir amor pela simples presença. Mesmo quando precisou corrigir pessoas que cometeram pecados sexuais (ressalto que sofrer abuso não é pecado) corrigiu sem longos sermões ou reprimendas, mas de forma firme e amável: “Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais.”. João 8:11
Por vezes a ajuda profissional será necessária, recusar esta possibilidade pode ser tão ou mais grave que  recusar tornar um  remédio para controlar pressão alta ou diabetes, ou deixar de  fazer uma cirurgia quando indicado. Estamos falando de risco à saúde.
Tenho uma súplica àqueles que sofrem qualquer tipo de abuso: busquem ajuda. Da  mesma forma suplico aos que ainda carregam a dor de um abuso sofrido: busquem ajuda.

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Luciano Sankari

Serviu na Missão Brasil Recife Sul de 1996 a 1998.Graduado em medicina em 2003 na Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná, com Especialização em Cardiologia HC-UFPR e em Gestão do Trabalho e Educação em Saúde ENSP/FIOCRUZ. Trabalha na área de psiquiatria há 12 anos. É Presidente da Estaca Curitiba Brasil Novo Mundo. Casado, tem 3 filhos.
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