Este mundo em que vivemos não é um paraíso, tanto que podemos chamá-lo de mundo solitário e triste. É inegável que durante a história da humanidade sempre houve comportamentos cruéis coletivos ou individuais. Podemos lembrar fatos históricos que podem nos causar vergonha de pertencer a espécie humana como a escravidão e o holocausto nazista. A tendência é a degradação nesta esfera mortal.

“Sabe, porém, isto, que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, atrevidos, orgulhosos, mais amantes dos deleites do que amantes de Deus” II Timóteo 2:1-5

Na última conferência geral o Elder Kevin R. Duncan disse: “Tudo o que é de Deus engloba o amor, a luz e a verdade. Contudo, sendo seres humanos, vivemos em um mundo decaído, às vezes cheio de escuridão e de confusão. Não devemos nos admirar de que erros acontecerão, de que injustiças e pecados serão cometidos. Como resultado, não há uma só alma viva que não será, em um momento ou outro, vítima das ações descuidadas de outras pessoas ou até mesmo de comportamentos pecaminosos. Isso é algo que todos temos em comum.”

Adicionando, diria até que poderemos ser vítimas de atos de crueldade, daqueles que não tem “amor para com os bons”.

Há uma diversidade de formas de abuso e maus tratos desde os psicológicos aos físicos, mas minha experiência profissional e religiosa demonstra o terrível peso do abuso sexual, que lamentavelmente é muito comum, e de todas as formas de abuso, parece ser uma das mais terríveis e deletérias. Meu objetivo não é estabelecer o que é pior, mas sim avaliar a prevenção e o cuidados aos que sofreram ou sofrem.

Nunca é cedo para demonstrarmos para nossas crianças que certas atitudes não são adequadas e reforçarmos o vínculo da verdade. As crianças precisam saber que podem nos contar tudo, e que nada deve ser escondido de seus cuidadores. Pais que escutam com calma e postura amorosa criam uma comunicação facilitada para crianças e jovens. Assim que comecem a ter entendimento, é preciso explicar para nossos filhos que certas partes de seu corpo não devem ser tocadas por terceiros, e que caso isto ocorra eles precisam falar aos pais. As crianças não precisam saber os motivos, só precisam saber que não podem permitir e devem fugir.

Grande parte dos abusos ocorre dentro da própria residência tendo como perpetradores familiares ou “amigos” da família. Deixar os filhos aos cuidados de um terceiro precisa ser uma atitude bastante avaliada. Preocupa-me certa liberalidade em deixar filhos dormir ou passar longos períodos na casa de terceiros, mesmo parentes. Nada substitui a supervisão dos cuidadores. O abusador ou abusadora podem ser pessoas acima de qualquer suspeita, toda e qualquer queixa de crianças precisa ser investigada cuidadosamente.

Os abusos podem ocorrer mediante violência ou ameaça, mas grande parte ocorre através de aparentes brincadeiras ou mediante uma insistência que pode envolver argumentações e trocas. Precisamos lembrar que crianças não entendem o significado da sexualidade, embora geralmente desconfiem ou resistam por sentirem que o proposto é inadequado.

Com o aumento a idade o entendimento pode ficar mais claro, a abordagem de abusadores passa a ser diferente como a sedução de um menor até um relacionamento obtido por violência ou grave ameaça. Ressalto que práticas sexuais não consensuais mesmo dentro do casamento podem ser abusivas.

Seja qual for o meio pelo qual o abuso ocorreu, a medida em que a pessoa toma consciência dos fatos, os danos começam a ser instalados. Transtornos psiquiátricos graves, principalmente transtornos de personalidade, depressões, transtorno bipolar e ansiedade incidem mais em pessoas que sofreram abuso, e tendem a ser mais graves.

É comum notar nas vítimas uma terrível e esmagadora sensação de culpa, resistente à argumentação, sensação de menos valia, chegando a extremos com tentativas de suicídio e auto agressividade. Alguns veem a si mesmos como objetos, e noto muitas vezes a dificuldade imensa na tomada de atitudes que possam ajudar, devido a uma forte sensação de que não são seres que agem, mas que vivem para receber a ação. É impossível descrever o peso, a destruição, a intensidade destes sentimentos, a devastação causada, bem como me faltam palavras para descrever a agonia e angustia que me causam estes relatos, não pelo que aconteceu ou pelas cenas descritas, mas pela carga emocional transmitida. Não me falta, no entanto, o senso da responsabilidade e da grandeza que é ser depositário da confiança de uma pessoa que relata algo desta natureza.

O sigilo, o ouvir sem julgar, o olhar atento e a empatia são fundamentais, acredito que em nenhuma escuta se precise tanto recorrer às qualidades de Cristo como nestas situações. A curiosidade mórbida por detalhes jamais cabe neste momento, mais importante que os detalhes das situações, no momento inicial, são os detalhes dos sentimentos. Esta é a hora de acolher.

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Luciano Sankari

Serviu na Missão Brasil Recife Sul de 1996 a 1998.Graduado em medicina em 2003 na Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná, com Especialização em Cardiologia HC-UFPR e em Gestão do Trabalho e Educação em Saúde ENSP/FIOCRUZ. Trabalha na área de psiquiatria há 12 anos. É Presidente da Estaca Curitiba Brasil Novo Mundo. Casado, tem 3 filhos.
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