Alguns meses atrás durante uma aula da Escola Dominical um irmão fez um comentário que me fez pensar no quanto estamos fazendo nossa parte como membros da Igreja de Jesus Cristo e o quanto estamos dispostos a ajudar os jovens se prepararem para uma missão e serem nossos futuros líderes. O irmão falou que feitos passados não brilham hoje.

Essa pequena frase fez-me lembrar de vários momentos que ouvi a frase “quando eu era jovem”. Confesso que nunca gostei da forma como essa frase foi colocada em todas as vezes que a ouvi.

Sempre foi usada com um tom de critica aos jovens de hoje por serem “moles”, desinteressados, irresponsáveis e tantas outras coisas ou aos líderes por não serem tão eficientes como um dia já fomos. As pessoas que falaram essa frase em aulas e atividades, sempre disseram que quando eram jovens tiveram que frequentar o seminário às 5:30hs da madrugada, que participaram de acampamentos de “verdade” que aconteceram com barracas e tinham que fazer comida na fogueira, que não faltavam nas atividades e que quando tiverem aquele chamado fizeram tantos feitos maravilhosos.

Mas e hoje? Hoje estamos chegando às atividades antes que elas comecem? Hoje estamos dando o nosso máximo em nossos chamados? Hoje estamos fazendo nossas visitas de Professoras Visitantes e Mestres Familiares? Hoje fazemos o impossível para que nossos filhos possam estar nas atividades? Hoje nos oferecemos para ajudar nossos líderes? Ou será que hoje fazemos como Lamã e Lemuel “que murmuravam a respeito de muitas coisas” (1Néfi 2:11)?

Devemos lembrar-nos que quando fomos jovens, eram outros tempos e que quando tivemos aquele chamado, eram outras circunstâncias. Que em nossa vida, cada vez que somos obedientes aos mandamentos, não significa que teremos nossa mansão no reino celestial. Mas que cada obra que fizermos será um tijolo para a construção dessa mansão. O que significa que nossos feitos passados não significam nossa condenação eterna ou exaltação.

Por que digo condenação? Porque infelizmente temos o mal habito que acharmos que somos juízes em Israel e que temos o direito de lembrarmos eternamente os erros que as pessoas cometeram, rotulando-as e fazendo questão de por vezes usarmos no sarcasmo dizendo “quem ela/ele acha que é pra falar sobre esse assunto? Lembro-me de quando fez isso… é um absurdo”. E justificando erros passados da pessoa para deixarmos de cumprir com nosso papel de membros da igreja.

Alguns anos atrás, tive uma experiência extremamente desagradável. Casei-me e mudei para uma nova ala onde os membros não sabia que eu tinha menos de 2 anos de batismo. O fato de ter um bom conhecimento dos princípios, apesar de minha dificuldade de fazer referência as escrituras, muitos deles supunham que eu era membro da igreja há muitos anos.

Até um dia que apareci na capela com um dos braços com uma pintura indígena. Eu havia feito um curso sobre cultura indígena brasileira e na última aula, cada aluno foi pintado por um índio com os traços de sua tribo e o simbolismo de cada um deles. Eu poderia ter recusado, mas no momento achei algo tão interessante que acabei sendo pintada. Ao chegar em casa, senti o arrependimento. No dia seguinte era domingo e eu tive duas opções: ficar em casa até o desenho sair de minha pele ou ir para a igreja, mesmo tendo cometido esse erro.

Optei por ir à igreja e logo que a Reunião Sacramental terminou um irmão que eu admirava muito por seu exemplo em seguir a Cristo quando jovem, veio em minha direção, olhou meu braço e com tom de sarcasmo me perguntou se eu havia virado lamanita. Antes que eu pudesse falar algo, ele chamou os dois filhos, uma menina de 9 anos e um menino de 7 anos. Ele apontou para o meu braço e falou para os filhos que eles jamais deveriam fazer o que eu fiz porque isso não era atitude de membro da igreja e que eu deveria saber disso já que era membro da igreja desde menina.

Fiquei arrasada com a situação e por semanas chorei por me sentir a pior pessoa do mundo. Até que compreendi que o arrependimento está ao alcance de todos em qualquer momento de nossa vida e independente de quanto tempo temos de batismo, que esse erro em breve sairia de minha pele e que o Senhor iria me perdoar.

Essa experiência me fez ver de forma clara de que realmente nossos feitos passados não nos condenam por toda a eternidade.

Eu não seria a pessoa que sou hoje, se não tivesse a oportunidade de me arrepender e seguir em frente. Meus feitos posteriores, juntaram tijolos no reino celestial e em alguns momentos falhei.

Devemos ter fixado em nossas mentes com mais firmeza de que hoje é o momento de deixar nossa luz brilhar. Que é hoje que devemos servir “de todo o coração, poder, mente e força.” (Doutrina e Convênios 4:2)

Devemos deixar de brincar de sermos membros da igreja, parar de ficar nos justificando e servir mais. O Senhor conhece a cada um de nós e não nos dá nada que não sejamos capazes de suportar.

Muitos de nós temos o privilégio de nascer no convênio ou se tornarem membros ainda muito jovens e desde seus batismos se esforçaram por viver o evangelho cumprindo com os programas da Igreja como o Fé em Deus, Progresso Pessoal ou Dever para Com Deus, se formaram no seminário e instituto, serviram uma missão de tempo integral, casaram-se no templo e hoje tem seus filhos. Mas isso não significa que já somos merecedores da exaltação. Esses feitos são tijolos para a mansão.

O que fazemos hoje? Estamos sossegados, apenas indo as reuniões dominicais e fazendo Noites Familiares? Não devemos ser lindas famílias ou o tipo de membros que são usados para dar exemplos positivos, mas sermos acima de tudo discípulos de Cristo e demonstrarmos amor aos filhos de Deus.

Quantas vezes deixamos de cochilar no domingo após o almoço para visitar um membro da ala que está doente ou não tem sua família na igreja? Quantas vezes deixamos de fazer um passeio que gostamos para fazer uma visita com os missionários?

Para seguirmos a Cristo hoje, requer sacrifícios e temos que ter isso em nossas mentes. Para que possamos ter a luz de Cristo e assim influenciar as pessoas a nossa volta a fazer o bem. Temos de deixar de ser mandados em tudo e agirmos por nós mesmos no serviço ao próximo.

Há dois anos, devido a uma chuva muito forte, muitas casas em São Paulo e cidades vizinhas foram alagadas. Minha casa foi uma delas e perdi todos os meus móveis, exceto a cama da minha filha e aparelhos eletrônicos e de cozinha. No dia seguinte uma irmã de outra estaca, soube do ocorrido, parou o carro novo em frente meu portão e pediu que eu jogasse todas as roupas que estavam sujas e molhadas em seu porta-malas. Senti-me envergonhada porque sabia que iria sujar o porta-malas e tentei dizer que não precisava. Ela insistiu e assim o fez. No dia seguinte ela me chamou novamente, pois havia passado a noite em claro lavando, secando e passando todas as nossas roupas porque ela ficou preocupada de não termos o que vestir.

Essa irmã me mostrou o que é fazer nossa luz brilhar e não viver de feitos passados. Ela nunca contou para ninguém o que fez, mas o que fez por mim e minha família foi algo grandioso e que lhe rendeu vários tijolos no reino celestial.

Que possamos ser como essa irmã, que não se importou com o carro, mas sim em servir ao próximo. Ela colocou muitas coisas acima do serviço e fez sacrifícios por isso, assim cumprindo com o mandamento de servir de todo o coração, poder, mente e força. (Doutrina e Convênios 4:2)

Em Doutrina e Convênios diz 4:3 diz “Portanto, se tendes o desejo de servir a Deus, sois chamados ao trabalho”. Quando deixamos nossos feitos passados no passado e deixamos de dar desculpas para servir. O Senhor nos mostrará a quem servir e quando servir. Que possamos estar atentos às oportunidades que o Senhor nos dá não só em nossa família ou entre os membros de nossa ala, mas em nossa comunidade.

Deixemos de nos vangloriar dizendo que fomos melhores jovens ou líderes e sejamos as pessoas que podem fazer diferença na vida de um jovem ou líder.

Quando minha família se batizou, meu irmão mais novo tinha 15 anos e ele permaneceu firme no evangelho, graças a dois presidentes dos rapazes e um bispo. Que incentivou, cobrou e repreendeu-o quando necessário. Fazendo assim com que ele terminasse o programa Fé em Deus, servisse uma missão de tempo integral e hoje seja um líder na igreja. Esses líderes poderiam simplesmente ter dito que era obrigação da família ajuda-lo, mas escolheram ser a diferença na vida dele e compreendiam seus chamados.

Devemos deixar de dizer que os outros são culpados por não servirmos na igreja ou por não servirmos mais. De falar que não temos tempo e não temos o apoio necessário. Em Doutrina e Convênios 88:82 o Senhor diz “Portanto, não têm desculpa e seus pecados estão sobre sua própria cabeça.”

Que deixemos o passado para trás, seja ele bom ou ruim e vivamos o hoje de forma a sermos merecedores do reino de Deus.

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Michele Romero

Conheceu a Igreja e batizou-se em 2004, por meio de um Cartão da Amizade que sua mãe recebeu de uma colega de trabalho. Selou-se em 2005 e tem uma filha. É criadora e moderadora do blog "As Tontas Vão Ao Céu". Atualmente, serve como Consultora de História da Família da Ala, bibliotecária da Ala, Segunda Conselheira da Organização das Moças da Ala, facilitadora do curso "Minha Busca por Emprego" da Estaca e Missionária de Suporte do Family Search.
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