O Livro de Mórmon é repleto de nomes próprios para pessoas e locais, tais como Néfi, Zorã, Naom e Zaraenla – apenas para citar alguns. De acordo com vários estudiosos, esses nomes e seus significados ajudam a confirmar o que Néfi disse, sobre o registro ter sido escrito de acordo com o conhecimento dos judeus e a língua dos egípcios. (1 Néfi 1: 2)

No início do livro de Éter vemos surgir uma das palavras peculiares mais conhecidas entre os Santos dos Últimos Dias: “E levaram também consigo deseret que, por interpretação, significa abelha de mel; e assim carregaram consigo enxames de abelhas e uma variedade de tudo que havia na face da terra, sementes de toda espécie.” (Éter 2: 3) 

Quando Morôni traduziu o registro jaredita, que se encontrava nas vinte quatro placas resgatadas pelo povo de Lími nos dias do Rei Mosias, ele o fez de modo parcial e, portanto teve de escolher criteriosamente o que incluir na tradução. (Éter 1: 1-5) Curiosamente Morôni decidiu mencionar um dos passageiros mais interessantes da companhia de Jarede, a abelha de mel. O que teria motivado Morôni a incluir no Livro de Éter a menção à palavra deseret e seu significado? Por que ao traduzir o registro jaredita ele não apenas citou a presença de enxames de abelhas? Ao estudarmos sobre o contexto histórico do povo jaredita, talvez possamos encontrar respostas interessantes, que nos ajudarão a vislumbrar o quão magnífico é o Livro de Mórmon e sua inspirada compilação e posterior tradução. 

De acordo com o próprio livro de Éter, o povo jaredita deixou a Mesopotâmia rumo ao continente americano nos dias da construção da Torre de Babel, aproximadamente 2.300 a.C. Por esta razão, especulou-se que a palavra deseret deveria pertencer a alguma língua mesopotâmica antiga, o que definitivamente não acontece. O que se descobriu é que a palavra deseret significa ‘Coroa Vermelha’ na língua egípcia, como escreveu Stephen Parker e Antonio Brancaglion Jr. [1] [2] 

Deseret ou Deshret está associado com o Rei do Baixo Egito e o deserto de terras vermelhas que ladeia a fértil bacia do Rio Nilo. Ao chegarmos a este ponto, podemos nos perguntar por que Morôni interpretou deseret como ‘abelha de mel’ e não como ‘coroa vermelha’ e qual a relação do povo jaredita que veio da Mesopotâmia, com o Egito. 

À primeira vista uma explicação egípcia de uma palavra usada por um povo que veio da Mesopotâmia não parece muito convincente. Mas os historiadores nos ajudam a entender que de fato, a palavra deseret significando abelha de mel, não poderia ser identificada com um termo mesopotâmico, uma vez que a apicultura era praticamente inexistente na região: “Em uma cultura que produziu literalmente centenas de milhares de tabuletas cuneiformes detalhando todos os aspectos possíveis da vida, incluindo a agricultura, o silêncio sobre a apicultura é impressionante.” [3] 

Assim sendo, aparentemente os jareditas obtiveram suas abelhas de uma cultura estrangeira. Isso acontece justamente com a cultura egípcia. A partir de 3.300 a.C encontraremos ligações culturais entre o Egito e a Mesopotâmia. [4] Uma vez pertencentes a uma cultura mesopotâmica, a apicultura não seria familiar para Jarede e seu povo. Se acreditarmos que os jareditas obtiveram dos egípcios suas abelhas, isso explicaria por que eles provavelmente adotaram também uma palavra egípcia, e por que a mesma precisaria de uma definição. Porém, até este ponto aprendemos que na língua egípcia a palavra deseret significa ‘coroa vermelha’, não tendo nenhuma ligação com enxames de abelhas. É aqui que as coisas realmente se tornam mais interessantes. 

Hugh Nibley observou que os primeiros egípcios vieram de uma terra fértil para uma região desértica e a chamaram de “terra da abelha” e usaram a Coroa Vermelha ou Deseret como símbolo para seu novo assentamento: “ É uma extraordinária coincidência que a palavra deseret ou um termo semelhante a ela, desfrutasse de uma posição de proeminência ritual entre os fundadores da civilização clássica egípcia, que a associavam estreitamente ao símbolo da abelha. (…) Os pioneiros egípcios trouxeram de seu lar asiático um culto e simbolismo amplamente desenvolvidos. Seu principal objetivo de culto parece ter sido a abelha, pois a terra onde inicialmente se estabeleceram no Egito ficou conhecida para sempre como “a terra da abelha”, e era designada em hieróglifo pelo pictograma de uma abelha, ao mesmo tempo que todo rei do Egito “em sua posição de Rei do Alto e Baixo Egito” levava o título de “o que pertence ao junco a à abelha”. Desde o princípio, estudiosos dos hieróglifos ficaram intrigados com a espécie de som que deveriam conferir ao símbolo da abelha… Sabemos que o sinal da abelha nem sempre era escrito, mas era às vezes substituído pelo desenho da Coroa Vermelha, o símbolo de majestade do Baixo Egito, por motivos supersticiosos. Se não conhecermos o nome original da abelha, não saberemos o nome desta Coroa Vermelha – aquele que tinha quando substituiu a abelha. O nome era deseret.” [5]  Portanto, em certo momento da história egípcia, a Coroa Vermelha ou Deseret passou a significar ou estar intimamente ligada às abelhas. 

A proposta de Nibley é brilhante e de fato ajuda-nos a entender por que o Livro de Éter traduz deseret como abelha de mel, e como o contexto histórico dos jareditas confirma a ligação dessa palavra e seu significado com a cultura egípcia. 

Mas caso alguma peça aparentemente não se encaixe, vemos surgir uma alternativa para uma correta definição da palavra deseret. De acordo com Kevin Barney, deseret pode estar conectado com a palavra hebraica para abelha, Deborah (dbrh), com um último ‘t’ sendo a forma mais antiga da palavra. [6] Em proto-semítico, língua materna do hebraico e outras línguas antigas do Oriente Próximo, a palavra para abelha teria sido dvrt, que poderia ser facilmente confundida com deseret ou dsrt caso alguém fosse lê-la em voz alta. Além disso, as letras b,v,s e z em duas línguas próximas também poderiam ter sido facilmente confundidas, fazendo com que alguém escrevesse a palavra comodsrt em vez de dbrt. [7] 

Pertencendo a língua egípcia ou hebraica, a palavra deseret definitivamente parece ter chamado a atenção de Morôni, que incluiu no relato jaredita este importante detalhe. Ao viajarem para uma terra desconhecida, o fato de levarem com eles sementes de toda espécie, mostrou que o povo de Jarede entendia a importância das abelhas para a polinização de suas futuras colheitas. (Éter 2: 3) 

Quando os pioneiros Santos dos Últimos Dias tiveram de migrar para uma terra desconhecida, de modo semelhante ao jareditas e mesmo aos egípcios, utilizaram do mesmo símbolo da abelha ou colméia. Originalmente o estado de Utah fora conhecido com Deseret, e até hoje há uma loja de artigos de segunda mão, um jornal, uma editora de livros e uma cooperativa de crédito, que levam este nome. [8] Podemos encontrar o símbolo da colméia em vários outros lugares e publicações da Igreja ou de Santos dos Últimos Dias. De fato entre os Santos a abelha “é um símbolo do trabalho e da indústria”. [9] 

Quaisquer que sejam as origens antigas da palavra deseret no Livro de Mórmon, seu significado como abelha de mel, evoca paralelos com os relatos de migração nas escrituras, onde terras de promissão foram chamadas de terra de leite e mel. (Êxodo 3:8 e 1 Néfi 17:5)  

Notas 

1-Stephen Parker, “Deseret,” in Encyclopedia of Mormonism, 4 vols., ed. Daniel H. Ludlow (New York: Macmillan, 1992), 1:371. See Hugh Nibley, Lehi in the Desert/The World of the Jaredites/There Were Jaredites, The Collected Works of Hugh Nibley: Volume 5 (Salt Lake City and Provo, UT: Deseret Book and FARMS, 1988), 189–194 for his full discussion of deseret. 

2-Brancaglion Júnior Brancaglion Jr. (2001). Tempo, matéria e permanência: o Egito na Coleção Eva Klabin Rapaport. Casa da Palavra. p. 153 – 154. ISBN 978-85-87220-49-3. 

3- Ronan J. Head, “A Brief Survey of Ancient Near Eastern Beekeeping,” FARMS Review 20, no. 1 (2008): 62. 

4- John N. Postgate, Early Mesopotamia: Society and Economy at the Dawn of History (New York, NY: Routledge, 1992), 56. 

5- Hugh Nibley, The World of the Jaredites, 193. 

6- Kevin L. Barney, “On the Etymology of Deseret,” BCC Papers 1, no. 2 (November 2006). 

7- James L. Kugel, How to Read the Bible: A Guide to Scripture, Then and Now (New York, NY: Free Press, 2007), 87–88. 

8-Val Brinkerhoff, “The Symbolism of the Beehive in Latter-day Saint Tradition,” BYU Studies Quarterly 52, no. 2 (2013): 140-50.

9-Jeffrey Ogden Johnson, “Deseret, State of,” in Encycolopedia of Mormonism, 1:371

Siga-me!

Marcelo de Almeida

De Fortaleza/CE, e com 34 anos, Marcelo de Almeida é solteiro, missionário retornado e serve como Diretor de Indexação da Estaca. Ele estuda Enfermagem e é SUD desde os 16 anos, tendo servido na Missão Brasil Londrina.
Siga-me!

Últimos posts por Marcelo de Almeida (exibir todos)