De tempos em tempos nos deparamos com falhas e desafios pessoais duradouros que nos desanimam a tal ponto que somos tentados a exclamar: “Eu não presto ‘pra’ nada”, ou então “Tudo dá errado comigo”, ou “Eu não sou ninguém”, ou expressões similares.

Anos atrás eu escrevi o seguinte: “[Por] causa do chamado véu do esquecimento nós não lembramos as nossas verdadeiras identidades. … [Neste] estágio mortal frequentemente tendemos a nos julgar mutuamente baseados em critérios externos. Notamos e categorizamos os aspectos físicos dos nossos corpos: cor da pele e dos olhos, tipo de cabelo, ou então acessórios tais como roupas, carros, propriedades, ou outros aspectos mais ou menos intangíveis como idiomas, sotaques, conhecimento, sabedoria, experiência profissional, honrarias, títulos, graus, etc. Em geral, estas imagens externas, ou ‘fachadas’, são tudo o que vemos uns nos outros, e quase sempre nos satisfazemos com esse tipo de conhecimento.” (Martins, “‘Pensando no Passado Distante’: Considerações sobre Raças, Pré-Existência, e Mortalidade” – 1999)

Se mecanismos similares aos da genética mortal influenciam corpos espirituais, podemos imaginar que nossos espíritos pré-mortais possuem feições, características corporais, e traços de personalidade originários de nossos Pais Celestiais. Contudo, o corpo mortal funciona como parte do “véu” para o espírito (Hebreus 10:20) e não nos permite ver quem realmente somos por baixo desta cortina mortal. Se pudéssemos eliminar completamente o véu, lembraríamos de nossa condição pré-mortal de membros da realeza celeste e veríamos nossa condição mortal de forma bem diferente.

Ao estudarmos os relatos do ministério mortal do Salvador Jesus Cristo, vemos que foi a sua perfeita fé no seu glorioso status pré-mortal e no seu relacionamento singularmente igualitário com o Pai Eterno (João 14:11; 17:5) que lhe deu a força necessária para vencer todos os desafios sobre-humanos aos quais foi exposto. Como explicado por um anjo, ” … tentações e dores corporais, fome, sede e cansaço maiores do que o homem pode suportar sem morrer …” (O Livro de Mórmon – Mosias 3:7). Ou como profetizado por Isaías, o Salvador foi “… desprezado e rejeitado … homem de dores e experimentado nos sofrimentos … oprimido e afligido … e não fizemos dele caso algum.” (Isaías 53:3, 7). Da mesma forma, ao desenvolvermos fé e um testemunho da verdade revelada de que éramos membros pré-mortais da realeza celeste e que tínhamos um relacionamento familiar e próximo com o Deus Altíssimo, também obteremos forças para superar os desafios dessa vida com paciência e galhardia.

Podemos dizer que somente quando comparados com o Deus Altíssimo estaríamos justificados em nos automenosprezar. Nas escrituras encontramos exemplos disto. Após conversar com o Senhor face a face e em seguida passar horas recobrando sua força física natural, Moisés declarou: “Ora, por esta razão sei que o homem nada é, coisa que nunca havia imaginado” (Pérola de Grande Valor – Moisés 1:10). O grande missionário Amon admitiu: “Sim, sei que nada sou; quanto a minha força, sou débil; portanto … gloriar-me-ei em meu Deus, porque com sua força posso fazer todas as coisas…” (O Livro de Mórmon – Alma 26:12)

Entretanto, observemos que em resposta à nossa humildade diante dele, o Senhor nos valoriza numa escala extraordinária. À Moisés, o Senhor disse: “… [Eis] que tu és meu filho … e tu és à semelhança de meu Unigênito …” (Moisés 1:4, 6). Numa revelação ao Profeta Joseph Smith, o Senhor declarou: “Lembrai-vos de que o valor das almas é grande à vista de Deus; Pois eis que o Senhor vosso Redentor sofreu a morte na carne … para que todos os homens se arrependessem e viessem a ele.” (Doutrina & Convênios 18:10-11)

Nosso valor como seres eternos está fundamentado em Jesus Cristo e no poder de sua expiação. O sacrifício expiatório respondeu em definitivo a antiga questão filosófica sobre o valor da vida humana. Cada ser humano vale o sangue e a vida daquele a quem até os anjos chamam de “Senhor Onipotente”, o Salvador Jesus Cristo (Mosias 3:5). A combinação de nossa fé no poder da expiação, acompanhada de obediência às ordenanças do evangelho de Jesus Cristo, e de perseverança em guardar os mandamentos divinos, um dia nos elevará permanentemente à condição de membros da realeza celestial.

Independente de nossa condição ou circunstâncias atuais, o plano de redenção divino nos traz o vislumbre de coisas magníficas, que podem afastar para sempre quaisquer pensamentos negativos sobre nossa temporária identidade mortal.

“Portanto não temais … fazei o bem; deixai que a Terra e o inferno se unam contra vós, pois se estiverdes estabelecidos sobre minha rocha, eles não poderão prevalecer. … Buscai-me em cada pensamento; não duvideis, não temais. Vede as feridas que me perfuraram o lado e também as marcas dos cravos em minhas mãos e pés; sede fiéis, guardai meus mandamentos … E se fores fiel até o fim, terás uma coroa de imortalidade e vida eterna nas mansões que eu preparei na casa de meu Pai.” (Doutrina & Convênios 6:34, 36-37; 81:6)

(Este comentário não constitui uma declaração oficial de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias)

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Marcus H. Martins

Marcus H. Martins possui Doutorado (Ph.D.) em Sociologia da Religião e Relações Raciais e Étnicas. Serviu como Bispo e Presidente de Missão.
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