A maioria das igrejas cristãs em todo o mundo representa o terceiro membro da Trindade assim, como uma inocente ave branca, e não raro a mesma carrega em seu bico um ramo de oliveira. Mas de acordo com Néfi, o Espírito Santo tem forma de homem e fala como homem:

“E perguntou-me ele: Que desejas tu? E disse-lhe eu: Saber a interpretação do que vi — pois falei-lhe como fala um homem, porque vi que tinha a forma de um homem; sabia, não obstante, que era o Espírito do Senhor; e ele falou-me como um homem fala a outro homem.” (1 Néfi 11: 10-11)

Revelações modernas também nos ensinam esta verdade, ao testificarem que o Pai e o Filho têm corpos glorificados de carne e ossos, mas que o Espírito Santo é um personagem de espírito. (D&C 130: 22)

Desde os primeiros séculos do cristianismo tem se recorrido ao sinal visto por João Batista – por ocasião do batismo do Salvador – para representar este mensageiro especial. Os quatro evangelistas registraram que o Espírito Santo apareceu como uma pomba:

“E sendo Jesus batizado, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele.” (Mateus 3: 16)

“E logo que saiu da água, viu os céus abertos, e o Espírito, que como pomba descia sobre ele.” (Marcos 1: 10)

“E aconteceu que, como todo o povo fosse batizado, e sendo batizado também Jesus, e orando, abriu-se o céu, E o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como uma pomba; e ouviu-se uma voz do céu, que dizia: Tu és o meu filho amado, em ti me comprazo.” (Lucas 3: 21-22)

“E João testificou, dizendo: Eu vi o Espírito descer do céu como uma pomba, e repousar sobre ele.” (João 1: 32)

Sobre este acontecimento singular falou o profeta Joseph Smith:

“O sinal da pomba foi instituído antes da criação do mundo, uma testemunha do Espírito Santo, e o diabo não pode vir no sinal de uma pomba. O Espírito Santo é uma pessoa e tem a forma de uma pessoa. Ele não está confinado na forma de uma pomba, mas no sinal da pomba. O Espírito Santo não pode transformar-se em uma pomba; mas o sinal da pomba foi dado a João para confirmar a veracidade do ocorrido, porque a pomba é um emblema ou sinal de verdade e inocência.” (Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Joseph Smith, 2007, p. 86). [1]

A pergunta que surge é: Por que simbolizar o Espírito Santo por meio de uma pomba?

Parte da resposta, é dada por Joseph Smith, ao declarar que já na existência pré mortal o sinal foi estabelecido como meio de garantir que os símbolos sagrados não fossem usurpados pelo diabo, que tenta em todas as coisas imitar ou passar-se pela verdade. Tendo em isso em mente, podemos supor que tal sinal era conhecido desde os dias de Adão e passando por todos os profetas da antiguidade até os dias de Cristo? A resposta parece afirmativa.

Quando Deus em Sua misericórdia decidiu acabar com a iniquidade que predominava no mundo e destruir os iníquos nos dias de Noé enviou o Dilúvio, que foi para a terra como um batismo de água, purificando-a do pecado e proporcionando um novo começo para a humanidade. Orson Pratt declarou:

“A primeira ordenança instituída para a purificação da terra foi sua total imersão na água; (…) Quando a terra ressurgiu do oceano que a envolvia, como uma criança recém nascida, era totalmente inocente; havia ressurgido para uma nova vida. Aquele foi seu segundo nascimento do ventre das poderosas águas – um novo mundo que surgia das ruínas do antigo, revestido com toda a inocência da primeira criação.” [2]

E tal como no batismo do Salvador, a pomba se fez presente também no batismo da terra. Ao término do Dilúvio, o profeta Noé a fim de verificar a situação do novo mundo soltou uma pomba:

“E aconteceu que, ao cabo de quarenta dias, abriu Noé a janela da arca que tinha feito. E soltou um corvo, que saiu indo e voltando, até que as águas secaram de sobre a terra. Depois soltou uma pomba, para ver se as águas tinham minguado de sobre a face da terra. A pomba, porém, não achou repouso para a planta do seu pé e voltou a ele para a arca, porque as águas estavam sobre a face de toda a terra; e ele estendeu a sua mão, e tomou-a, e recolheu-a para junto de si na arca. E esperou ainda outros sete dias e tornou a enviar a pomba para fora da arca. E a pomba voltou a ele à tarde; e eis, arrancada, uma folha de oliveira no seu bico; e soube Noé que as águas tinham minguado sobre a terra.” (Gênesis 8: 6-11)

Ao soltar a pomba, que volta e traz consigo esperança e paz em seu bico, simbolizados pelo ramo de oliveira, Noé percebe que o mundo está pronto novamente. O fato de o profeta ter escolhido a pomba para verificar a situação da terra após o dilúvio – seu batismo nas águas – tem tudo haver com o Espírito Santo e Seu poder purificador e renovador. O batismo traz de volta a inocência perdida e um novo nascimento. No Dilúvio a pomba repousou sobre a terra e trouxe consigo um símbolo de segurança e paz, após um período de pecado e morte sobre a terra. Nas águas do Rio Jordão a pomba novamente repousou sobre Aquele que pode nos trazer segurança e paz e nos livrar do pecado e da morte, o Cordeiro de Deus. O próprio ramo de oliveira carregado no bico da ave também pode representar a Unção e o Dom do Espírito Santo, que posteriormente a terra receberá no seu batismo de fogo, que marcará o início do Milênio, o esperado período de mil anos de paz sobre a terra.

De fato na antiga Israel a pomba era vista como um animal limpo e símbolo de pureza. No Talmude Judaico é vista como um símbolo de castidade. [3]

Nos dias da Lei de Moisés a pomba também simbolizava a purificação: “Depois oferecerá uma das rolas ou um dos pombinhos, conforme houver na sua mão. Do que houver na sua mão, será um para oferta pelo pecado e o outro para holocausto com a oferta de manjares; e assim o sacerdote fará expiação por aquele que tem de purificar-se perante o Senhor.” (Levítico 14: 30-31)

Aos pobres que não podiam ofertar um cordeiro no Templo era permitido o uso desta ave. Mesmo os pais de Jesus quando o apresentaram no Templo por conta de seu nascimento, ofereceram dois pombinhos como sacrifício. (Lucas 2: 21-22 e Levítico 1: 14)

O próprio Salvador fez uso do simbolismo da pomba ao ensinar Seus discípulos: “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e inocentes como as pombas.” ( Mateus 10: 16)

Séculos depois de Noé, outro relato bíblico parece fazer uso dos mesmos elementos de arrependimento, purificação, inocência e renovação, encontrados no relato do Dilúvio: A história do profeta Jonas:

“E veio a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai, dizendo: Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive, e clama contra ela, porque a sua maldade subiu até mim. E Jonas se levantou para fugir de diante da face do Senhor para Társis, e desceu a Jope, e achou um navio que ia para Társis, e pagou a sua passagem, e desceu para dentro dele, para ir com eles para Társis, para longe da face do Senhor.” (Jonas 1: 1-3)

A grande cidade de Nínive, capital da Assíria e inimiga de Israel, era conhecida por sua grande iniquidade e violência. (Naum 3: 1-7) Foi construída e habitada pelos descendentes de Cão, Cuxe e Ninrode, sendo este último o rei de Babel. (Gênesis 10: 8-12) O profeta Jonas acreditava que o destino final daquele povo deveria ser o mesmo enfrentado pelos iníquos nos dias de Noé, a completa destruição. Foi difícil para ele aceitar a misericórdia oferecida pelo Senhor a uma nação gentia e cheia de pecados.

Assim como Noé, Jonas entrou num navio, não para salvar os que acreditaram na mensagem do arrependimento, mas para negar-lhes a oportunidade da conversão. Mais tarde, porém, Jonas aprendeu que o Deus Justiceiro que pune os pecadores, também é misericordioso com aqueles que se arrependem. (Jonas 3 – 4)

Nos dias de Noé duas aves foram soltas ao fim do Dilúvio. Uma pomba que representa até os dias de hoje, paz e segurança, e está intimamente ligada ao Espírito Santo e seu poder purificador e renovador. E também um corvo, sinal de mau agouro e morte para muitos. A grande cidade de Nínive poderia muito bem ser representada pelo corvo. O profeta escolhido para levar-lhe a mensagem divina é justamente Jonas – Ionah em hebraico – que significa Pomba.

A grande missão de Jonas em Nínive era a mesma que a ave com o ramo de oliveira no bico nos dias de Noé: levar ou trazer uma mensagem de paz e segurança, com a certeza de que um novo recomeço é possível por meio do poder purificador do Espírito Santo. E assim como aconteceu no batismo de Jesus, o sinal da pomba e cada profeta chamado a pregar ainda testificam que Jesus é o Filho Deus. (João 1: 34)

Notas

1-     Ver também: McConkie, Doctrinal New Testament Commentary, Vol . 1, pp. 1 23-1 24.

2-      Answers to Gospel Questions, Vol. 4, pp. 20.

3-      Eruvin, 100b.          

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Marcelo de Almeida

De Fortaleza/CE, e com 34 anos, Marcelo de Almeida é solteiro, missionário retornado e serve como Diretor de Indexação da Estaca. Ele estuda Enfermagem e é SUD desde os 16 anos, tendo servido na Missão Brasil Londrina.
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