Eu servi em uma missão para a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em Vladivostok, na Rússia. Se eu fosse “chamado novamente” para servir essa missão, tem uma coisa que eu faria diferente:

Dessa vez eu tentaria não odiá-la.

Um missionário superficial

Não me entenda mal. Eu não sou contra o trabalho dos missionários – longe disso. Mas há um motivo fundamental pelo qual um dia eu odiei o trabalho missionário e porque depois aprendi a amá-lo.

Para que você possa entender porque eu odiei minha missão, primeiro você precisa saber algo sobre a minha personalidade.

No passado, eu não fui exatamente alguém que gostava de estar com as pessoas. Na verdade, eu frequentemente desvio o meu caminho para evitar as pessoas. Minhas três maiores implicâncias são: pessoas paradas/andando atrás de mim, ficar de papo furado com estranhos e ter gente esperando por mim. A maioria das minhas fotos (antes de eu me casar) me mostram em uma porção de lugares com – você já pode adivinhar – absolutamente ninguém. E durante anos, era assim que eu preferia.

Por isso, o estilo de vida missionário de puxar amizade com gente completamente estranha e um companheiro missionário a me seguir o dia todo por dois anos não harmonizava exatamente com meu permanente objetivo de me tornar um eremita do Alaska.

Seja como for, em 2005 eu fui chamado para servir uma missão e entrei no CTM (Centro de Treinamento Missionário) com tanta – se não mais – ingenuidade sobre o trabalho missionário quanto qualquer adolescente Mórmon. Tudo o que eu realmente sabia sobre “servir” uma missão era que você bateria em portas, miraculosamente encontraria conversos, teria algumas experiências espirituais interessantes e – se você tivesse muita sorte – poderia tirar um monte de fotos legais em um país estrangeiro.

Essa não era minha missão.

O CTM foi cruel. Meu hábito de evitar as pessoas não se encaixava muito no perfil do meu distrito. Como resultado, eu não fiz muitas amizades com os Élderes que estavam indo para minha missão. Isso significava que, em uma missão de aproximadamente 40 missionários, eu já tinha conseguido perder a moral com 10% deles.

Assim que eu cheguei no campo, eu percebi que a minha personalidade introvertida dava margem a muito sofrimento. Eu contribuía muito pouco para as lições, não socializava nos eventos da igreja e ao invés de absorver a beleza e o esplendor a Rússia e seu povo, eu passei boa parte do tempo olhando para o chão. Eu me fechei para conversas, desprezei contatos na rua e tive pavor de bater de porta em porta. A fé é uma experiência pessoal profunda, eu pensava. Porque nós não podemos simplesmente respeitar outras pessoas e deixá-las em paz?

Um dia, eu fui companheiro de outro élder na missão. Esse élder foi assistente do Presidente da Missão e era considerado por muitos como um “missionário de sucesso”.

Então, enquanto eu passava pelas dificuldades com o trabalho missionário, eu finalmente tomei coragem e perguntei para ele: “Elder Weidmann, como você foi tão bem sucedido em sua missão?”

Até hoje, eu ainda posso lembrar exatamente das suas palavras (talvez porque ele era da Suíça, então ele tinha um sotaque legal). Ele disse:

“Bem, Elder Smith, eu não sei se sou ‘bem sucedido’. Mas eu sei que a única coisa que importa é que você aprende a amar as pessoas. Se você aprende a amar as pessoas que você está servindo, então tudo vai simplesmente entrar nos eixos”.

Enquanto ele dizia isso, eu me lembro de pensar: “Ah, claro! Eu já ouvi essa baboseira antes. Tenho certeza que existe algo mais!”. Para meu eterno arrependimento, eu não dei muita atenção ao seu conselho. Cinco meses depois, eu caí em uma grande depressão e resolvi voltar para casa um ano antes do fim da missão.

Nos anos que se seguiram, todas as vezes que eu pensei sobre minha missão eu sentia um profundo arrependimento; arrependimento de que eu não levei o conselho do Elder Weidmann a sério, arrependimento de que eu não aproveitei o tempo que tive e arrependimento de que não aprendi a amar as pessoas da Rússia a quem eu deveria servir.

Desde então eu aprendi que o objetivo de uma missão não é converter as pessoas, mas sim aprender a servir e amar as pessoas.

Aarão, Amon e os dois tipos de serviço missionário

No Livro de Mórmon ficamos sabendo sobre dois tipos de missionários. O primeiro tipo de missionário é o superficial – um missionário que acredita que sua missão é apenas orar e converter os outros. O segundo tipo de missionário é o imerso – um missionário que acredita que sua missão é servir e amar os outros.

Aarão e Amon, junto com seus irmãos, foram ao território Lamanita para servir suas missões entre os Lamanitas. Esses Lamanitas em particular foram descritos como “um povo selvagem, duro e feroz, um povo que se deleitava em matar os nefitas e roubá-los e despojá-los” (Alma 17:14). Arão, Amon e seus irmãos “Separaram-se, portanto, uns dos outros e foram para o meio deles ´[os Lamanitas].” (Alma 17:17) “para que talvez pudessem levá-los ao arrependimento; para que talvez os levassem a conhecer o plano de redenção.” (Alma 17:16).

Aarão usou a aproximação de nível superficial em seu trabalho missionário. Ele saía apenas para pregar e converter os outros. Por causa disso, ele imediatamente encontrava resistência: “E aconteceu que quando começou a expor-lhes essas coisas, ficaram zangados com ele e começaram a zombar dele; e não quiseram dar ouvidos às palavras que ele proferia.” (Alma 21:10) , e “discutiam com muitos sobre a palavra” (Alma 21:11). Finalmente as coisas deram tão errado que “Aarão e alguns de seus irmãos foram apanhados e encarcerados“ (Alma 21:13).

Amon, por outro lado, usou da aproximação de imersão em seu trabalho missionário. Seu método de aproximação era amar aqueles a quem ele tinha sido chamado a servir. Na verdade, ele acreditava que os Lamanitas “a quem chamava seus irmãos” (Alma 17:30) deveriam ser tratados dessa forma. Capturado e subjugado pelos Lamanitas, ele foi levado aos pés de um rei Lamanita chamado Lamôni. Quando o rei Lamôni perguntou por que ele tinha ido ao território Lamanita, Amom respondeu “desejo habitar com este povo por algum tempo; sim, e talvez até o dia de minha morte.” (Alma 17:23). Ele também prontamente disse ao rei ”serei teu servo” (Alma 17:25). Daquele dia em diante, um grande laço de amizade e amor começou a crescer entre Amon e Lamôni. Até o pai de Lamôni depois notou “o grande amor que ele (Amon) tinha por seu filho Lamôni” (Alma 20:26)

Amon e Lamôni foram libertar Aarão e seus irmãos da prisão. Aparentemente, enquanto estava na prisão, Aarão aprendeu o valor do serviço e amor além do trabalho missionário superficial, dizendo ao pai de Lamôni “seremos teus servos” (Alma 22:3) . Este trabalho missionário, baseado no serviço, acabou evoluindo e se tornou uma das maiores histórias de conversão do Livro de Mórmon – talvez em todas as escrituras.

E tudo isso foi baseado no aprendizado de amar as pessoas.

O Trabalho de Deus

Com mais de 85.000 missionários Mórmons servindo atualmente, meu desejo é que cada um deles possam levar o conselho do Elder Weidmann bem a sério.

Por favor, aprendam a amar as pessoas que você serve. Aceite as palavras de um homem que nunca completou sua missão. Se você aprender a amar aqueles a quem está servindo, tudo vai se encaixar perfeitamente.

Agora isso não significa que o trabalho vai ser fácil. Mas significa sim que sua alegria com o trabalho vai aumentar – porque aprender a amar e servir às pessoas é o trabalho de Deus, e é a única coisa que verdadeiramente transforma os corações.

Porque Cristo nos ama, Ele deixou o conforto e o poder de seu trono celestial para trabalhar entre pessoas caídas e quebrantadas. Apesar de nossas fraturas e fragilidades, Ele não apenas reconhece que nós somos uma família, mas de forma emocionante nos chama de Seu Amigo (João 15:15) . Ele desceu por sob todas as coisas para nos servir e nos levantar – tudo por causa do amor.

Da mesma maneira, Amon e seu irmão Aarão – que poderiam ter sido reis em suas próprias terras – abriram mão dos confortos de seus reinos para trabalhar entre os Lamanitas. E apesar do fato de que os Lamanitas eram abominavelmente conhecidos como “um selvagem, endurecido e feroz povo”, Amon e Aarão conseguiram enxergar esse povo como seus irmãos. O amor que Amon e Arão tinham pelos Lamanitas ajudou a transformá-los em um povo favorável a Deus – um povo tão cheio de amor e servidão que suas próprias mortes converteram seus assassinatos.

E agora nós – um povo que é profundamente abençoado com uma abundância de conhecimento, riquezas e oportunidades – somos convocados a abandonar tudo (por pelo menos dois anos), para amar e servir àqueles que são, talvez, menos afortunados do que somos. Nós somos chamados a participar do trabalho e da glória de Deus. E nesse processo, nós devemos aprender como amar Suas crianças e a vê-las como nossa família.

Re-convocado a servir

Então, se eu fosse re-convocado para servir uma missão, eu aprenderia a amar as pessoas que eu iria servir. Dessa vez, eu tentaria não me preocupar com minhas próprias necessidades egoístas mas com as necessidades delas. Na tentativa de esquecer de mim mesmo, talvez eu esquecesse os medos e as inseguranças que estavam me impedindo de amar os outros. Se eu tivesse feito isso em primeiro lugar, eu jamais teria abandonado minha missão para voltar para casa – as pessoas teriam sido muito queridas para mim. Oh, como eu gostaria de poder voltar e ver as faces daquelas pessoas da Rússia. Oh, como eu queria ter amado a elas como eu as amo hoje. Oh, como eu queria poder servir mais uma vez… Mas aqui está a grande coisa: No Mormonismo, há uma condição divina ao chamado de serviço missionário: “portanto, se tendes desejo de servir a Deus, sois chamados ao trabalho;” (D&C 4:3)

Em outras palavras, se você quer servir a Deus (e servir o seu próximo), você está automaticamente chamado a servir.

E se você já serviu, mas ainda deseja ajudar aos outros, você acaba de ser “re-convocado a servir”.

Por Seth Adam Smith. Autor de “Casamento não é para você”, e do novo romance “Rip Van Winkle e a Lanterna de Abóbora”. Leia mais textos dele em sethadamsmith.com e ldsliving.com.

Traduzido por Eduardo Marcondes.

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Eduardo Marcondes

É jornalista há 20 anos, com ênfase na atuação em Rádio e Televisão. Foi repórter, editor e apresentador, com passagens por praticamente todas as emissoras com sede na capital paulista, entre elas o Grupo Bandeirantes e o SBT. Atualmente faz trabalhos de textos em parceria com alguns empresários e escreve regularmente na internet há pouco mais de ano.
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