Em 1917, o American Journal of Psychology publicou um artigo de Walter Prince, no qual ele argumentava que os nomes do Livro de Mórmon era simplesmente um produto da imaginação obsessiva de Joseph Smith por conta de sua controversa exposição a Maçonaria, de acordo com publicação anterior de William Morgan.[1] Walter Prince, sugeriu a seguinte etimologia para o nome ‘Zarahemla‘.[2]

“Na página 52 do folheto de William Morgan há uma alusão a (mítica) cidade palestina de`Zaradatha’. Não há itálico para destacar o nome, mas a sua própria magnitude sonora, foi provavelmente tão eficaz que a suposta cidade mencionada no curso de um parágrafo (…) fortemente impressionou o escritor da pseudo-história da principal cidade do Livro de Mórmon, Smith não a nomeou Zaradatha, mas a chamou de ZARAhemlA, – as mesmas duas primeiras sílabas, a mesma terminação, apenas três letras alteradas no mesmo total de nove, o mesmo número de sílabas. Quem pode duvidar da relação dos dois artefatos? “[3]

Com o devido respeito à criatividade de Prince, Zarahemla é realmente um ótimo nome hebraico, de acordo com novos estudos etimológicos. Stephens Ricks e John Tvedtnes observaram:

Zarahemla foi a capital nefita por mais tempo do que qualquer outra cidade, mas na verdade, um descendente de Muleque foi nomeado Zarahemla primeiramente (Ômni 1:12-15; Mosias 25:2). Muleque, filho de Zedequias, o último rei de Judá, havia chegado ao Novo Mundo com outros imigrantes não muito tempo depois da partida de Leí de Jerusalém (Helamã 6:10; 8:21). O nome Zarahemla provavelmente deriva do hebraico ‘zera’-hemlah’, que por diversas vezes foi traduzido como “semente da compaixão” ou “filho da graça, piedade ou compaixão.” Pode ser que o líder Mulequita recebeu esse nome porque seu pai tinha sido resgatado quando os outros filhos do rei Zedequias foram mortos durante a conquista de Jerusalém pela Babilônia. Para gerações nefitas subsequentes, o nome Zarahemla pode até ter sugerido a libertação de seus próprios antepassados de Jerusalém antes de sua destruição ou a antecipação da vinda de Cristo.”[4]

Em um artigo posterior Pedro Olavarria e David Bokovoy fizeram várias outras observações significativas sobre este nome.

Uma análise literária prevê ainda mais provas que apoiam a legitimidade desta reivindicação etimológica. Esta confirmação apresenta o que poderia refletir um ‘jogo de palavras’ originais em hebraico no Livro de Mórmon, coerente com a proposta de Stephen Ricks e John Tvedtnes a respeito do prefixo zara– e a forma terminal hemla. Considerando a leitura do Livro de Mórmon através de um olhar hebraico, o nome Zarahemla parece ligado com essas raízes.

Em sua consideração do nome Zarahemla, Tvedtnes e Ricks dividem a palavra nos nomes hebraicos ‘zera‘ que significa “semente”, e ‘hemla‘ denotando “compaixão / misericórdia”.[5]

Como uma forma verbal, a raiz hml significa “ter compaixão”, ou “de sobra” [6]

Este sentido parece refletido em textos como 1 Samuel 15:9 na versão King James da Bíblia: “Mas Saul e o povo pouparam (hml) Agague, e o melhor das ovelhas.”

Significativamente, o Livro de Mórmon possui duas ocasiões em que o nome do local Zarahemla aparece em estreita proximidade com as pessoas sendo “poupadas”:

E nós, os que escapamos, voltamos à terra de Zaraenla para contar às suas esposas e filhos o que sucedera.(Mosias 9:2)

E em um lugar eles foram ouvidos lamentando-se e dizendo: Oh! Se nos tivéssemos arrependido antes deste grande e terrível dia, nossos irmãos teriam sido poupados e não teriam sido queimados naquela grande cidade de Zaraenla.”(3 Néfi 8:24)

Ao analisarmos o nome Zarahemla, este trocadilho bíblico fornece provas para a correta interpretação do terminal –hemla como a forma nominal hebraica hemlah.

Se traduzido para o hebraico bíblico, o Livro de Mórmon teria um característico ‘jogos de palavras’ semelhantes entre a palavra hebraica zera e o nome próprio Zarahemla. Além de seu específico significado “semente” refletir uma conotação vegetativa, o substantivo hebraico zera denota “prole, ou descendência” humana. [7]

O termo descendente também aparece ocasionalmente no Livro de Mórmon em proximidade literária com o substantivo Zarahemla:

Amon, homem forte e poderoso, descendente de Zaraenla.” (Mosias 7:3)

Porque eu sou Amon e sou descendente de Zaraenla; e vim da terra de Zaraenla.” (Mosias 7:13)

Embora estas propostas criem uma leitura interessante do texto, a legitimidade dessas observações como ‘jogos de palavras’ intencionais reflete a suposição de que o egípcio reformado no Livro de Mórmon, foi uma escrita egípcia modificada e usada para gravar um testemunho do hebraico. Se estiver correto, estes trocadilhos hebraicos fornecem evidências de que os autores do Livro de Mórmon incorporaram técnicas de escrita semelhantes aos encontrados por todo o Velho Testamento.

Em seus próprios esforços literários, antigos autores hebreus fizeram uso frequente de ‘jogos de palavras’ em nomes próprios de pessoas e lugares, de uma forma paralela ao presumido uso de nomes hebraicos no Livro de Mórmon tais como os substantivos “poupados”, “descendentes” e “Zaraenla” [8].

Ao considerarmos o nome dado a terra herdada pelo povo de Amon no Livro de Mórmon, parece repetir-se o mesmo ‘jogo de palavras’ de maneira inequívoca:

E aconteceu que a voz do povo se manifestou, dizendo: Eis que cederemos a terra de Jérson, que fica a leste, perto do mar, e que confina com a terra de Abundância e fica ao sul da terra de Abundância; e essa terra de Jérson é a terra que daremos a nossos irmãos por herança.” (Alma 27:22)

A palavra Jérson, ou Gérson como aparece na Bíblia, deriva do hebraico Gereshom. A partir da junção dos elementosger que significa estrangeiro e shom que significa exilado, ou aquele que foi expulso ou desterrado, vemos o mesmo estilo literário usado ao nomear uma cidade ou território.

Ao comentar Alma 27:20-29, Reynolds e Sjodahl lançam mais luz sobre o estilo literário usado pelos escritores nefitas: “Jérson significa Terra dos Expulsos, ou estrangeiros. É provável que aquela região tenha recebido este nome significativo na época em que foi separada para habitação destes lamanitas expatriados, definindo sua condição de exilados e como estrangeiros em relação aos nefitas. O nome não é mencionado antes deste evento, e possivelmente é o único local com esta designação conhecido pelo compilador do Livro de Mórmon. Antes da época do êxodo dos anti-néfi-leítas, o lugar era, acreditamos, considerado como parte da terra de Zaraenla.” [9]

Estudiosos da Bíblia identificaram uma variedade destes jogos de palavras em toda a Bíblia Hebraica.

Estudos têm demonstrado que, no processo de produção do Livro de Mórmon, os escritores nefitas imitaram e foram influenciados por técnicas bíblicas. Assumindo que o texto original do qual o registro nefita foi traduzido, derivou de alguma forma do hebraico, o relacionamento literário entre “poupados”, “descendentes” e “Zarahemla” testemunha que todo o Livro de Mórmon apoia a etimologia oferecida por Ricks e Tvedtnes, para o significado deste importante nome nefita. Além disso, a interpretação de Zarahemla como o nome de um lugar “semente da compaixão” fornece evidências de que os autores do Livro de Mórmon possuíam uma familiaridade impressionante, com os estilos literários e técnicas testemunhadas em todo o Antigo Testamento.

Artigo original de Matthew Ropper, tradução e adições por de Marcelo de Almeida.

Ver Artigo original em : http://ether312.rssing.com/chan-51288163/all_p2.html

  1. Ver Morgan, William, Light on Masonry: a collection of all the most important documents on the subject of speculative free masonry, 1829, pp 52.

  2. Mantida grafia do nome em inglês para melhor compreensão do artigo.

  3. Walter Franklin Prince, American Journal of Psychology, julho de 1917, 383.

  4. Stephen D. Ricks e John A. Tvedtnes, “The Hebrew origem de alguns Livro de Mórmon Place Names”, Journal of Book of Mormon Estudos 6/2 (1997): 259.

  5. Veja Francis Brown, SR Driver, e Charles A. Briggs, eds., The Brown-driver-Briggs hebraico e Inglês Lexicon (Oxford: Clarendon, 1906, Acordo Software Bíblia, DVD, 3.0).

  6. Ludwig Koehler e Walter Baumgartner, o hebraico e aramaico Lexicon do Antigo Testamento; Study Edição [Leiden: Brill, 2001], 1: 328.

  7. Koehler e Baumgartner, hebraico e aramaico Lexicon, 282.

  8. Ver Wilfred GE Watson, Classical Hebrew Poesia: Um Guia para suas técnicas [Sheffield: JSOT, 1984], 244

  9. George Reynolds e Janne M. Sjodahl, Commentary on the Book of Mormon, 4:42.

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Marcelo de Almeida

De Fortaleza/CE, e com 34 anos, Marcelo de Almeida é solteiro, missionário retornado e serve como Diretor de Indexação da Estaca. Ele estuda Enfermagem e é SUD desde os 16 anos, tendo servido na Missão Brasil Londrina.
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