Um entre sete

A coberta estava quentinha, cheirosa e aconchegante, mas, ainda assim, o relógio biológico de Priscila funcionou com perfeição. Ela abriu os olhos enquanto esticava suas pequenas pernas em uma gostosa espreguiçada. Eram seis da manhã. Se fosse em outro dia, a esperta garota já teria corrido para a cozinha, bisbilhotar o que havia na geladeira, mas hoje, tudo o que queria era ficar o maior tempo possível na cama. Fechou os olhos novamente para cochilar só mais um pouquinho. Seu desânimo era frequente todos os domingos: o dia em que tudo de divertido era proibido.

Alguns minutos depois, ela ouviu a porta do quarto abrir. Célia ligou a luz e Priscila apertou os olhos desejando não acordar. Para convencer a mãe de que estava em um sono profundo, ficou quietinha, quase sem respirar.

Célia caminhou até ela e abaixando o corpo, a beijou na testa.

— Bom dia, dorminhoca! — A menina apenas virou o rosto, continuando sua encenação. —Tá na hora de acordar… vamos logo para não chegarmos atrasados.

Um gemido, daqueles de fazer dó, se ouviu.

— Hummmm… não!… tá cedo!

— Vamos lá, pois seu pai tem reunião de bispado antes da primeira aula.

A menina murmurou:

— Eu não tenho culpa se ele é conselheiro do bispo. Não é justo ter que chegar mais cedo. Hoje é domingo! — alegou enquanto se sentava na cama. — Já não basta não poder fazer nada de legal: não posso ver TV, pular corda, elástico, andar de bicicleta, jogar bola! Céus, isso é muito chato!

Célia coçou a cabeça e suspirou fundo. Já havia passado por essa situação com os seus outros três filhos, mas, com Priscila, tudo parecia ser mais difícil. As explicações, exemplos e conceitos da importância do Dia do Senhor pareciam não fazer efeito. Não foram poucas as reuniões familiares que já tinham realizado, sem contar as aulas da primária e discursos que a menina já ouvira sobre o assunto. Para Priscila, o domingo nada mais era do que o dia de se abster de viver.

Com muita dificuldade, a garota entrou no chuveiro e ficou lá mais do que deveria. Desejou arranjar uma boa desculpa para não ir. Quem sabe, uma dor de cabeça? — pensou. Mas, rapidamente as palavras da sua avó Marisa vieram-lhe à mente: criança não tem dor de cabeça! — mesmo que muitos médicos afirmem o contrário.

Imaginava suas amigas da escola, que essa hora ainda deveriam dormir e que, ao acordar, provavelmente iriam para piscina, parques e passeios. Realmente desfrutariam do final de semana com bastante diversão e alegria. Que mal poderia haver nisso? Assim, perdida em seus inconformados devaneios, ouviu alguém bater à porta.

— Vamos logo, garota! — disse Beto. — Tenho que tomar banho também! — Priscila não disse nada e Beto bateu novamente à porta com mais intensidade. — Já chega de banho!

O pequeno momento de relaxamento foi interrompido de forma intempestiva por seu irmão. O sangue da menina começou a aquecer e ela desligou o chuveiro lançando ira pelos seus olhos.

Se enrolou na toalha e abriu a porta. Beto percebeu que a porta estava destravada e empurrou sem paciência.

— Com licença! — a palavra que deveria denotar educação foi dita de modo que se podia entender perfeitamente a expressão: SAI!

— Eu te odeio, Beto! — Priscila liberou a sua raiva.

Nos minutos seguintes, uma discussão se iniciou, palavras grosseiras foram faladas pelos dois irmãos, sobretudo, por Priscila, que não economizou nos comentários negativos, até o ponto de Otávio ter que intervir no bate-boca.

Ele levou a garota para o quarto, ainda perplexo em como uma garotinha tão doce, poderia, de repente, perder o controle ao se sentir ofendida. Sabia que disputas entre irmãos era algo normal, mas não podia aceitar que elas fossem resultantes de uma coisa tão fútil e insignificante, ainda mais, no início do dia santificado.

— Filha, o que foi que aconteceu? Como pôde dizer tudo aquilo pro seu irmão? Logo você, o nosso anjinho! — anjinho era como a chamavam por ser a única pessoa da família que não tinha idade de consciência, e, portanto, não ter sido batizada.

— Sabe, pai, cansei de ser a caçula… parece que todo mundo e melhor, mais esperto, mais inteligente do que eu. Se eu não me defender, ninguém me defende.

— Claro que não, filha. Como pode dizer isso? — a abraçou. — Você é tão querida e amada. Precisa aprender a controlar sua raiva.
Ela balançou a cabeça e o encarou com as sobrancelhas unidas.

— Como se já não bastasse ter que acordar cedo todo domingo — disse ela —, tenho que aturar um irmão chato que me provoca, pai? Ninguém merece! — ela arregalou os olhos e sacodiu os ombros em uma atitude de indignação. — Só de vez enquanto, bem que agente podia curtir um pouquinho o domingo.

Otávio olhou para a filha, admirado, e, pela primeira vez, entendeu, o que estava acontecendo, de fato.

— Priscila, guardar o Dia do Senhor é uma benção; é um aprendizado. E o nosso desafio é torná-lo cada vez mais significante para nós. Você é muito esperta e inteligente; sabe todas as regras de fé; sabe os princípios do evangelho, mas, por sua pouca idade lhe falta ainda experiências espirituais, em que o seu espírito será tocado pelo Espírito Santo.

— Como assim? — ela o encarou com o canto do olho e o rostinho inclinado. Em sua mente, imaginou o espírito com uma varinha de condão, tocando no nosso espírito.

— Sabe, filha, o Senhor reservou esse dia não só para nós descansarmos das coisas do mundo ou para servir ao próximo, mas, também, como resultado de tudo isso, termos experiências espirituais, em que sentiremos uma sensação quase mágica; como um calor resultante do amor vindo do alto, que nos marcará por toda a vida.

— É como as magias dos contos de fada?

Otávio sorriu.

— Sim e não. O encanto é semelhante, mas o objetivo não é transformar abóboras em carruagens ou sapos em príncipes. O objetivo é nos transformar de seres pecadores e falhos em seres santificados, e, assim, podermos nos fortalecer para vencer esse mundo.

Priscila abaixou a cabeça como se tentasse compreender. Ficou pensando nas palavras do pai enquanto se arrumava para ir à igreja, porém, vez ou outra lembrava de Beto e ficava inconformada.

Otávio levou a família à capela. Como era de se esperar, chegou alguns minutos atrasado para a reunião de conselho. Priscila ficou sentada na sala da primária, ainda chateada com o irmão. Nenhuma outra criança havia chegado. Assim, envolvida pelo silêncio da manhã de domingo, pensou em suas atitudes e no rancor que ainda sentia dentro do peito. Fechou os olhos e fez uma oração. Não queria permanecer com tais sentimentos. Desejou que seu coração estivesse cheio de amor. Mas como? Seu irmão a havia provocado e ele deveria pedir desculpas. Ela não poderia ficar calada diante da ofensa. Não seria justo. Em um instante estava triste, em outro, arrependida, e mais à frente, com raiva. Suas sensações oscilavam constantemente.

Durante o tempo de compartilhar, a presidente da Primária falou sobre oração. Dentro da programação, as crianças escutaram a passagem em que o Salvador ensinava seus seguidores a orarem. A mensagem já era muito conhecida, mas, desta vez os seguintes versículos soaram diferentes aos ouvidos de Priscila:

“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; O pão nosso de cada dia nos dá hoje; E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; E não nos conduzas à tentação; mas livra-nos do mal.” (Mateus 6:9-13)

Um arrepio varreu o corpo da garota. Pela primeira vez desde que chegou, entendeu o que estava lhe afastando dos bons sentimentos: sua ânsia por justiça, quando precisava obter e ter misericórdia, apenas fazia sua raiva aumentar. Fez uma oração silenciosa para que fosse capaz de perdoar a ofensa do irmão. Abriu os olhos e viu a imagem do Salvador na parede da sala, com um olhar terno e um sorriso carinhoso, envolto por criancinhas. Novamente pôde sentir uma sensação de paz.

Seria esse o encanto que seu pai falara? Enquanto se questionava, a deliciosa sensação só aumentava. Pensou em seu irmão e lembrou das brincadeiras e dos momentos felizes que já viveram juntos. Sorriu, feliz. Entendeu que nada poderia ser mais valioso do que essa alegria indescritível que sentia. Agradeceu por estar na igreja, e ter o privilégio de aprender cada vez mais sobre o evangelho. Entendeu, pela primeira vez, a razão pela qual precisamos ir à casa de adoração no dia santificado. Viu que guardar o Dia do Senhor não é um sacrifício e sim, um privilégio, que resulta na companhia santificadora do Espírito Santo, que nos ajuda a vencer o mundo, resistir ao mal e afastar nossas mágoas, de modo que se voltarmos nosso corpo e nossa mente ao Senhor em oração, poderemos ter inspiração vindos do alto e sentir a magia de sua presença e nossas vidas. Apenas um dia entre sete: o dia da magia transformadora.

Leia também os episódios 1, 2 e 3.

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Patrícia Galúcio

Patrícia Galúcio, economista e funcionária pública, écasada e possui dois filhos. Membro da igreja desde os 11 anos, já serviu em vários chamados como Presidente das Moças, Presidente da Primária, Professora da Escola Dominical, entre outros. Atualmente serve como professora do Instituto de Religião. Recentemente publicou um livro chamado Virtus, que aborda o tema da virtude e castidade nos dias de hoje.
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