Faria Tudo Outra Vez

– Sete cevadas, oito cevadas… dez cevadas? Pra que tudo isso, mãe? — questionou Larissa, enquanto empacotava as compras no caixa do supermercado. — Vamos fazer o festival da cevada? — sorriu ao colocar as sacolas no carrinho de compras.
Célia a fitou sem entender a pergunta, já que isso deveria ser óbvio, mas, ao encarar a caixa, percebeu que ela também estava curiosa em saber.
– Ora… tava barato! — sorriu meio sem graça para a atendente, depois, se virou para a filha e falou: — Você sabe que aproveito as promoções para reforçar o armazenamento.
– São trezentos e oitenta e quatro reais e vinte oito centavos — As duas ouviram pela primeira vez a voz da caixa, que pelo tom, parecia bastante entediada em estar ali.
– Claro, só um instantinho — abriu a bolsa para retirar o cartão de crédito enquanto Larissa enchia o carrinho com as demais sacolas de compras. — Está aqui — sorriu ao inserir o cartão na máquina.
– Mãe, vamos… a loja de sapatos tá quase fechando — disse Larissa ao perceber a hora avançada. Em menos de uma hora todas as lojas do shopping fechariam — Podíamos ter ido primeiro lá pra comprar a minha sandália e só depois fazer supermercado — disse com a testa franzida.
– Calma, filha. Já estamos indo — recebeu o cupom.
Célia empurrou o carrinho, que, pra variar, estava com uma das rodas dianteiras travando e saiu do supermercado do shopping. Era véspera de feriado e o lugar estava bem badalado. Foi nesse instante que viu um aglomerado de pessoas em volta de uma mulher muito bem-vestida e elegante. Célia estreitou os olhos para entender o que estava acontecendo e se surpreendeu quando viu Susana Paiva, uma ex colega de faculdade, tirando fotos e distribuindo autógrafos. Tal como Célia, Susana havia se formado em Jornalismo, não obstante, construiu uma excelente carreira. Rapidamente teve o seu talento e sagacidade reconhecido, rompendo as fronteiras do estado a ponto de torna-se correspondente internacional de grandes jornais em vários países. Era uma cidadã ilustre e quando resolvia aparecer, nunca passava despercebida.
– Mãe, mãe — chamou Larissa —, aquela não é a Susana Paiva?
Célia sabia que sim, mas, de uma forma estranha e inexplicável, não queria que fosse verdade. Sentiu um frio na espinha quando a viu e realmente não se sentia pronta para reencontrá-la. — Como ela está linda! Os anos parecem não ter passado pra ela! Qual será a numeração desse vestido? Aposto que não passa de 38! — Célia pensava, admirada, em como sua antiga melhor amiga devia ter vivido anos sublimes: viajou pelo mundo, conheceu pessoas interessantes e teve experiências fantásticas. Aquele sorriso simpático que distribuía aos fãs representava a felicidade que deveria sobejar na vida dela.
– A senhora me apresenta, mãe!
– Quem? — fingiu-se de desentendida
– A Susana Paiva, mãe! — Larissa apontou o dedo e puxou o braço da mãe na direção.
Célia engoliu em seco, enquanto tentava encontrar uma boa desculpa para evitar o reencontro. Passou a mão no cabelo e percebeu que estava desarrumado; viu que vestia a calça jeans mais surrada que tinha no armário e uma blusinha de malha, e no pé, uma sandália rasteira ultrabásica; nada comparável à sofisticação de Susana. Pra piorar, empurrava um carrinho lotado de compras do mercado.
– Vamos, Larissa, a loja de sapatos já está fechando. Além disso, a Susana nem deve se lembrar de mim!
A jovem rapidamente esmoreceu. Entendeu que sua mãe devia estar certa. Soltou-lhe o braço e mudou a rota em direção à loja. Célia a acompanhou, porém, não deram nem três passos e ouviram uma voz familiar.
– Não acredito! Auricélia… é você?
O coração de Célia congelou. Não podia acreditar que Susana a reconheceu 22 anos depois e 15 quilos mais gorda. Desejou que não fosse verdade, mas, a frase seguinte eliminou todas as suspeitas:
– Desculpe, Célia, sei o quanto detesta que te chamem de Auricélia! — sorriu.
Célia se virou lentamente, reunindo toda a autoestima que havia dentro de si, necessária para erguer a cabeça e levantar os ombros. Esboçou um sorriso surpreso, como se não tivesse percebido a notável presença.
– Susana! — sorriu com a cara pasma. — Como vai?
– Bem, e você? — Célia apenas balançou a cabeça enquanto via as pessoas se dispersarem — Não sabe o quanto senti sua falta todos esses anos! — disse Susana de braços abertos. Um abraço caloroso se seguiu por alguns instantes. Apesar da transformação, Célia pôde identificar sua velha e querida amiga por baixo de todo aquele requinte.
Larissa sorriu também, afinal, conheceria Susana Paiva, um verdadeiro ícone do jornalismo nacional, que não demorou muito para perceber o entusiasmo na menina.
– Sua filha, Célia?
– Sim. É, sim! — afirmou orgulhosa.
– Que linda! Muito prazer, sou Susana Paiva!
– Sei quem é! — disse a garota —, e o prazer é todo meu.
– Nossa, Célia, você não mudou nada, e ver sua filha… nossa! Tínhamos a idade dela quando nos conhecemos, não é?
– É sim!
– Parabéns, você tem uma bela filha.
– Bom, na verdade… tive quatro belos filhos — sorriu ainda mais orgulhosa. No entanto, não por muito tempo diante da cara de susto da amiga
– Q u a t r o f i l h o s !! — falou Susana com os olhos arregalados. — Uau! Menina… — sorriu —, achei que fosse da família Novaes e não da família Coelho!
Célia não soube ao certo se deveria se ofender ou levar na brincadeira, mas, como todos estavam sorrindo, decidiu não se irritar. De certa forma, já estava acostumada com esse tipo de comentário. Pelo menos, pensou, Susana não fez a pergunta clássica: Não tem televisão na sua casa?
– E você, Susana… teve filhos?
– Filhos? — pigarreou — Que tal tomarmos um cafezinho? — disse tentando desconversar e já segurando Célia pelo braço.
– Não podemos — disse Larissa. — não tomamos café!
– Ah é… esqueci disso! Então você ainda é dos mórmons? — sorriu — eu me lembro como você era chata com tantas proibições e restrições! Nunca me acompanhava nas festas e brigava comigo por tudo! Mas, seus conselhos foram tão importantes na minha vida que, sinceramente, sou grata a você até hoje. — Susana se virou para Larissa e disse: — Menina, obedeça a sua mãe e se ela diz que café não faz bem, acredite nela. Ela é muito sábia.
A bochecha de Célia corou com o elogio. Desejou ficar mais um pouco e matar a saudade, pois, apesar das diferenças, ela sempre quis muito bem a Susana.
Célia disse a Larissa para ir à loja e separar o sapato enquanto conversaria um pouco mais com a amiga em uma mesa da praça de alimentação. As duas sentaram como nos velhos tempos, revivendo aqueles momentos prazerosos que já tiveram dentro de um shopping center.
– Eu procurei tanto você, Célia?
– Sério?
– Sim… por acaso, você já ouviu falar em facebook?
Célia sorriu
– Sim, sei bem o que é isso, mas, sinceramente, ainda prefiro as amizades à moda antiga.
– Nossa! Ainda não acredito que te encontrei.
– Você tá linda, Susana. Aliás, não só bonita; você é independente, segura, inteligente. Sua carreira é um verdadeiro sucesso.
– Obrigada, mas quem me vê assim, pensa que tudo caiu do céu e que eu apenas tive… sei lá… sorte! Pra chegar onde eu cheguei precisei abrir mão de muita coisa! Não foi nada fácil me distanciar da família, dos amigos e ter que trabalhar quase vinte horas por dia — sorriu, em seguida, tomou um gole de suco de laranja, recém-servido pela garçonete. — E sabe… minha vida começou a mudar com aquele estágio que fiz. E as vezes não me conformo que você tenha recusado a sua vaga. Foi tão difícil passarmos naquela seleção! Fiquei tão feliz em saber que nós duas havíamos sido aprovadas. — sorriu com melancolia. — Senti muito sua falta, amiga.
– Eu sei, mas fiz a minha escolha.
– Às vezes eu me esforço em entender, mas, tudo bem! Eu fui muito feliz com a minha escolha, também. Depois que comecei a estagiar, as coisas de repente começaram a ficar tão rápidas e quando eu me dei conta, já estava em Nova York. Vivi anos maravilhosos lá, mas o melhor ainda estava por vir: Londres. Amei morar em Londres!
– Fico feliz que tenha dado tudo certo.
– Deu sim… hoje posso dizer que sou realizada! Mas e você, o que tem feito?
Célia virou o rosto e viu o carrinho de supermercado parado ao lado da mesa. E, apesar de amar sua família, sentiu uma sensação estranha ao pensar que tudo o que tinha a dizer é que durante grande parte desses 22 anos, foi uma fantástica e adorável dona de casa.
– Bom, quando se tem quatro filhos e um marido — esboçou um sorrisinho — há muita coisa a se fazer! — tomou um gole de suco.
De repente, o telefone de Susana tocou. Ela pediu licença e atendeu. Estava atrasada para um jantar. Célia entendeu que a conversa estava próxima ao final. Pensou quanto tempo levaria para reverê-la novamente. Susana desligou o telefone e falou:
– Querida, preciso ir… mas antes, tenho um pedido a fazer a você.
– A mim?
– Sim. Enquanto estive em Londres, conheci um editor de uma revista de economia e nos apaixonamos. Vamos nos casar em duas semanas na fazenda dos meus avós. Você já esteve lá, lembra?
– Claro!
– Então… gostaria muito que fosse. Será algo muito intimista, apesar de ter muitos jornalistas. — Susana se levantou da cadeira e colocou sua bolsa de grife nos ombros — bom… na verdade, depois de quarenta e tantos… (você sabe, faz tempo que não digo minha idade em voz alta) eu adoraria soltar fogos de artifício por desencalhar, mas, Steve preferiu algo mais simples. — Sorriu como se já estivesse conformada.
Célia devolveu o sorriso e se levantou também.
As duas se despediram e Célia ficou parada, ainda digerindo o inusitado encontro enquanto via Susana se distanciar. Percebeu que seus batimentos cardíacos estavam acelerados e que dentro de si havia uma euforia crescente. Puxou o carrinho para ir até a filha, na loja de sapatos. No caminho, se deparou com um lindo vestido de gala vinho, e, ainda por cima, no padrão, exposto em uma vitrine. Pensou que seria perfeito para usar no casamento, se tivesse o seu número, claro. Chegou mais próximo ao vidro e observou a etiqueta. Suspirou, desanimada. Jamais daria R$ 1.700,00 em um vestido. Lembrou de Susana e imaginou que ela sim poderia comprar quantos daqueles desejasse.
Os dias passaram depressa e logo chegou a grande cerimônia de casamento. Depois de anos, Célia voltou à fazenda dos avós de Susana, onde já vivera momentos extraordinários. Porém, desta vez, em vez de botas, usava salto, no lugar do jeans, vestia um belo e singelo vestido, “re-re-reformado” especialmente para a cerimônia. Quando desceu do carro, viu um grande tablado montado para o evento e tapetes espalhados pelo gramado. Postes de flores, luzes douradas, tendas encobertas por finos tecidos brancos. Era um verdadeiro sonho. Garçons caminhavam para todos os lados com bandejas de bebidas e guloseimas. Célia segurou na mão de Otávio e imaginou como seria uma cerimônia simplista na cabeça de Susana. — Uau! — deixou sua surpresa escapulir — Lembrou-se do dia do seu casamento e entendeu que as duas, agora, tinham vidas muito diferentes. Não pôde deixar de pensar nas experiências que Susana viveu e as que não viveu. — E se eu tivesse aceitado o estágio? Teria ido tão longe quanto ela? Provavelmente, já que, na universidade, minhas notas eram bem melhores — orgulhou-se — Como seria viver no meio de tanto glamour e requinte? — Olhou para Otávio enquanto se sentavam em uma das últimas fileiras. — Teria sido muito bom ter viajado, conhecido o mundo e não ter de se preocupar em reformar um vestido para ir em uma festa, ou ter de enfrentar o fogão todos os dias. Mas, se tivesse optado em estagiar, não teria me casado com o Otávio — suspirou.
Ver Susana daquela forma fez Célia, indubitavelmente, questionar-se se teria sido feliz caso tivesse tomado outra decisão. Muitas vezes se sentia cansada da rotina e enfadada dos afazeres. Outras vezes, pensava que não havia estudado tanto para ser “apenas” uma dona de casa. Pensou nos filhos e viu que todos esses anos se dedicou de corpo e alma para o bem-estar deles e do marido. E o dela? Será que, de certa forma, esqueceu do seu próprio bem-estar?
A cerimônia começou e Célia não tirava os olhos de Susana, que estava radiante ao lado do seu noivo gringo. Sabia que jamais teria uma vida igual à dela. Sabia que as decisões tomadas não lhe permitiriam retorno. Os pensamentos em sua mente não cessavam e cada vez mais tais ideias a incomodavam. Lembrava-se das escrituras e citações que falavam sobre o privilegiado papel da mulher na família, mas nada parecia confortá-la, foi então que, ouviu o ministro religioso que realizava o casamento recitar a seguinte frase: — … eu vos declaro: marido e mulher até que a morte os separe.
Tais palavras penetram-lhe o âmago com profunda intensidade. Ela apertou a mão de Otávio, como se algo não estivesse certo, ou que estivesse faltando. Sua mente voltou à sala de selamento onde, há mais de 20 anos, recebeu a promessa de viver por este tempo e por toda eternidade ao lado de seu marido e filhos. Viu que nenhum tesouro, fortuna ou fama proporcionado por esse mundo poderia ser mais valioso do que essa promessa. Como deve ser triste viver um lindo amor com prazo de validade? Fitou Otávio mais uma vez e agradeceu ao Pai por tê-lo escolhido. Por todos os belos momentos que passou ao lado dele e dos filhos. Por saber que nada, nem mesmo a morte, poderia separar sua bela família, se forem fiéis. Naquele momento de reflexão, pôde, por um pequeno instante, vislumbrar a eternidade. Seu coração se encheu de um terno alívio e contentamento. Assim, apesar de todas as dificuldades e privações; dos problemas que sua família já enfrentou, juntos; de algumas incertezas materiais para o futuro, uma coisa sabia: Se pudesse voltar ao passado, faria tudo outra vez.

Leia também o último episódio “Bonito e Valentão”
g11550

Siga-me!

Patrícia Galúcio

Patrícia Galúcio, economista e funcionária pública, écasada e possui dois filhos. Membro da igreja desde os 11 anos, já serviu em vários chamados como Presidente das Moças, Presidente da Primária, Professora da Escola Dominical, entre outros. Atualmente serve como professora do Instituto de Religião. Recentemente publicou um livro chamado Virtus, que aborda o tema da virtude e castidade nos dias de hoje.
Siga-me!

Últimos posts por Patrícia Galúcio (exibir todos)