Sentada na carteira, Larissa segurava o maxilar com a mão direita enquanto ouvia o professor de sociologia dar sua aula. Gostava muito de ir à Faculdade. Desde que começou o curso de direito, há 3 meses, achava as disciplinas superbacanas, principalmente Introdução ao Estudo de Direito, História do Direito e até mesmo Economia, porém, sempre que assistia a aula de Sociologia Geral, sentia uma angústia dentro do peito. Olhava para um lado e para o outro e se questionava se apenas ela sentia essa sensação estranha.

A feição de indiferença de uns, bem como um brilho empolgado nos olhos de outros a faziam acreditar que sim. Era a única que não gostava da forma que seu professor falava sobre religiões, fé, e, principalmente, da existência ou melhor, da inexistência de Deus, que nada mais seria do que uma invenção criada pelo homem, fruto do desejo de dominação sobre “mentes inferiores”. Sabia que nem todos os sociólogos são ateus, mas, de certo, o professor Jorge era. Também sabia que ensinar suas crenças ou a falta delas, não deveria fazer parte do currículo, mas para ele, isso não fazia diferença. Ensinava sua opinião como se verdade fosse. Já tinha ouvido falar que durante a Universidade seria bombardeada por teorias anticristãs e anti qualquer coisa referente à fé, afinal, parecia que no lugar onde se produz ciência, a fé nada mais era do que uma barreira na busca de conhecimentos e descobertas.

Viu o professor olhando para o relógio e sentiu um alívio percorrer sua espinha. A aula havia chegado ao fim. Os alunos saíram da sala, eufóricos com o início do final de semana. Larissa olhou para sua melhor amiga da turma e falou:

– Finalmente!

Helen sorriu e completou:

– Hoje é sexta-feira!

Não era exatamente por isso que Larissa estava feliz, mas apenas devolveu o sorriso com os lábios contraídos.

– Então, Helen… que horas passo na sua casa no domingo pela manhã?

Há três semanas, Larissa vinha falando com a Helen sobre a igreja. Conversavam durante os intervalos das aulas, por telefone, redes sociais. Helen estava gostando e havia aceitado ir à reunião no domingo seguinte. Achava interessante as explicações sobre quem somos, de onde viemos e o que estamos fazendo aqui, bem como o estreito relacionamento que temos com Deus por sermos seus filhos.

Helen esfregou a nuca enquanto colocava a mochila nas costas e fez uma cara desanimada.

– Podemos deixar para outro dia?

Larissa ficou desapontada, mas tentou disfarçar.

– É que vai ter prova na segunda-feira e eu preciso estudar. Tô muito atrasada — Helen falou tentando acreditar em suas próprias palavras. Olhou para Larissa e entendeu que ela estava decepcionada. — desculpe, amiga. Eu sei que havíamos combinado, mas quer saber a verdade, não estou certa se religião é uma boa.

Larissa arregalou os olhos, mas permaneceu muda.

– Geralmente ter uma fé requer esforço, abnegação, sacrifício… não sei se estou preparada, ou mesmo, se tudo isso faz sentido.

– Entendo… — Larissa sussurrou sem saber o que dizer. Não disse mais nada. Depois de duas horas ouvindo um ateu tentando provar que Deus não existia, não seria nenhuma surpresa a reação da Helen. Se Larissa não tivesse um testemunho sólido sobre o evangelho, ela mesma estaria se questionando.

Voltou para casa, inconformada. Sabia que Helen estava interessada e que em muitas de suas conversas, tinha certeza que ela havia sido tocada pelo Espírito Santo. Não é justo! — pensava. A luz de Cristo não pode se apagar diante da incredulidade.

Pensou em seu irmão Gustavo que fazia missão em Portugal, e imaginou os desafios que ele deveria está passando. Nem sempre é fácil compartilhar o evangelho. Nem sempre é fácil abrir a boca, mas o pior é se sentir impotente diante da incredulidade disseminada pelos céticos.

No dia seguinte, falou outra vez com a Helen por mensagem de celular, mas ela continuou a declinar.

A sensação de derrota e desânimo a acompanhou durante todo o final de semana, inclusive, enquanto estava nas reuniões da igreja. Chegou em casa e foi direto para o computador. Nem mesmo quis saber de almoçar. Precisava de ajuda e apoio, então, decidiu escrever um e-mail para o seu irmão:

Querido Élder Novaes, [normalmente ela não era tão dócil assim, talvez um “e aí irmão” fosse o bastante, mas a saudade dentro do peito a fez mudar a forma de tratamento] … Como vai sua missão? Estamos todos com saudades! Sei que não é fácil encontrar pessoas para ensinar, muito menos, convencê-las sobre a veracidade do evangelho. Tenho sentido na pele isso. Tenho uma amiga na universidade que estava animada em saber sobre a igreja, mas, diante de tantas coisas, está desistindo. Como você faz quando alguém que parece tão alegre ao receber as boas novas, de repente, desiste de tudo? Sinceramente, não sei como agir…

Larissa apertou no botão ENVIAR com o coração apertado e, de certa forma, desesperançado.

No dia seguinte, logo que acordou pensou em seu irmão. Correu para o computador. Sorriu ao ver um novo e-mail na sua caixa de entrada.

“Querida Larissa, rsrs [O Élder Novaes também não estava acostumado com esse tipo de tratamento, mas decidiu retribuir] A minha missão está muito bem… tenho aprendido bastante com os sucessos e também com os fracassos. Depois de um ano aqui, já passei pela situação que está passando algumas vezes, e sei como é desanimador. Porém, o que posso dizer é o seguinte: “Eis que o semeador saiu a semear. Enquanto lançava a semente, parte dela caiu à beira do caminho, e as aves vieram e a comeram. Parte dela caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra, e logo brotou, porque a terra não era profunda. Mas, quando saiu o sol, as plantas se queimaram e secaram, porque não tinham raiz. Outra parte caiu no meio dos espinhos, que cresceram e sufocaram as plantas. Outra ainda caiu em boa terra, deu boa colheita, a cem, sessenta e trinta por um.” (Mateus 13: 4-8) Parabéns pelo seu compromisso e vontade de compartilhar o evangelho e semear… Esse é o nosso dever e privilégio! Devemos cumpri-lo sem julgar, pois o semeador espalhava suas sementes, sem escolher o tipo de terreno. Muitas vezes, encontraremos pessoas céticas, que tem a mente dominada pelas filosofias do mundo e a sabedoria dos homens. Seus corações são como a beira do caminho. Simplesmente as verdades sagradas não fazem sentido para eles. Outras pessoas recebem a mensagem com alegria, mas como o terreno é pedregoso, qualquer desafio ou ofensa é suficiente para afastá-los. Outros ainda, também recebem com alegria, mas, assim como sua amiga, estão envoltas por espinhos que as sufocam, tal como as ideologias divergentes que existem, bem como a preocupação com sua vida e as riquezas do mundo. No entanto, o serviço nunca é vão, pois existem aqueles cujo o coração é uma boa terra, que recebem a mensagem e frutificam. Apesar do próprio Salvador ter nos alertado sobre os fracassos e dificuldades na pregação, sei que você gosta muito da sua amiga, e que não se conformará com os insucessos.
Minha experiência e de muitos outros é que… o amor é capaz de transformar qualquer terreno, afastar as pedras e retirar os espinhos. Continue dando o exemplo a ela; seja uma boa influência e aproveite todas as oportunidades de ensino, pois chegará a hora em que ela sentirá, não por suas palavras, mas pelo Espírito Santo, que essas coisas são verdadeiras. Pois ele sim, é capaz de convencer sobre a verdade de todas as coisas…
Com amor, Élder Novaes.

Horas depois, Larissa entrou na sala de aula. Era prova de Economia. Estava bem mais animada do que nos dias anteriores. Não demorou e Helen chegou. Ao vê-la, lembrou-se das palavras do seu irmão: o amor pode mudar qualquer terreno. Ela acenou com a mão, a cumprimentando enquanto Helen se sentava na carteira ao lado.

– Desculpe por ter furado com você — Larissa fitou Helen ao ouvi-la. — Logo você, que sempre foi super minha amiga; sempre me ajudou e me apoiou. Não queria desapontá-la.

Larissa lançou-lhe um sorriso compreensivo. Entendeu que, de fato, não lhe cabia convencê-la de nada, mas sim, de demonstrar amor e bondade.

Nesse instante, o professor distribuiu as provas na classe. Larissa recebeu a sua e começou a ler a primeira questão, quando foi interrompida outra vez pela voz de Helen.

– Se você é tão legal, sua igreja também deve ser! — sorriu. — Quem sabe você possa me levar lá no próximo domingo.

Leia também os episódios 1, 2, 3 e 4.

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Patrícia Galúcio

Patrícia Galúcio, economista e funcionária pública, écasada e possui dois filhos. Membro da igreja desde os 11 anos, já serviu em vários chamados como Presidente das Moças, Presidente da Primária, Professora da Escola Dominical, entre outros. Atualmente serve como professora do Instituto de Religião. Recentemente publicou um livro chamado Virtus, que aborda o tema da virtude e castidade nos dias de hoje.
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