Certa ocasião perguntei ao meu primeiro presidente de missão porque havia um número considerável de missionários que se tornavam inativos após a missão. Ele respondeu de forma muito rápida: “Porque eles já eram inativos na missão!” Discuti com ele o assunto o por mais algum tempo, e após meu retorno da missão ponderei varias vezes sobre o assunto.

De fato consegui identificar características de missionários inativos, mas também percebo que alguns missionários bastante ativos se deixaram perder.

O trabalho no campo missionário tem características que tornam a vida de um jovem mais simples:

  • Ter um companheiro com os mesmos objetivos.
  • Ter entrevistas regulares com os líderes do sacerdócio.
  • Ter uma rotina diária prescrita e metas claras.

Ao voltar para casa, alguns jovens se deparam com uma situação muito diferente, mesmo os que têm uma boa família não terão companhia permanente. Outros se deparam com condições espirituais muito adversas no ambiente familiar, com familiares que, em algumas situações, oferecerão o pecado como alternativa de vida. Tive este desafio pessoalmente, ao voltar para casa minha família passava por várias crises, me pareceu que havia a suposição de que um ser santificado e perfeito, capaz de resolver todos os problemas havia chegado.

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Outra realidade é um possível vazio no cuidado espiritual. Na missão havia entrevistas mensais com o presidente e semanais com outros lideres da missão. Certamente o bispo não terá a possibilidade de fazer um acompanhamento tão frequente, daí se torna mais premente a necessidade que Conselheiros do Bispado, Presidentes de Quórum e Sociedade de Socorro atuem de forma efetiva no acompanhamento dos que voltam de missão.

O fato potencialmente mais perigoso é a falta de rotina e metas. Já presenciei missionários retornados que apresentavam uma “síndrome de abstinência” do Manual Missionário e do Planejamento Missionário, alguns inclusive andando com eles por meses após a missão. Na realidade, ao fim da missão, os missionários retornados deveriam estar aptos a escrever uma edição personalizada de um “Manual Para a Vida Após o Retorno da Missão”. Este “Manual” é personalizado, mas alguns componentes necessariamente deveriam estar previstos:

  • Rotina diária de estudo das escrituras e orações significativas.
  • Previsão de tempo destinado para manter um serviço significativo no evangelho.
  • Participação no Instituto de Religião.
  • Participação em um dos três cursos de autossuficiência.
  • Meta de frequência ao templo.
  • Não abdicar do direito e privilégio de jejuar mensalmente, participar das reuniões chegando no horário, sair com os missionários, servir como mestre familiar/professora visitante, pagar o dízimo, realizar noites familiares.
  • Manter o padrão de vestimenta e aparência condizente com o aprendido na missão.
  • Viver de modo frugal, não fazendo dívidas ou utilizando dinheiro com modismos.

Não consigo imaginar sucesso após a missão sem que se considerem seriamente três grandes metas:

  • Formação profissional
  • Trabalho
  • Casamento

Formação profissional é um fundamento muito negligenciado. Muitas vezes um emprego relativamente bom, causa a falsa impressão de que a formação profissional não é necessária, produzindo uma sensação falsa de segurança. O subemprego precisa ser visto como uma praga a ser combatida. A pessoa com visão imediatista prefere o dinheiro na conta, que acaba por obscurecer a mente quanto às dificuldades que podem ser vividas no futuro pela falta de formação. Alguns se envolvem em dívidas que exigirão mais trabalho que tomarão o tempo e o dinheiro que poderia ser investido em formação.

Tanto rapazes como moças devem ter a ciência que o casamento não será baseado em certezas financeiras e comodidade nas épocas em que trabalho e estudo devem ser conduzidos simultaneamente ao casamento.

Tomo a liberdade de compartilhar uma experiência pessoal: Quando casei, cursava o terceiro ano de medicina (período integral), minha esposa cursava pedagogia (um período do dia) e trabalhava quatro horas na prefeitura. O salário dela era de R$ 360,00 e eu ganhava na época, fazendo alguns estágios noturnos, próximo de R$ 200,00. Isto é equivalente hoje em dia a uma renda de 1900,00. Gastávamos aproximadamente R$ 180,00 de aluguel, R$ 60,00 de dízimo e ofertas, R$ 160,00 de vale transporte, R$ 60,00 de luz e água e R$ 100,00 para mercado. A soma da decisão de casar e o valor recebido incluíram alguns sacrifícios: Tentar vender sanduíches na faculdade, morar em uma casa de fundos em um local mais remoto, não ter telefone residencial, caminhar para levar sacos de roupa para lavar na casa da sogra que gentilmente cedia a maquina de lavar (e depois buscar), almoçar muitas vezes na casa de parentes, muitas caronas, usar roupas recebidas de doação, não trocar presentes que tivessem custo, fracionar os alimentos após as compras para garantir que teríamos alimento por todo o mês, dentre toda as outras atividades honestas que pudessem reduzir gastos. Além disto, por três anos a minha esposa fez o sacrifício de trabalhar a noite para ajudar a pagar o valor não coberto pela bolsa de estudos das mensalidades de minha faculdade.

Embora todas estas coisas possam parecer motivos para lamentação, não sentimos nenhuma frustração por estes momentos, sempre lembrados com muito carinho e hoje são motivos para rir.

Viver ativamente o evangelho e olhar para o futuro com os olhos da fé, submetendo-se a tudo quanto o Senhor achar que nos deva Infligir, enfrentando com coragem as metas de formação profissional, trabalho e casamento, certamente constituem um caminho seguro para manter-se apegado à barra de ferro.

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Luciano Sankari

Serviu na Missão Brasil Recife Sul de 1996 a 1998.Graduado em medicina em 2003 na Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná, com Especialização em Cardiologia HC-UFPR e em Gestão do Trabalho e Educação em Saúde ENSP/FIOCRUZ. Trabalha na área de psiquiatria há 12 anos. É Presidente da Estaca Curitiba Brasil Novo Mundo. Casado, tem 3 filhos.
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