No Livro de Mórmon, Néfi descreveu a Liahona como uma esfera esmeradamente trabalhada, feita de latão puro e que possui duas agulhas, e ainda menciona que uma delas indicava o caminho a seguir no deserto. (1 Néfi 16: 10)  Lembro de ler este relato pela primeira vez e rapidamente em minha mente visualizar uma bússola magnética. Com o passar dos anos, porém, e à medida que tenho estudado mais a respeito deste magnífico e misterioso instrumento guia, cheguei à conclusão de que a esfera de latão e a bússola moderna, somente se assemelham em propósito, pois ambas servem para orientar ou guiar na direção correta. Em todos os outros aspectos a bússola difere completamente da Liahona.

Uma bússola moderna é um instrumento que determina direções horizontais, indicando o meridiano magnético da terra ou a posição de alguém ou algo em relação e ele. A bússola possui uma agulha imantada ou magnetizada, que gira livremente na posição horizontal sempre apontando para o norte magnético. O uso coreto de uma bússola exige prática, um mapa cartográfico e o conhecimento prévio da direção que se deseja alcançar, para se corrigir com precisão a leitura da mesma, em relação ao norte magnético.

A Liahona por sua vez possuía duas agulhas, como detalhado por Néfi. Ela não funcionava por meio de propriedades magnéticas, mas de acordo com a fé e a diligência e a atenção que o povo de Leí lhe dava. (1 Néfi 16: 28-29) Foi neste ponto que as perguntas começaram a surgir em minha mente.

Uma vez que eu considerava a Liahona como uma bússola normal, o fato dela possuir duas agulhas e mover-se de acordo com a fé e a diligência do povo, me fez perceber que o funcionamento da esfera de latão era diferente do instrumento moderno. O povo de Leí não utilizou o norte magnético como referência para decidir que direção tomar no deserto, eles literalmente seguiam a direção que os ponteiros indicavam. Eis a grande diferença entre a Liahona e a bússola.

Uma vez que os ponteiros se moviam de acordo com a fé do povo, como eles poderiam saber que a direção indicada pela esfera era o correto? Como eles poderiam saber que estavam sendo fiéis o suficiente para confiar na direção indicada pela Liahona, sendo que o povo de Leí se revezava entre a obediência e a rebeldia? Pois mesmo nos momentos de rebeldia os ponteiros deveriam estar apontando em alguma direção! Como poderiam saber se a esfera estava funcionando corretamente ou não? Eles não possuíam um “norte” como referência!

 A bússola moderna não para de funcionar! Como Néfi percebeu que a Liahona parou? (1 Néfi 18: 12) E depois que Néfi foi solto por seus irmãos, como ele soube que a esfera estava apontando na direção correta novamente? (1 Néfi 18: 21)

Não acredito ter respostas seguras para estas perguntas. Mas talvez o próprio relato de Néfi nos forneça algumas informações suficientes que nos guie até uma boa suposição.

Talvez a primeira coisa que devemos observar é que a Liahona não possuía apenas um ponteiro, mas dois. Na bússola moderna um único ponteiro sempre apontará o norte magnético, se usada corretamente. A combinação correta da posição da bússola com o ponteiro na direção norte, nos ajuda a localizar todos os outros pontos cardiais. Com a Liahona acontece algo diferente. Há um ponteiro que indica o caminho a seguir, como registrado por Néfi. E qual o propósito do segundo ponteiro ou agulha?

Robert L. Bunker escreveu: “Uma vez que um ponteiro sempre “aponta” em alguma direção, o ponteiro adicional era necessário para indicar se o primeiro ponteiro poderia ou não ser confirmado.” [1] Ou seja, se houvesse apenas uma agulha ou ponteiro, seria impossível determinar quando a Liahona estivesse indicando o caminho correto. Mas se houver dois, e eles estiverem alinhados e juntos apontando a mesma direção, saberíamos que a Liahona estava funcionando corretamente. Bunker acrescenta:“É assim que teria funcionado: se um observador olhasse os ponteiros e visse apenas um único ponteiro, (…) então ambos estavam alinhados na mesma direção, um em cima do outro, e a (esfera) estaria fornecendo a informação correta. O (povo) de Leí poderia então seguir a direção indicada com confiança de que era a instrução do Senhor. Se, por outro lado, os dois ponteiros estivessem cruzados entre si – formando um “x” (…) – então o dispositivo não estava funcionando, e as informações não eram confiáveis.” [2]

A segunda coisa a observar é o fato de que sobre os ponteiros havia uma escrita nova que era simples de ser lida e dava-lhes entendimento sobre os caminhos do Senhor, e era escrita e mudada de tempos em tempos. (1 Néfi 16: 26-30) Neste ponto entendemos que além de indicar fisicamente o caminho que os levaria a terra prometida, a Liahona lhes indicava o caminho do arrependimento e os ajudava a aproximarem-se espiritualmente do Senhor. Em resumo, a Liahona fornecia orientação e instrução durante a longa viagem de Leí e seu povo.

Quando lemos no relato de Néfi que uma agulha indicava o caminho a seguir, e o comparamos com o relato de Alma que diz que as agulhas – no plural – indicavam o caminho, podemos ser tentados a encontrar uma contradição no Livro de Mórmon. (1 Néfi 16:10 e Alma 37: 40) Mas a lei das testemunhas do Senhor nos ajuda a compreender que os dois relatos, na verdade se completam. Néfi não errou ao mencionar que apenas uma agulha indicava o caminho, e Alma está correto em seu comentário, quando diz que as agulhas, juntas, como duas testemunhas do Senhor indicavam o caminho. O padrão do Senhor é claramente observado aqui, quando uma testemunha – ponteiro – indica o caminho, e uma segunda testemunha – o segundo ponteiro – confirma a verdade. (Deuteronômio 19: 15-16; Mateus 18: 16; 2 Coríntios 13: 1; Éter 5: 4) Uma terceira testemunha aparece para confirmar a fidelidade do povo, quando de tempos em tempos, uma escrita nova os conduz nos caminho do Senhor.

O Significado da palavra

O profeta Néfi é o que melhor descreve aquilo que os profetas do Livro de Mórmon chamaram de esfera ou guia. Mas somente Alma o Filho, séculos depois a menciona pelo nome ‘Liahona’ e a compara com á Palavra de Cristo. Alma ainda registra que a interpretação para esta nova palavra seria ‘uma bússola’, corroborando o que também disse Néfi. (Mosias 1: 16; Alma 37: 38-45; 1 Néfi 18: 12) Porém Hugh Nibley nos fornece duas possibilidades adicionais para o significado da palavra, baseado nas raízes hebraicas. Ele atribuiu a um estudioso da Universidade Hebraica, chamado Shunary a teoria de que a palavra Liahona pode significar “Abelha Rainha”. Porém o próprio Nibley acrescenta a especulação de que Liahona pode ser traduzido como “Para Deus é a orientação”. [3]

Outros estudiosos também tentaram encontrar uma definição para a palavra Liahona. Numa antiga revista da Igreja chamadaImprovement Era lemos: “O nome da nova publicação [A Liahona] foi selecionado do Livro de Mórmon, e significa, sendo interpretada, uma bússola… O Deseret News, falando da provável etimologia da palavra, diz: A palavra é egípcia e hebraica, e significa em ambas as línguas ‘luz’. Liahona, ou ‘L Jah Ona’- L (a) Jah (Jeová) Ona (Casa do Sol). Então, parece-nos, com segurança ser traduzido literalmente: ‘A Jeová é Luz’. Ou seja, o Senhor tem de fato luz para dar aos seus servos que confiam nele e obedecem a sua palavra… Seria presunçoso de nossa parte falar com autoridade sobre o assunto. Mas admite-se que, se as conclusões aqui sugeridas estiverem corretas, a palavra Liahona tem um significado muito bonito e significativo.” [4]

Hyrum M. Smith e Janne M. Sjodahl escreveram: “Quando Leí percebeu as qualidades maravilhosas deste instrumento, exclamou em êxtase, Liahona! O que se tornou seu nome (Alma 37: 38). A Liahona é uma palavra hebraica com possivelmente, uma terminação nefita, acrescentada posteriormente. L significa “para”; Jah é uma forma abreviada do nome sagrado, “Jeová”, e On significa “Luz”. O significado então, é: “Para Jeová é Luz”; Isto é, “Deus tem luz; A luz vem de Deus “, porque Ele havia respondido às suas orações com luz e orientação.” [5]

Paul R. Cheesman acrescenta: “Acredita-se por alguns que a palavra Liahona significa “Para Deus é Luz”; Isto é, Deus dá luz como o faz o sol.” [6]

Ao estudar sobre este maravilhoso instrumento de orientação física e espiritual, podemos aprender que o Senhor nada faz que não seja em benefício do mundo. Que por meio de coisas pequenas e simples, mas não menos magníficas o Senhor pode efetuar a salvação de um povo. Que assim como o povo de Moisés foi guiado por uma coluna de fogo no deserto, e o povo de Leí por sua vez foi guiado pela ‘luz’ da Liahona em suas viagens, nós podemos também ser orientados hoje pelos servos escolhidos do Senhor, que servem como testemunhas especiais de Jesus Cristo, os profetas vivos, videntes e revelados de nossa dispensação.

Notas

  1. Bunker, “The Design of the Liahona and the Purpose of the Second Spindle,” Journal of Book of Mormon Studies, 3/2 (1994):1.
  2. Bunker, “The Design of the Liahona and the Purpose of the Second Spindle,” Journal of Book of Mormon Studies, 3/2 (1994):6-7.
  3. Hugh Nibley, Teachings of the Book of Mormon – Semester 1 … Brigham Young University, 1988-1990. Provo: FARMS, p. 216.
  4. “Liahona,” Improvement Era, vol. X, April, 1907, No. 6
  5. Doctrine and Covenants Commentary, First Period, 1823-1830, section 17, p. 78)  (See also Hoyt W. Brewster, Jr., Doctrine and Covenants Encyclopedia, p. 361; Daniel H. Ludlow, A Companion to Your Study of the Doctrine and Covenants, vol. 1, p. 129; Joseph Fielding McConkie and Robert L. Millet, Doctrinal Commentary on the Book of Mormon, vol. 3, p. 282..
  6. “Lehi’s Journeys” in The Book of Mormon: First Nephi the Doctrinal Foundation. Monte S. Nyman and Charles D. Tate, Jr. eds, Provo: BYU Religious Studies Center, 1988, p. 244 citing George Reynolds and Janne M. Sjodahl, The Story of the Book of Mormon, Salt Lake City: Deseret News Press, 1955, pp. 10-11.
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Marcelo de Almeida

De Fortaleza/CE, e com 34 anos, Marcelo de Almeida é solteiro, missionário retornado e serve como Diretor de Indexação da Estaca. Ele estuda Enfermagem e é SUD desde os 16 anos, tendo servido na Missão Brasil Londrina.
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