Quando estudamos a cultura judaica decididamente patriarcal na época de Cristo, aprendemos que o papel da mulher era seu trabalho e manutenção do lar, reprodução e a criação de filhos. Estudar a história antiga traz alguns desafios, já que foi escrita por homens com pré-conceitos sobre o papel da mulher, mas os costumes e leis da época descrevem que homens não podiam cumprimentar mulheres em público, e mulheres raramente podiam deixar seus lares a não ser que fossem à sinagoga ou obter água e outras necessidades para o lar e família. 

Embora diferentes em alguns locais, dependendo das condições socioeconômicas, contexto cultural, geografia, e afiliação religiosa, seja lá onde ela se encontrasse, em sua grande maioria a mulher estava sempre subordinada à autoridade de um homem: primeiro seu pai, depois seu marido ou um parente homem se fosse viúva, mesmo para acesso a herança. Qualquer dinheiro que possuísse pertencia ao seu marido. Homens podiam legalmente se divorciar de uma mulher por qualquer razão, mas uma mulher não tinha o mesmo direito. 

Homens eram requeridos orar e ler as escrituras, mas não as mulheres. Os locais como sinagogas e os templos tinham locais separados para homens e mulheres. Elas não podiam ler em voz alta ou prestar testemunho. Mulheres sequer eram identificadas em livros de história e mesmo escrituras a não ser que tivessem alguma influência socioeconômica ou proeminência social. 

E então Jesus Cristo desafiou todas essas leis. Ele fez as mulheres bem-vindas tão quanto os homens discípulos, onde quer que estivesse. 

1. Jesus falou com as mulheres em público. 

Ele recusava-se a tratá-las de modo inferior. Ele as tratava com respeito, reconhecia sua dignidade, desejos e talentos.   

Como quando Ele visitou um funeral, falou com a mãe viúva em Nain, e trouxe seu filho de volta à vida (Lucas 7:11-17). 

Ele curou uma mulher que estava tomada por um espírito e aleijada por 18 anos (Lucas 13:12). Quando o líder da sinagoga ficou indignado que o Salvador havia curado uma mulher no sábado, Cristo a entitulou respeitosamente de “filha de Abraão” (Lucas 13:16), enquanto a expressão “filho de Abraão” era usada para indicar um homem judeu reconhecido e investido por convênio com Deus, e mulheres nunca haviam sido chamadas de “filhas de Abraão”. Com esse título, Jesus reconheceu-a como igual. 

Em João 4:4-42, Jesus ignorou dois dos códigos de ética e comportamento judaico. Ele iniciou uma conversa com uma estrangeira, Samaritana, e também mulher, que surpresa, questionou se Ele podia fazê-lo (João 4:4-42). Ele então lhe propôs uma longa conversa, onde inclusive lhe pediu por água do poço, e, novamente, ela se surpreendeu (João 4:9). Ele a conhecia. Até mesmo João estranhou seu comportamento (João 4:27). 

Na época também, o testemunho de uma mulher não era contado como confiável ou era muito raro. E após o encontro com a mulher no poço, ela testemunhou dele, o que surpreendeu e acabou convertendo a muitos. 

2. Jesus demonstrou-lhes respeito e compaixão. 

Cristo se recusou a ver as mulheres como impuras ou merecedoras de punição. Ele entendia que o fluxo de sangue era a beleza do dom da vida, e sabia que a cultura da época considerava mulheres impuras quando nesse estado, ou seja, enquanto menstruadas, mulheres não podiam participar dos rituais religiosos, e até mesmo quem as tocassem ou fossem tocadas por elas também se tornavam impuros. 

Jairo, um oficial da sinagoga, procurou por Jesus e lhe implorou para que pudesse curar sua filha. No caminho, enquanto Jesus e os discípulos se dirigiam à casa de Jairo, uma mulher aflita e sofrendo de um fluxo de sangue por muitos anos tocou as vestes do Senhor quando ele caminhava em meio à multidão (Lucas 8:43-48). Pelo ritual judaico, Jesus estaria então impuro, mas ela ficou surpresa com sua reação. Ele não disse uma palavra sequer a ela sobre impureza, mas chamou-a de “Filha”, disse que sua fé a salvou e pediu que ela fosse em paz (Lucas 8:48). 

Jesus reconheceu a dignidade das mulheres em situações que, pelas leis e rituais da época, seriam julgadas e apedrejadas. Ele defendeu uma mulher quando encontrada em adultério (João 8:3-11), agindo com compaixão e tratando-a com respeito. Os escribas e fariseus que trouxeram a mulher a Jesus e apresentaram o caso o fizeram propositalmente, esperando que ele rejeitaria a lei de Moisés em favor da mulher. Mas Cristo sabiamente desafiou completamente o debate da lei naquele momento e os confrontou com uma verdade fundamental – que nenhum deles estava limpo de pecados. Quando os acusadores saíram, Jesus falou com a mulher com compaixão. Ele não racionalizou seu pecado, mas lhe convidou a viver com liberdade e lhe deu a escolha de mudar sua vida e a imagem que tinha de si mesma. 

3. Jesus deu às mulheres o direito de adorar. 

Diferente dos rabinos de sua época que separavam ou não permitiam mulheres em seus rituais, Ele pregava e ensinava as escrituras e a doutrina pura do Evangelho às mulheres, aceitando-as como discípulos. 

Ele permitiu que elas o seguissem e pregassem e proclamassem o Reino de Deus com Ele. Os doze apóstolos os acompanhavam, e com eles muitos outros discípulos, incluindo muitas outras mulheres, como Joanna, a esposa de Chuza que era servo de Herodes; Susanna, a quem o Salvador também expulsou demônios, e tantas outras. 

Conheça a história de algumas delas, as cinco Marias, a partir deste link. 

Marcos relatou que muitas das mulheres que o ajudaram estavam presentes na crucificação. Este é um direito fenomenal, dado a que o costume era que mulheres não podiam aprender ou ler as escrituras ou sequer deixar seus lares. 

4. Jesus apresentou mulheres como modelos de fé. 

Jesus apresentou algumas mulheres como exemplos de fé entre seus discípulos. A viúva de Zarephath (Lucas 4:24-26), a Rainha do Sul (Lucas 11:31), as cinco virgens fiéis na parábola das Dez Virgens (Mateus 25:1-13), a viúva persistente (Lucas 18:1-8), a pobre viúva e seus dois centavos (Lucas 21:1-4). 

A história da viúva que deu as duas moedas de cobre no templo aparece também em Marcos 12:41-44. Ela deu o total de seus pertences numa época que mulheres tinham acesso limitado ao templo em Jerusalém, e Cristo naquele momento, em meio a homens influentes e socio-culturalmente ricos, colocou-a como exemplo sobre todos eles. 

5. Jesus concedeu-lhes o direito à revelação pessoal e direta. 

Ele declarou-se como Messias à mulher Samaritana no poço, e ela se tornou uma grande missionária, fazendo grande parte da cidade em que morava passar a acreditar em Cristo. Ele declarou-se “A ressurreição e a vida” à Martha em frente ao túmulo de Lázaro antes de ressuscitá-lo (João 11:25). Ele chamou Maria Madalena pelo nome em frente à tumba vazia na manhã da ressurreição (Marcos 16:11). 

Ele lhes permitiu saberem por si mesmas, e descobrirem a verdade, não da boca de um marido ou pai, mas frente a frente, respeitando-as por quem eram. Tanto, que as mulheres se juntaram aos apóstolos em oração entre a ascensão de Jesus e o dia de Pentecostes (Atos 1:13-14). 

6. Jesus explicou o poder do Sacerdócio dado aos homens. 

Embora houvessem mulheres ministrando, pregando e liderando partes de Sua Igreja em sua época, não havia mulheres entre os Doze Apóstolos, nem gentios ou Samaritanos. Todos os doze eram homens judeus. Isso não impedia as mulheres, gentios e samaritanos, de se beneficiarem de todas as bênçãos e responsabilidades, mas os doze apóstolos chamados por Jesus foram escolhidos em simbolismo aos doze patriarcas das doze tribos de Israel, cada uma encabeçada por um filho de Jacó, respeitando a linhagem do Sacerdócio de Melquisedeque. 

O papel de apóstolo previamente ensinado por Abraão a Jacó, e por Jacó a Isaque, era de que o chamado era feito por Deus, e conferido as chaves após a ordenação. O chamado de apóstolo englobava a função pessoal como testemunha especial da divindade de Jesus Cristo, e era conferido por ordenação, ou seja, Jesus Cristo os escolheu, eles foram batizados por João Batista e pelo próprio Jesus Cristo (João 3:22, 20:22), confirmando a eles o Espírito Santo pela imposição das mãos. 

Cristo explicou em João 15:16 a ordem de Sua Igreja e apostolado, quando disse, “Não me escolhestes vós a mim, porém eu vos escolhi a vós, e vos designei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; para que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda.” 

Jesus Cristo era o sumo sacerdote e possuía o sacerdócio permanente, conforme explicado em Hebreus 7:23-28; 9:11-14 e 10:10-14. Outras passagens bíblicas que mencionam Jesus Cristo como nosso Sumo Sacerdote: Romanos 3:25-26; 4:25; 5:1-2, 8-9; 8:32-34; 1 Corintíos 11:23-26; Gálatas 1:4; 2:20; 3:13-14; Efésios 1:7; Filipenses 2:8; 3:10-11; Colossenses 1:13-14, 20, 22; 3:1-4; 1 Timóteo. 2:5-6; 1 João 2:2; 4:10. 

O padrão começa em Deus Pai, ao chamar um profeta, e conferir a ele as chaves do sacerdócio, que é o poder e autoridade de dirigir o trabalho de Deus na terra (Amós 3:7). Este trabalho inclui ordenanças necessárias para a salvação, tais como ser batizado e receber o Espírito Santo (João 3:5). Desta forma Deus apontou Adão, Enoque, Noé, Abraão e Moisés para estabelecer Sua Igreja aos Seus discípulos. 

As mulheres seguidoras de Cristo não só entendiam essa ordem sacerdotal como apoiavam os apóstolos como mentores e testemunhas especiais de Cristo. As mulheres líderes na Igreja primitiva conforme as cartas de Paulo trabalhavam juntamente com os irmãos nas igrejas liderando as mulheres e crianças, lado a lado com os homens, chamados e escolhidos de acordo com sua posição no Sacerdócio. 

Na história de Maria Madalena – que você pode ler na série As Maravilhosas Marias – podemos entender que o papel das mulheres na época de Cristo era justamente a ajuda constante aos apóstolos e os discipulos de Jesus e toda a missão da Igreja de Cristo. 

Após a morte dos apóstolos e discipulos que deram suas vidas pelo Evangelho de Cristo, a colisão entre o mundo especulativo da filosofia grega e a fé literal e simples dos cristãos primitivos produziu grandes contenções e ameaçou divisões políticas do idólatra e já fragmentado império romano. O Deus tangível, materializado no Novo Testamento, deu lugar então ao ser intangível da deidade, e uma restauração se fez necessária após séculos de separação dos ensinamentos puros de Cristo. 

Da restauração do Evangelho através da visão do Pai e do Filho `a Joseph Smith aos dias de hoje, todas as bênçãos da Igreja primitiva estão acessíveis aos filhos e filhas de Deus, conforme se preparam para entrar na presença de Deus ao serem exaltados, e tanto a homens e mulheres. Esta é a fé que nos dá alegria, força e paz para confrontar os desafios da vida mortal como ensinada por Cristo. 

7. Jesus orientou-as a trabalharem em conjunto com os homens na liderança da Igreja e trabalho missionário. 

Nas cartas de Paulo em Atos dos Apóstolos, é claro que as mulheres que eram discípulos de Jesus assumiram posições de liderança na Igreja primitiva, ao lado dos homens. Em Romanos 16, dez líderes de vinte e nove igrejas eram mulheres e ele as agradeceu pelo nome. Phoebe e Prisca, cujo marido Aquila era um missionário poderoso, encabeçam a lista. Isso constitui evidência do equilíbrio de gênero, conforme Paulo descreveu em sua carta aos Gálatas 3:28: “Nisso não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” 

Foi neste mesmo periodo, quando Constantino e o império grego-romano expandiu os costumes e ideais onde a liderança por mulheres em esferas públicas violava as esferas politico-religiosas, o rápido crescimento de comunidades divergentes continuou e a igualdade infelizmente desapareceu. 

8. Jesus ensinou que tanto direitos como responsabilidades são dados a homens e mulheres na busca da exaltação. 

O Senhor Jesus Cristo considera as mulheres como iguais, dignas e merecedoras de todas as bênçãos reveladas sob os céus para nossa dispensação na mesma proporção que os homens. Ele mesmo explicou sobre o reino dos céus e o respeito às mulheres, seus direitos, talentos, ideias como iguais na pequena parábola descrita em Mateus 13:33:

“O reino dos céus é semelhante ao fermento, que uma mulher, pegando-o, introduz em três medidas de farinha, até que tudo esteja levedado.” 

Ele reconhecia os dons ao discipulado das mulheres e não tinha medo de chamá-las, pois se elas realmente conhecessem a História e o legado divino de seus antepassados e entendessem Seu Evangelho, indubitavelmente apoiariam seu Sacerdócio. E assim, Ele exemplificou como sua participação na Igreja poderia ser levedada, fazendo bem-vindas sua criatividade e espiritualidade na participação de tudo. 

A Proclamação ao Mundo revelada nos últimos dias pelo Pai Celeste aos profetas chamados nesta dispensação exemplifica os ensinamentos de Jesus Cristo a respeito da igualdade de direitos e responsabilidades de homens e mulheres no circulo familiar e eterno.  

O chamado das mulheres ao discipulado é ainda mais milagroso se considerarmos as versões dos Evangelhos em relação à Ressurreição de Cristo. Todos os quatro evangelhos mostram Maria Madalena, Joanna, Maria de Nazaré, Maria mãe de Tiago e José, Salomé e outras mulheres que acompanharam Jesus até sua morte, e após em Sua ressurreição, e continuaram firmes prestando testemunho de Sua divindadade. 

Entendamos que a primeira pessoa que viu o Cristo ressurreto foi Maria Madalena, uma mulher, e isso é considerado por acadêmicos e estudiosos da Bíblia como evidência suficiente para a historicidade de Jesus Cristo e toda a doutrina e história do Cristianismo. Há inúmeros relatos, além das escrituras sagradas que confirmam os fatos. Se tudo isso tivesse sido fabricado e simplesmente inventado,  jamais teria incluído o testemunho de mulheres, numa sociedade que as rejeitavam como testemunhas legais.

Christina Ayres-Smith

Christina Ayres-Smith é casada e mãe de um missionário servindo na Argentina. Atualmente serve na presidência das Moças de sua Ala em Utah, e é a especialista de mídia da Estaca para o Trek que os jovens farão em 2016 em Martin's Cove, Wyoming. Graduada e pós-graduada em Jornalismo e Psicologia, é autora de vários livros publicados e fotógrafa. Para conhecer mais sobre seu trabalho, visite seu site: http://www.caayres.com/

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