Em seu artigo The Cloning of Mormon Architecture (1), Martha Sonntag Bradley diz que a história da arquitetura de A Igreja dos Santos dos Últimos Dias reflete industriosa, pomposa e diversificada tradição em estilo, tecnologia e objetivo. Ela observa, porém, que, buscando otimizar o uso do espaço em termos de eficiência, economia e funcionalidade, ocorre uma padronização mundial dos projetos arquitetônicos das meetinhouses, ou “casas de reunião”– capelas, como dizemos no Brasil.

Para Bradley, nessa uniformização do estilo jaz a mediocridade, porquanto essa repetição, ou clonagem, dos projetos arquitetônicos é o anátema para a expressão arquitetônica livre e contradiz a base de qualquer empreendimento criativo.

Não obstante tal ponderação quanto à falta de inovação estética, nossas casas de adoração são construídas com reconhecida excelência. O erguimento desses belos edifícios sempre atraiu a atenção da população local e da mídia, sobretudo na década de 1960, período da execução de um grande plano de construção de capelas, em que se utilizava a mão de obra dos próprios membros.

Quando a capela de Brasília ficou pronta, em 1965, o inspetor desta capital declarou à imprensa (2) que ela era a melhor construção da cidade e que, no caso dum terremoto, seria a última a desmoronar. Em Minas, o Diário Mercantil de 27-12-1964 anunciou que a então nova capela de Belo Horizonte oferecia aos membros e amigos da Igreja edifícios em estilo moderno e confortável, dos mais originais na arquitetura religiosa do Século XX.

Mas a honrosa surpresa que tenho para contar é que a primeira capela mórmon de Pernambuco está arrolada entre os Imóveis Especiais de Preservação (IEPs), que, protegidos por lei municipal, fazem parte da memória ativa do Recife. Uma exposição (3) reúne 55 ilustrações desses imóveis especiais. Vejamos a ilustração da capela da ruadas Ninfas constante da exposição:

Capela desenho

Confira-se a maquete da referida capela:

maquete capela

E o que sobre ela foi escrito na exposição: Exposição arquitetura

A capela da rua das Ninfas, cuja construção foi iniciada em novembro de 1965, tem o estilo mórmon próprio da época. Confira-se o seguinte projeto arquitetônico concebido em 1962, que, se não é igual ao da referida capela, é bastante semelhante:

Extraído de Places of Worship: 150 Years of Latter Day Saints Architecture, de Richard W. Jackson

 

A planta acima exposta (NE 62-715), a qual gerou a capela da Asa Sul, em Brasília, deve ter gerado várias outras na América do Sul, além de ter sido usada na Califórnia e em Idaho (4). Nela percebo dois elementos que mostram que os edifícios SUDs primam pela economia e pelo funcionalismo: seu pináculo (“torre”) é uma simples barra de aço inox em formato de agulha que não está lá apenas para enfeitar, e sim é o para-raios da casa. Outro exemplo, este da década de 50, é a criação do arquiteto Ted Pope que se tornou um padrão: a contiguidade da sala de recreação (salão cultural) com a nave da capela, fazendo que o espaço seja flexível, ora para um uso, ora para outro.

Sim, o estilo de nossas capelas é repetitivo, sem muita inovação. Tal característica, contudo, é vantajosa: além de economizar recursos, permite que elas sejam reconhecidas em qualquer lugar do mundo, funcionando como importante ferramenta de divulgação do Evangelho Restaurado.

Meu agradecimento a Renan Apolonio de Sá Silva, da Estaca Olinda, Ala Jardim Atlântico, que me forneceu as preciosas informações de Recife e as fotos da exposição.


 

1- www.dialoguejournal.com/wp-content/sbi/articles/Dialogue_V14N01_22.pdf

2- Diário de Sorocaba, 6-10-1965.

3- Fragmento do texto sobre a exposição: “Uma história contada pela arquitetura, unindo passado e presente numa linha do tempo contada através da exposição ‘Olhares da Boa Vista’. A ação é realizada em parceria entre a Prefeitura do Recife, por meio da Diretoria de Preservação do Patrimônio Cultural (DPPC), e o Shopping Boa Vista que reúne 55 Imóveis Especiais de Preservação (IEPs) localizados em áreas de preservação no bairro da Boa Vista. Protegidos pela Lei Municipal 16.284/1997, que estabelece normas específicas para esses tipos de edificações, os IEPs fazem parte da memória ativa do Recife e a sua preservação também protege a identidade cultural da cidade. A visitação é gratuita e a exposição ‘Olhares da Boa Vista’ fica em cartaz no Shopping Boa Vista de 3 a 30 de julho, diariamente: de segunda a sábado, das 9h às 21h; domingos, das 11h às 19h”.   http://www.caupe.org.br/?p=8499, disponível em 27-7-2015.

4 -Jackson, Richard W. – Places of Worship: 150 Years of Latter Day Saints Architecture, 2003, BYU, p. 280.

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Ludmilla Gagnor Galvão

Ludmilla Gagnor Galvão é taquígrafa e revisora de Português. Seu passatempo é pesquisar a história da Igreja em Brasília, tarefa que a leva a vasculhar também a história da Igreja no Brasi
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