É muito comum ouvirmos queixas de membros da igreja sobre comportamentos de pessoas  que causam  desconforto e ressentimentos dentre outros possíveis maus sentimentos. Algumas vezes ouvi frases como: “Isto não é atitude de membro da igreja!” Alguns justificam seu afastamento da igreja por atitudes de outros membros.

Vejo perfeição  na citação de Jesus ao ouvir que ele se assentava com publicanos e pecadores: “Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doentes.” Mateus 9:12

Durante minha formação e exercício profissional  acompanhei muitas enfermarias ou quartos coletivos. Nestes o estado de saúde dos doentes eram variados, e as vezes fatos perturbadores ocorriam, como um paciente gritando de dor não controlada na madrugada,  outro vomitando durante o horário de almoço, outro que não para de tossir e escarrar, outro com confusão mental e agitação vendo coisas que não existem, outro que não conseguiu conter um episódio de diarreia e sujou sua cama. O cenário não é nem um pouco agradável, creio que alguns dos leitores possam estar não se sentindo muito bem após estes comentários.A pergunta é: porque alguém se sujeita a permanecer em um ambiente desses? Minha resposta é: todos querem a cura.

A igreja não é diferente. Ao invés de enfermarias temos classes, quóruns, grupos e organizações. As doenças são muito variadas e podem causar incomodo ou transtornos aos outros. Alguns são doentes da língua solta, outros podem exalar um cheirinho do cigarro que fumam escondidos, outros possuem algumas imagens constrangedoras expostas em mídia sociais, alguns são vistos com sacolas de mercado no domingo, outros gostam de uma polêmica sobre as escrituras, alguns falam demais, outros não conseguem olhar as pessoas nos olhos ou exibir simpatia, alguns têm roupas que podem não parecer as mais adequadas… Sejam pecado, impossibilidades ou diferenças de personalidade, todos podem causar incômodo. Ouvi muitas vezes a frase: “meu santo não bate com o daquela pessoa” justificando antipatias gratuitas. Um exemplo simples como o de Atos 15:39, apresentando uma contenda entre Paulo e Barnabé demonstra claramente que na igreja de Cristo precisamos conviver com diferenças pois  isto também ocorreu na igreja primitiva.

Porque todos estes devem estar na igreja, mesmo os pecadores? Porque lá há a cura!
Bem, se desejamos a cura, precisamos aprender a tolerar, compreender é amar a todos estes. Amar não é necessariamente sinônimo de ter uma relação de íntima amizade, mas inclui certamente: servir, compreender, ajudar, não pensar mal, não se irritar facilmente, acreditar na mudança, deixar o nosso interesse pessoal de lado para buscar uma visão empática, é porque não dizer suportar.

Há um fato marcante em nossas vidas: Nossa capacidade de mudar os outros é limitada. Geralmente as mudanças ocorrem por causa da operação do Espírito Santo na mente e coração das pessoas. Apesar desta limitação podemos tornar nossa convivência na igreja muito melhor ao assumir algumas posturas. Estas posturas partem do pressuposto que embora eu seja incapaz de mudar outra pessoa, posso mudar minha atitudes ao ponto de melhorar as reações das pessoas com quem convivo.

1.    Autoavaliação
Muitas vezes o desafio reside em nós mesmos. Se em nosso coração há ódio, hostilidade ou inimizade, estamos sofrendo de orgulho. Esta tríade foi descrita pelo presidente Benson. Orgulho subentende que nos achamos superiores a outra pessoa, ou que julgamos erroneamente que uma determinada pessoa está se colocando como superior. Será que o problema está em minha visão?
Muitas  vezes conversei com  pessoas que se queixavam de todos ao seu redor, quando isto  ocorre, uma pergunta ajuda bastante: O que é mais comum, que dez pessoas estejam percebendo errado ou que você esteja causando nas dez o mesmo sentimento? A pergunta dos discípulos recentemente ressaltada pelo presidente Dieter F. Uchtdorf é fantástica: “Por ventura sou eu Senhor?”

2.    Empatia.
Porque determinada pessoa age de determinada forma? Qual sua história de vida? Quais são seus limites? Clarice Lispector escreveu:  “Antes de julgar a minha vida ou o meu caráter… calce os meus sapatos e percorra o caminho que eu percorri, viva as minhas tristezas, as minhas dúvidas e as minhas alegrias. Percorra os anos que eu percorri, tropece onde eu tropecei e levante-se assim como eu fiz. E então, só aí poderás julgar. Cada um tem a sua própria história. Não compare a sua vida com a dos outros. Você não sabe como foi o caminho que eles tiveram que trilhar na vida.”

3.    Ir a igreja para servir, não esperando ser servido.
Precisamos ir a igreja sem depositar expectativas sobre as pessoas, quanto maiores as expectativas, mais fácil é de se frustrar.  Em um discurso proferido na BYU Idaho chamado “Quick to Observe” Elder Bednar conta de uma característica de sua esposa, a de orar antes de ir as reuniões da igreja pedindo que o Senhor lhe mostrasse quem ela poderia ajudar. Ele cita que não era incomum que ao último “amém” ser proferido, ela fosse abraçar uma pessoa ou que chegasse em casa e fizesse ligações para pessoas ausentes.

4.    Procurar a maneira cristã de agir.
Para cada situação há uma saída, que certamente é encontrada nos atributos da caridade: “E a caridade é sofredora e é benigna e não é invejosa e não se ensoberbece; não busca seus interesses, não se irrita facilmente, não suspeita mal e não se regozija com a iniquidade, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. De modo que, meus amados irmãos, se não tendes caridade, nada sois, porque a caridade nunca falha.” Moroni 7:45-46
No sermão da montanha o Salvador expressou a  maneira prática de como agir de maneira caridosa, lá podemos encontrar diversas maneiras de viver, na prática, a caridade.
Muitas vezes me forcei a orar por pessoas que me fizeram algum mal, em algumas vezes as pessoas mudaram, em outras minha visão sobre as pessoas se tornou mais amável e condescendente.
Houve ocasiões que senti a inspiração de chamar como conselheiro ou para outros chamados pessoas “difíceis”, algumas que haviam cometido atos considerados ofensivos contra mim, e tive a surpresa de ver mudanças maravilhosas.
Certa ocasião ainda na juventude, recebi uma repreensão severa e desmedida de uma de manhãs irmãs. Antes de dormir senti-me inspirado a dizer que a amava. Eu hesitei, mas abri a porta de seu quarto e simplesmente disse se nome seguido de “eu te amo”. No dia seguinte ela veio com outra repreensão: “Porque você fez aquilo? Eu não consegui dormir!” Logo após veio um abraço, desculpas e um dia agradável.

Quero deixar claro que as experiências citadas são uma amostra de situações exitosas, mas que preciso contentemente lutar contra os sentimentos agressivos do homem natural. A maneira de agir é ditada ou confirmada pelo Espírito. Ressalto que buscar a orientação do Senhor, através de um esforço consciente, e segui-la, é o caminho para uma convivência melhor nesta grande enfermaria chamada A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Siga-me!

Luciano Sankari

Serviu na Missão Brasil Recife Sul de 1996 a 1998.Graduado em medicina em 2003 na Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná, com Especialização em Cardiologia HC-UFPR e em Gestão do Trabalho e Educação em Saúde ENSP/FIOCRUZ. Trabalha na área de psiquiatria há 12 anos. É Presidente da Estaca Curitiba Brasil Novo Mundo. Casado, tem 3 filhos.
Siga-me!

Últimos posts por Luciano Sankari (exibir todos)