Quem me conhece mais de perto sabe que gosto muito da política. É fácil notar que existem dúvidas e opiniões divergentes sobre o nosso papel, como membros da Igreja, no processo político. Essas divergências têm origem em duas crenças falsas que, por sua vez, são geradas pela ignorância seletiva (escolha pessoal pela ignorância sobre o assunto). Essas duas crenças falsas são, primeiro, de que a Igreja é apolítica e, segundo, de que o meio político é inerentemente sujo e que qualquer pessoa que se envolve com este meio, torna-se, também, sujo.

“Caso haja alguma coisa relativa ao governo das nações ou, em outras palavras, à política, que não conheçamos, desejamos aprendê-la.” (John Taylor, The Gospel Kingdom, p. 48–49)

Apolítico significa “contrário à política”. Isso a Igreja não é e nunca foi. Desde o seu início, a Igreja tem participado ativamente com ações políticas nos países nos quais está organizada. E faz isso de diversas formas, como, por exemplo, com a promoção de ajuda humanitária preventiva e/ou emergencial, com o Programa Mãos que Ajudam, ou com a defesa pontual dos valores cristãos, como ocorrido há algum tempo na Califórnia a respeito do casamento homossexual. Estas ações políticas não devem ser confundidas com ações partidárias ou eleitorais, porque a Igreja é, isso sim, apartidária e politicamente neutra. Ou seja, a Igreja não tem preferência partidária e é neutra, com respeito a eleições, políticos, programas e governos. Trata-se de uma posição estratégica da Igreja, que ajuda a mantê-la livre, independente e isenta. Infelizmente, muitos membros da Igreja estão equivocadamente neutralizando-se também, tornando-se apartidários e, pior, apolíticos.

Digo infelizmente, porque, na realidade, a Igreja tem incentivado seus membros a participarem ativamente dos processos políticos dos lugares onde vivem. E isto não é algo novo, nem desconhecido para os membros da Igreja. A decisão da fundação de Nauvoo, uma cidade para refúgio dos Santos, foi uma decisão política. A nomeação de Joseph Smith como Prefeito desta cidade foi uma decisão política. A candidatura de Joseph Smith à eleição como Presidente dos Estados Unidos da América foi uma decisão política. A escolha de Brigham Young como o primeiro governador do Estado de Utah foi uma decisão política.

Todas estas ações foram tão políticas quanto foi a do Capitão Morôni, ao escrever aquelas maravilhosas palavras em defesa da família, da religião, da propriedade e da vida em um pedaço de tecido e levantá-lo em um mastro, criando o Estandarte da Liberdade. Política é tudo o que envolve questões públicas. E não deve haver povo mais envolvido com as questões públicas da sua comunidade, da sua cidade ou do seu país, do que os Santos dos Últimos Dias. Na verdade, uma das definições para a palavra grega da qual se origina a nossa palavra “política”, “politiká”, é “assuntos públicos”.

Então, é preciso saber separar “ação política” (que envolve cidadania, serviço, participação comunitária, etc.) de “política” (no sentido eleitoral, partidário ou governamental). A Igreja pratica a primeira, e incentiva seus membros a envolverem-se, também, com a segunda.

“A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias segue a doutrina da separação entre a igreja e o estado. A Igreja não interfere nas funções do estado; o estado não interfere nas funções da Igreja ou no exercício da liberdade de religião. O indivíduo está completamente livre do domínio eclesiástico em relação aos assuntos políticos.” (Joseph F. Smith, Messages of the First Presidency, 4:153)

“Instamos vigorosamente os homens e as mulheres a estarem dispostos a prestar serviço trabalhando nas juntas de educação, nas comissões regionais e municipais, no legislativo estadual e em outros cargos importantes, sejam eles eletivos ou preenchidos por indicação.” (Carta da Primeira Presidência, 15 de janeiro de 1998)

Compreendo que, diante de tantos absurdos que temos visto em nosso país e em todo o mundo, com aqueles que são eleitos para governar agindo com total desrespeito às questões públicas, é natural haver um enfraquecimento da confiança nos processos políticos, em especial o processo político eleitoral. No entanto, não podemos, como membros da verdadeira Igreja de Jesus Cristo, cruzar os braços e “ver a banda passar”. A Igreja tem procurado nos ajudar a enxergarmos o que podemos fazer para contribuirmos positivamente.

No manual do professor do curso de Doutrina do Evangelho da Escola Dominal, que trata sobre o livro Doutrina e Convênios, há, logo no início de uma das lições, uma observação ao professor, alertando-o para o objetivo a ser alcançado naquela aula: “Incentivar os membros da Igreja a serem bons cidadãos, participando do governo, obedecendo às leis e fortalecendo a comunidade.”

Gostaria de tratar, uma a uma, dessas quatro áreas em que precisamos nos envolver. Acredito que, ao procurar agir nestes pontos, todos nos sentiremos bem a respeito deste assunto e compreenderemos que a Igreja não é contra a política e que a participação nos processos políticos eleitorais não torna, por si só, quem quer que seja, indigno.

1 – Ser um bom cidadão

Um cidadão não é apenas um morador de uma cidade. É mais que isso. Na sua principal definição, cidadão é um “indivíduo no gozo dos seus direitos civis e políticos”. Uma vez que gozar um direito é usufruir, desfrutar dele, podemos reescrever esta definição da seguinte forma: “cidadão é um indivíduo que desfruta dos seus direitos civis e políticos”. A pergunta que cabe aqui é: nós, Santos dos Últimos Dias, temos, verdadeiramente, desfrutado de nossos direitos civis e políticos? Ou temos nos escondido deles? Temos sido de fato – e não apenas de direito – cidadãos?

“Por favor, cumpri vossos deveres de cidadãos em vossas comunidades, estados e nações. Prestigiai e apoiai a lei. Trabalhai dentro dos limites da lei para serdes uma influência benéfica, conforme o Profeta Joseph Smith nos recomendou.” (Spencer W. Kimball, A Liahona, Agosto de 1976)

2 – Participar do governo

É verdade que nem todos têm o que se chama de vocação político-eleitoral. Tudo bem. Isto é aceitável, pois somos diferentes e temos diferentes gostos e tendências. Porém, participar do governo não se limita a questões eleitorais. Há muito a ser feito, em termos de participação no governo, sem se envolver em questões eleitorais ou partidárias. Não quero, com isso, dizer que o envolvimento político-partidário-eleitoral não seja bom. Já tratei disso acima. O que digo é que nem todos sentem-se atraídos por isso. Este sentimento, contudo, não deve ser motivador do não envolvimento nas questões governamentais.

Há alguns anos assisti a uma reportagem sobre um cidadão (indivíduo que desfruta dos seus direitos civis e políticos) que havia apresentado, sozinho, 18 projetos de leis municipais no Rio de Janeiro. Como ele fez? Simples: Procurou o vereador em quem votou e apresentou-lhe, uma a uma, as suas propostas. Aquele homen estava, verdadeiramente, no gozo de seus direitos políticos. Ele participou do governo. Envolvimento partidário? Nenhum. Cidadania? Plena.

Há exemplos também de mobilizações coletivas. Uma das mais recentes, com resultados práticos, foi a Lei da Ficha Limpa, que é uma proposta popular, ou seja, não partiu de nenhum partido, mas da ação da sociedade civil organizada.

É muito fácil assistir ao telejornal estirado no sofá, e depois reclamar do governo desgovernado, dos impostos abusivos, da justiça morosa e de tudo o que há de realmente ruim. Contudo, muito melhor é levantar-se do sofá e agir. Há diversas formas de ação. Há diversos meios para se contribuir. Há diversas maneiras de fazer algo, por menor que seja. Isto é participação. Isto é cidadania. Isto é o que se espera de um verdadeiro Santo dos Últimos Dias.

“Nós, membros da Igreja, vivemos em muitos e diferentes países. Como é importante que compreendamos nosso lugar e situação nas terras em que vivemos! Deveríamos conhecer a história, a herança e as leis da terra que nos governa. Nos países que nos concedam o direito de participar dos assuntos do governo, devemos utilizar o nosso livre-arbítrio e trabalhar ativamente para apoiar e defender os princípios da verdade, do direito e da liberdade.” (Élder L. Tom Perry, Conference Reportm, outubro de 1987, p. 87)

3 – Obedecer às leis

Não deveria ser necessário falar a respeito disto. Não para Santos dos Últimos Dias. Porém, cada vez mais, a obediência às leis torna-se um exercício de atenção constante, em um mundo de mudanças tão rápidas e com tantos novos meios criados para a burla destas leis. É muito fácil sermos levados a crer que uma nova atitude não atenta contra a lei. Esta realidade foi citada pelo Élder Bednar: “Atos desonestos supostamente acobertados pelo sigilo, como o download ilegal de músicas da Internet ou a reprodução de CDs ou DVDs para distribuição para amigos e familiares, não deixam de ser desonestos.” (As Coisas Como Realmente São, A Liahona, junho de 2010). Obedecer às leis é básico. Ninguém que, conscientemente, desobedece a uma lei, alcançará o ponto de ser um verdadeiro cidadão.

“Existem muitos que questionam (…) certas leis decretadas pelos respectivos governos…; Eles chegam a desafiá-las e desobedecem a elas. Abraão Lincoln observou: ‘Leis ruins, se é que existem, devem ser logo repelidas, porque, enquanto estiverem em vigor, devem ser religiosamente cumpridas.’ Esta é a posição da Igreja com relação ao cumprimento da lei… Não há motivo ou justificativa para que o homem desobedeça á lei ou a desrespeite.” (N. Eldon Tanner, A Liahona, fevereiro de 1976, p. 74)

4 – Fortalecer a Comunidade

Talvez a maior das contribuições que possamos dar para o fortalecimento de nossas comunidades seja reunir nossas famílias diariamente em oração. O poder da oração é muito maior do que podemos imaginar. Outras ações familiares também contribuem muito, como, por exemplo, mantermos um armazenamento doméstico de alimentos, água e roupas, além de evitar dívidas desnecessárias, e tantas outras ações já delineadas pelos profetas antigos e modernos. Como estas coisas ajudam a fortalecer a nossa comunidade? Bem, é preciso lembrar que uma comunidade é, basicamente, um agrupamento de famílias. Se as famílias estão bem, espiritual e economicamente, a comunidade estará bem. É possível que existam coisas a serem feitas no bairro em que moramos. Precisamos ser pró-ativos. Se a praça está suja e a prefeitura não limpa, não precisamos esperar recebermos uma designação da Igreja para limpá-la. Podemos nos unir a algumas famílias e fazermos isso. Podemos e devemos fazer mais.

“Na Igreja, muitas vezes citamos a frase ‘estar no mundo, mas não ser do mundo’. Talvez devêssemos citá-la como duas advertências distintas. Primeiro: ‘Estejam no mundo’. Envolvam-se; Informem-se; Tentem ser compreensivos, tolerantes e gostar da diversidade. Façam contribuições significativas à sociedade, prestando serviço e participando significativamente. Segundo: ‘Não sejam do mundo’. Não sigam os maus caminhos nem se dobre, para adaptarem-se ao que não seja certo ou para aceitarem essas coisas. Os membros da Igreja precisam influenciar mais e ser menos influenciados. Temos de empenhar-nos em reverter a maré do pecado e do mal, em vez de, passivamente, deixar-nos ser levados por ela. Todos precisam ajudar a resolver o problema em vez de esquivarem-se dele ou ignorarem-no.” (M. Russel Ballard, Conference Report, abril de 1989, pp. 100-101)

Ao nos esforçarmos para sermos bons cidadãos, participarmos do governo, obedecermos às leis e fortalecermos a comunidade, não apenas estaremos contribuindo positivamente por meio de ações políticas, como também estaremos nos desenvolvendo como filhos do Pai Celestial. Como poderemos ser “governantes de muitos reinos” (D&C 78:15), se não nos prepararmos nesta vida, nas “pequenas coisas”?

Descubram seus talentos. Exercitem-nos em favor da sua comunidade, da sua cidade, do seu estado, do seu país. Confiem nos irmãos que, por talento ou desejo, decidiram dar sua contribuição por meio da política eleitoral partidária. Não somos obrigados a votarmos neles, porém, depois de tudo o que pudermos observar em todos os candidatos para uma avaliação justa e equilibrada, é nosso dever incluir, na lista das qualificações, o fato de serem estes homens ou mulheres dignos portadores de uma recomendação para o Templo (este é um dos meus critérios pessoais).

“Somos um povo político? Sim, muito político. (…) Eu lhes direi em quem votaremos: votaremos no homem que apóie os princípios de liberdade civil e religiosa, no que tiver maior conhecimento e que tiver o melhor coração e cérebro para ser um estadista.” (Brigham Young, Discursos de Brigham Young, p. 358)

Como cantamos, “muita coisa no mundo há que fazer, muita coisa que melhorar”. Que o Senhor nos ajude a termos as forças e coragem necessárias para fazermos o que é nosso dever.

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Antonio Carlos Lima

Antonio Carlos Lima mora em Aracaju/SE. Serviu na Missão Brasil Brasília, de 1991 a 1993. Atualmente, serve como 2º Conselheiro no Bispado. Casado, é pai de 2 filhos.
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