A palavra “autossuficiência” é definida pelo mundo como a condição em que não se necessita de qualquer auxílio, apoio ou interação para se garantir a sobrevivência. Essa definição, embora não esteja incorreta, é certamente incompleta. Deixa de fora um aspecto fundamental desse princípio conforme ensinado por Deus e Seus profetas.

Vejamos a descrição de autossuficiência citada em uma aula dirigida ao Sacerdócio Aarônico sobre o tema: “Quando somos autossuficientes, usamos as bênçãos e habilidades que Deus nos concedeu para cuidar de nós mesmos e de nossa família e encontrar soluções para nossos próprios problemas. Ao nos tornarmos autossuficientes, também nos capacitamos a servir aos outros e cuidar deles. O Senhor deseja que nos tornemos autossuficientes tanto espiritual como materialmente.”

O sentido mundano de autossuficiência possui um viés um tanto egoísta e isolador que não existe no conceito definido pelo Senhor. Essa acepção mundana tende a criar um individualismo indulgente. Como bem comparou o Élder Neal A. Maxwell em um de seus discursos, as pessoas que associam autossuficiência e egoísmo são como o peixe dourado em um aquário, que se gaba de sua autossuficiênciasem pensar em quem provê os flocos de alimento ou a mudança da água.

É verdade que devemos ser autossuficientes o mais que pudermos. Entretanto, para alguns, a busca constante da autossuficiência significa uma licença para dedicarem-se exclusivamente – ou ao menos prioritariamente – à aquisição de bens materiais que, no seu modo de ver, lhes assegurariam essa tão desejada autossuficiência. Tal atitude é equivocada. A autossuficiência não é uma questão de dinheiro ou de outras posses materiais. Trata-se de um princípio fundamental do evangelho e, portanto, é um assunto espiritual (ver Doutrina e Convênios 29:34). Ela traz liberdade e, acima de tudo, nos capacita a ajudar outras pessoas. Na verdade, o propósito maior da autossuficiência é exatamente este: o serviço ao próximo.

Devemos buscar a autossuficiência para sermos independentes e livres para agir conforme nosso próprio arbítrio. Uma vez alcançada essa autossuficiência, o próximo passo é ajudar nosso semelhante a também atingir tal condição. Ser autossuficiente é uma meta louvável. Porém, o foco maior deve ser na aquisição da autossuficiência espiritual. Um testemunho forte do evangelho, a obediência aos mandamentos, o serviço abnegado, a comunhão constante com Deus, são coisas que nos ajudarão a manter a autossuficiência espiritual.

De que adianta ter abundância de bens materiais e de repente ouvir a sentença: “Louco! Esta noite te pedirão a tua alma” (ver Lucas 12:16-21)? Lembremo-nos de que há um ser do qual jamais devemos deixar de depender. Por mais bem sucedidos que sejamos em nossos empreendimentos nesta vida, por mais independentes que estejamos de outras pessoas ou instituições aqui na terra, nunca podemos esquecer de quem “provê os flocos de alimento” e a “mudança da água” neste “aquário” em que todos vivemos. Nossa vida não existiria sem Ele. Não teríamos um mundo no qual viver se não fosse pela misericórdia do Pai. Ele é a verdadeira fonte de toda a autossuficiência.

Mario Silva

Mario Silva serviu na Missão Brasil São Paulo Norte de 1978 a 1980 e como missionário de serviço do Departamento de Tradução em Salt Lake City de 2000 a 2003. Desde 1994, serve como tradutor e intérprete, emprestando a voz a diversas Autoridades Gerais. É Assessor de Área de História da Família e trabalha como Gerente de Relacionamento do FamilySearch para o Brasil. Possui Mestrado em Administração de Empresas pela Universidade Brigham Young. É casado e tem dois filhos e três netos.