Entre os assuntos recentes mais comentados e utilizados por críticos do Livro de Mórmon, estão as pesquisas com DNA e uma contínua tentativa de através disto, desaprová-lo como escritura inspirada. A informação é amplamente compartilhada na rede e tem gerado dúvidas entre membros e não membros da Igreja quanto a autenticidade do Livro de Mórmon quando submetida ao teste científico de DNA.

Com o objetivo de separar verdade e folclore, desejamos neste artigo submeter tais críticas ao teste racional, analisando fatos e colocando à prova as conclusões que se tem feito a respeito da autenticidade do Livro de Mórmon.

Testes de DNA Realizados com Índios Americanos

Testes recentes de DNA realizados com amostras de Índios nativos do continente Americano indicam que a informação genética de tais Índios não são compatíveis com o DNA dos povos Judeus da atualidade e sim com o de povos da Ásia. Tais estudos tem sido utilizados por alguns como uma maneira de determinar que dessa forma, os povos Americanos não são descendentes de Leí que era um Judeu e portanto isto provaria que O Livro de Mórmon não é Escritura inspirada como Santos dos Últimos Dias declaram.[1]

Embora tal argumento a primeira vista pareça ser consistente e aparentemente coloque em xeque a veracidade do Livro de Mórmon, uma análise além da superfície indica que há mais fatores que quando analisados, fornecem uma perspectiva racional completamente diferente das apresentadas em tais estudos.

Falsa Premissa = Falsa Conclusão

Um princípio básico conhecido a todos que desejam analisar um assunto e tirar conclusões a respeito, é a regra universal de que uma falsa premissa nunca ou raramente resultará em uma conclusão correta. A primeira premissa equivocada de tais estudos de DNA, é a utilização de um modelo geográfico não apoiado pelo Livro de Mórmon. Críticos utilizam a premissa equivocada de que ao chegar na América, Leí e seu grupo encontraram um continente absolutamente vazio e que dessa forma, toda a posterior população do continente era de alguma forma descendente exclusivamente de Leí e portanto todos compartilhariam informações genéticas provenientes de uma única fonte (Grupo de Leí). [2]

Modelo Geográfico Limitado

O problema instantâneo de tal premissa está no simples fato de que o Livro de Mórmon não apoia a crença de que Leí chegou a um continente vazio. [3] O Livro de Mórmon fornece uma descrição dos fatos relacionados diretamente aos protagonistas da História e não de todas as civilizações do continente. Historiadores membros e não membros da Igreja tem ao longo dos anos encontrado centenas de paralelos que indicam de maneira consistente que o grupo de Leí se uniu aos povos da Mesoamérica, e isto sugere que a história do Livro se passa em uma área geográfica limitada e significativamente menor do que muitos antes acreditavam.

Embora O Livro de Mórmon não contenha detalhes significativos das nações já existentes na América antes da chegada do grupo de Leí, uma passagem no livro aparentemente apoia a ideia de que o continente já era habitado. Em 2 Néfi 5:5-6 lemos:

“E aconteceu que o Senhor me advertiu para que eu, Néfi, me afastasse deles e fugisse para o deserto, com todos os que quisessem seguir-me. Portanto aconteceu que eu, Néfi, levei comigo minha família, assim como Zorã e sua família; e Sam, meu irmão mais velho, e sua família; e Jacó e José, meus irmãos mais jovens, e também minhas irmãs e todos os que me quiseram acompanhar. E todos os que me quiseram acompanhar foram os que acreditavam nas advertências e revelações de Deus; portanto deram ouvidos a minhas palavras.

Na ocasião em que os Nefitas e Lamanitas se separaram, Néfi foi seguido por sua própria família, Zorã e Sam e suas respectivas famílias, seus irmãos mais novos Jacó e José, suas irmãs e ainda “todos os que me quiseram acompanhar”. Quem seriam estes “outros” que “acreditavam nas advertências e revelações de Deus”? A resposta mais provável é que esses versículos se refiram a nativos do continente ao invés de membros do grupo de Leí. Significativamente, neste ponto do livro, Néfi pela primeira vez introduz o termo “povo de Néfi” em referência a seus seguidores (2 Néfi 5:9), expressão que sugere uma sociedade maior do que seus familiares imediatos.

Por que tal contexto é importante na compreensão de testes de DNA em Índios Americanos? Simples, se Leí chegou a um continente já habitado por civilizações diferentes, naturalmente é errado supor que todo Índio Nativo Americano existente atualmente no continente provém de sua linhagem.

Como determinar se a amostra de DNA foi coletada de um descendente de Leí ou de qualquer outra civilização antiga existente na América? Não há uma forma de determinar. Portanto, não se pode tirar conclusões precisas com uma premissa desconhecida.

Diluição Genética

Imagine que com um conta gotas, você decida colocar um pingo de tinta vermelha em uma piscina. Obviamente não esperará com isso que toda a piscina se torne vermelha, devido a quantidade extremamente superior de água em relação a tinta. Nesse caso, a diluição seria imediata e qualquer vestígio da tinta inserida logo desapareceria.

Embora simples, tal analogia funciona de maneira eficaz para ilustrar a conclusão praticamente unânime entre geneticistas de que sendo o grupo inicial de Leí muito pequeno, ao se unir a civilizações extremamente mais numerosas, elimina-se quase por completo a possibilidade de identificar o DNA do grupo menor com o passar do tempo, neste caso aproximadamente 2600 anos. Dessa forma, não é de surpreender que mesmo que encontrássemos autênticos descendentes de Leí, a possibilidade de que tais indivíduos possuam DNA compatível ao grupo nefita é absolutamente improvável. [4]

Possuía Leí o DNA Comum ao Povo Judeu?

Uma outra ideia equivocada está na premissa de que o DNA da família de Leí era Judeu, no sentido literal da palavra. Leí e sua família pertenciam a tribo de Manassés (Alma 10:3; 1 Néfi 5:14) e seus filhos casaram com a família de Ismael, da tribo de Efraim.

Tais tribos foram levadas cativas pela Assíria e não contribuíram significativamente geneticamente com as populações Judaicas do Oriente Médio. O Oriente médio por sua vez está localizado nas divisas de três diferentes continentes (África, Ásia e Europa), o que significa que imigração, misturas e casamento interracial era algo comum. Nem mesmo os grupos Judaicos atuais possuem informações genéticas identicas ou até mesmo parecidas aos antigos. [5]

Portanto, utilizar o DNA de Judeus atuais como parâmetro de comparação com o possível DNA das tribos de Manassés e Efraim de 2600 anos atrás não é uma lógica racional ou científica. Não há meios de determinar qual era o DNA de Leí, e não possuindo esta informação como parâmetro, com o que compararíamos o DNA dos Índios atuais?

Conclusão

O mais interessante é o fato de que a conclusão é que não há uma definitiva conclusão. Como demonstrado, a utilização de pesquisas de DNA como forma de provar ou desprovar O Livro de Mórmon tem se mostrado ineficiente e possui barreiras que dificilmente serão superadas. Estudos que aparentemente “provam” falso O Livro de Mórmon se apoiam em falsas premissas ou falsas conclusões e não raramente, ambos.

A verdade não pode ser abalada por filosofias e lógica humana. Existem assuntos complexos o qual possuímos pouco ou nenhum conhecimento. Entretanto, DNA certamente não é um deles. O Apóstolo Paulo declarou: “Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos; Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.” (1 Coríntios 13:9-10)

Santos dos Últimos Dias não clamam ter a respostas para todas as perguntas, apenas o Senhor as possui. Embora o conhecimento secular nos ajude a esclarecer a verdade de algumas coisas, somente o Espírito Santo esclarece a verdade de todas as coisas. Possuímos no momento algumas peças do quebra-cabeça.

Tais peças indicam que existe uma figura maior a ser compreendida, e que provavelmente, necessitará ainda muitas outras peças, fé e orientação do Santo Espírito, até alcançarmos a visão que desejamos. Até lá, tenhamos confiança no que já foi revelado e lembremo-nos que muitas outras “coisas grandiosas e importantes” ainda serão reveladas.[6]

Fontes:

[1] Richard Abanes, Becoming Gods: A Closer Look at 21st-Century Mormonism (Harvest House Publishers: 2005). 73 367 n.131-135.
[2] John Dehlin, “Why People Leave the LDS Church,” (2008).; Hank Hanegraaff; The Mormon Mirage: Seeing Through the Illusion of Mainstream Mormonism (Charlotte, NC: Christian Research Institute, 2008)
[3] Michael F. Whiting, “DNA and the Book of Mormon: A Phylogenetic Perspective,” Journal of Book of Mormon Studies 12/1 (2003)
[4] “Autosomal DNA Statistics”, http://www.isogg.org/wiki/Autosomal_DNA_statistics (accessed 20 August 2014).
[5] Erastus Snow, “Ephraim And Manassah, etc.,” (6 May 1882) Journal of Discourses 23:184.
[6] Regras de Fé 1:9

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Luiz Botelho

Luiz Botelho serviu na Missão Santa Maria e atualmente mora em Provo-Ut, com sua esposa Kelsie e filha Elisa. É certificado em Design Gráfico e Desenvolvimento Web, mas descobriu na Ciência, História, Filosofia e Teologia sua verdadeira paixão.Atualmente trabalha voluntariamente como Diretor Internacional da FairMormon, escreve regularmente para a More Good Foundation e é autor do Interpretenefita.com.
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