A figura do apóstolo Pedro tem suscitado controvérsias, mesmo entre os que reconhecem nele um seguidor fiel de Jesus Cristo. Embora nenhum cristão duvide que Pedro foi uma peça fundamental para a sobrevivência e crescimento da Igreja após a morte e ressurreição do Salvador, muitos o criticam por suas atitudes frequentemente impulsivas e, principalmente, por ter ele negado conhecer Cristo três vezes quando este era vítima de injúrias e imerecido castigo na casa do sumo sacerdote.

De Pedro muitas coisas podem ser ditas, com base nos relatos das escrituras. Todavia, ninguém pode dizer ter sido ele um covarde ou medroso.

A imagem que a maioria tem de Pedro é a de um pescador humilde. Na verdade, ele não era um simples pescador. Ele era dono de um barco pesqueiro e tinha vários homens a seu serviço. Era, portanto, um industrial da pesca. Como tal, estava acostumado a mandar e ser obedecido. Essa circunstância já demonstra o fervor da crença de Pedro. Abandonar essa posição de proeminência para aceitar o convite de seguir o Salvador, com o risco de perder tudo, não foi coisa fácil de se fazer.

Em várias passagens podemos confirmar a firmeza e coragem de Pedro na defesa daquele a quem servia. Porém, mesmo em circunstâncias que deixam bastante claro o quanto ele era valente, Pedro é criticado por quem atenta apenas para suas fraquezas típicas do homem mortal.

Um exemplo é o episódio em que Pedro andou sobre as águas. Geralmente, quem critica o apóstolo não teria coragem nem mesmo para sair do barco e ir ao encontro do Salvador. No entanto, Pedro o fez – e foi o único a fazê-lo dentre todos os que estavam na embarcação. Mais do que sair do barco, teve fé suficiente para caminhar alguns passos – não sabemos exatamente quantos, mas certamente foram em número suficiente para afastá-lo da segurança – antes que a força da natureza desviasse sua atenção do milagre que acontecia para o perigo que ele corria (Mateus 14:22-31).

Quando da prisão de Jesus, Pedro não hesitou em desembainhar a espada e ferir o servo do sumo sacerdote, na tentativa de defender o Salvador, mesmo havendo guardas armados na comitiva que viera prender o Mestre.

Quando Jesus foi finalmente levado ao pátio do sumo sacerdote, somente Pedro teve coragem de seguir o Salvador até lá, onde sabia que correria perigo caso alguém o reconhecesse. E, dada a proeminência de Pedro como seguidor de Cristo, o que é confirmado por inúmeras passagens, ele certamente acabaria sendo reconhecido, como efetivamente o foi. Mas isso não o impediu de ficar perto de seu Senhor, mesmo naquele momento de extremo perigo. Conhecendo a índole de Pedro, é de se estranhar sua atitude de negar por três vezes conhecer o Nazareno. Por isso, não podemos descartar a hipótese de que Pedro tenha sido constrangido pelo Espírito a negar sua conexão com o Salvador. Se não o fizesse, acabaria sendo preso juntamente com Jesus e certamente seria também sacrificado ao lado dele. E isso não deveria acontecer. O sacrifício expiatório era algo que Cristo tinha que fazer sozinho.

Pedro era arrojado não apenas em atos, mas também em palavras. Quase sempre se adiantava aos outros discípulos e expressava clara e destemidamente sua opinião, mesmo correndo o risco de ser repreendido ou desautorizado pelo Mestre, o que efetivamente ocorreu algumas vezes. Por exemplo, na passagem de Mateus 16:13-23, Jesus perguntou o que as outras pessoas diziam dele. Conforme a escritura, vários apóstolos responderam, reproduzindo o que ouviram os outros dizerem. Todavia, quando Jesus perguntou o que eles próprios achavam dele, foi Pedro o único que, com coragem e fé, declarou o que o Espírito lhe havia incutido no coração, ou seja, a certeza do caráter divino e da identidade sagrada do Salvador.

Após a última ceia, quando Cristo comunicou a iminência de sua morte, foi Pedro quem primeiro afirmou fidelidade, dizendo que jamais o abandonaria. E somente depois dessa declaração de Pedro foi que “todos os discípulos disseram o mesmo” (Mateus 26:35)

Ao analisarmos os relatos da vida de Pedro, é bom resistirmos à tentação de focalizar as falhas e limitações de sua natureza mortal. Em vez disso, devemos apreciar as muitas demonstrações de fé e coragem que levaram aquele grande homem a ser escolhido pelo Senhor para liderar a Igreja e comandar os esforços que permitiram que a doutrina de Cristo se espalhasse pelo mundo então conhecido. Pedro, o apóstolo, foi e sempre será um grande exemplo de servo fiel e dedicado. Tivéssemos nós ao menos uma parcela de sua grande fé e dedicação, certamente asseguraríamos um lugar nas mansões do Pai na eternidade.

Mario Silva

Mario Silva serviu na Missão Brasil São Paulo Norte de 1978 a 1980 e como missionário de serviço do Departamento de Tradução em Salt Lake City de 2000 a 2003. Desde 1994, serve como tradutor e intérprete, emprestando a voz a diversas Autoridades Gerais. É Assessor de Área de História da Família e trabalha como Gerente de Relacionamento do FamilySearch para o Brasil. Possui Mestrado em Administração de Empresas pela Universidade Brigham Young. É casado e tem dois filhos e três netos.