“Professor Martins, como presidentes de quóruns de Élderes, ou membros de bispados, presidências de estacas, etc., somos chamados para advertir, ensinar e exortar os outros membros. Sabemos o modo do Salvador de liderar, sempre com amor e pensando na salvação da alma do individuo. Mas, hoje em dia vemos muitas pessoas ficarem ‘ofendidas’ com os conselhos dos líderes, muitas vezes deixando até mesmo de servirem juntos, de participarem das atividades e muitas vezes se afastando da Igreja. Como o Senhor agiu quando se deparou com situações como essas? Como de fato podemos ajudar as pessoas sem que elas se sintam julgadas ou ofendidas?”

RESPOSTA:

Não sou psicólogo, mas me parece que um traço universal no caráter do ser humano é o desgosto pela repreensão. Para sentir prazer em ser repreendido, uma pessoa teria que ser um pouco masoquista ou então ter sua auto-estima no “bico do urubu”.

Como eu agi em situações como essas? Hmm … quatro cenários me vêm à mente:

– Quando eu tinha 17 anos um de meus líderes me disse que, pelo fato de eu ser negro e não poder entrar no templo (isso foi em 1976), eu não iria para o reino celestial, e se eu continuasse meu namoro com Mirian Barbosa e me casasse com ela, ela também perderia sua exaltação.

– No início de 1978, na sua última entrevista como missionária de tempo integral, o presidente da missão disse à minha noiva que ele temia que se ela casasse comigo ela acabaria afastada da Igreja.
(Ok, eu confesso … desconsideramos aquelas admoestações e nos casamos em 1980 no Templo de São Paulo. Depois de 34 anos, 4 filhos, e 6 netos, perguntem diretamente à minha esposa se ainda está valendo a pena estar casada comigo. Poupem-me da resposta; poderia ferir o meu ego.)

– Em meados dos anos 80 uma fofoca foi feita a meu respeito numa estaca aonde eu residia, e ao invés de primeiro averiguar sua veracidade, meu líder determinou que eu fosse desobrigado de meu chamado e proibido de usar o sacerdócio “até segunda ordem”, em outras palavras, ele me impôs um período probatório. Três meses depois, ele descobriu que tudo não passava de um mal-entendido e me “reabilitou”.

– Certa ocasião um líder me “espinafrou” publicamente uns cinco minutos antes de uma conferência de estaca aonde eu também iria discursar. Ele não me disse do quê eu havia sido acusado, nem quando, nem onde. Até hoje eu não sei. A severidade do que eu ouvi foi tão grande que eu só posso imaginar que tenha sido uma grave calúnia contra a minha pessoa. Tive um episódio de depressão profunda e passei uns três meses “no inferno”.

O que eu aprendi com essas experiências?

1) O bordão da personagem Ofélia no antigo programa de rádio e TV “Balança Mas Não Cai”, era “Eu só abro a boca quando tenho certeza.” Similarmente, ao advertir alguém como líder, eu preciso ter certeza que o que vou dizer está em harmonia com a verdadeira doutrina e com as normas oficiais da Igreja. Se o Manual de Instruções não diz certa coisa, e aquilo que eu vou ensinar é uma prática comum, seria bom averiguar com meu líder imediato, para evitar que eu passe adiante mais uma daquelas “tradições dos anciões”.

2) Verificar cuidadosamente as informações recebidas e a idoneidade (competência e credibilidade) das suas fontes. Não é coincidência o fato de que a palavra “verificar” tem a mesma raiz de “veracidade”. Toda história tem duas ou mais versões, e no reino de Deus os líderes são instruídos a “… julgar [o] povo pelo testemunho dos justos e com a assistência de … conselheiros, de acordo com as leis do reino, que são dadas pelos profetas de Deus.” e “[o] acusado, em todos os casos, tem direito ao apoio da metade do conselho, para evitarem-se insultos ou injustiças.” (Doutrina e Convênios 58:18; 102:15)

3) O Senhor declarou: “Amaldiçoados são todos os que levantarem o calcanhar contra meus ungidos e proclamarem terem eles pecado …” mas não podemos esquecer o esclarecimento que Ele deu a seguir: “… quando não pecaram perante mim, diz o Senhor, mas fizeram o que era agradável a meus olhos e que eu lhes ordenara.” (Doutrina e Convênios 121:16) Ao exercer uma função de liderança, especialmente quando necessário advertir e repreender, eu preciso ter certeza de que estou fazendo o que é “agradável” aos olhos de Deus. Não se deve falar mal de um(a) líder, mas como líder eu não devo dar motivos para que uma acusação justa seja levantada contra mim.

Como eu superei essas coisas?

Eu lembro da fé que eu tenho, lembro dos muitos testemunhos que tenho recebido ao longo de décadas sobre a veracidade da Igreja e das doutrinas do reino, lembro dos convênios que fiz com o Senhor no batismo e no templo, lembro das belas promessas feitas em minhas bênçãos patriarcais. Eu forço esses pensamentos a dominarem a minha mente, especialmente naqueles momentos em que eu me sinta tentado pela indignação do “homem natural”. Este é o padrão que o Apóstolo João registrou para nossa instrução nesta passagem:

“Estas coisas falou Jesus quando ensinava na sinagoga em Cafarnaum. Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é este discurso … Por causa disso muitos dos seus discípulos voltaram para trás e não andaram mais com ele. Perguntou então Jesus aos doze: Quereis vós também retirar-vos? Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna.” (João 6:59-60, 66-68)

O Salvador também declarou: “E bem-aventurado é aquele que não se escandalizar de mim.” (Mateus 11:6)
Eu amo o Senhor, amo sua Igreja, amo as doutrinas e ordenanças do evangelho restaurado, e honro o sacerdócio de Deus. Se alguma coisa acontece que melindre (ofenda ou magoe) o meu “homem natural”, eu forço esse amor a prevalecer sobre minhas emoções.

Por exemplo, certa ocasião eu estava numa reunião sacramental fora da área de minha missão, e o presidente daquela outra missão havia feito algo que estava ligeiramente em desacordo com o protocolo (ou “etiqueta”) da Igreja. Após a reunião, o queridíssimo Élder Cláudio Costa veio em minha direção e me “instruiu” a respeito de uma coisa que eu já conhecia. Enquanto ele falava, em minha mente só me vinha o pensamento “masnãofuieu … masnãofuieu …”, mas como meu respeito, admiração, e amor por aquele homem de Deus são grandes demais, fiquei de “bico fechado” e “tomei a lavada” vicariamente. Tudo bem … eu sobrevivi, e continuei a ser abençoado pela minha associação com ele.

Um outro aspecto deste assunto diz respeito à nossa disposição em receber conselhos–especialmente quando estes nos indicam uma nova direção a seguir. Em janeiro de 1844 o Profeta Joseph Smith desabafou com as seguintes palavras:
“Tentei por vários anos preparar a mente dos santos para receber as coisas de Deus; mas freqüentemente vemos alguns deles, depois de todo o sofrimento que tiveram pela obra de Deus, esfacelar como vidro assim que surge algo contrário a suas tradições: eles não conseguem suportar o fogo de modo algum. Não sei dizer quantos serão capazes de suportar uma lei celestial, persistir e receber sua exaltação, porque muitos são chamados, mas poucos são escolhidos…” (Ensinamentos dos Presidentes da Igreja – Joseph Smith, p.545)

Não sei se isso responde sua pergunta, mas como depois de três horas (parei algumas vezes para ajudar minha esposa) eu já nem lembro qual era a sua pergunta (sem reler), vou parar por aqui. Até a próxima.

(Este comentário não constitui uma declaração oficial de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias)

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Marcus H. Martins

Marcus H. Martins possui Doutorado (Ph.D.) em Sociologia da Religião e Relações Raciais e Étnicas. Serviu como Bispo e Presidente de Missão.
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