O Primeiro Conflito: Jerusalém x Atenas

Voltemos um pouco na história… Jerusalém era a cidade dos profetas e da revelação. Para lá judeus de todo o mundo sempre voltavam a fim de visitarem o templo e lá oferecerem sacrifícios pelo perdão de seus pecados e elevarem suas súplicas a Deus com a firme fé de que seriam ouvidos de acordo com a promessa feita ao rei Salomão (II Crônicas 7:11-16).

Já Atenas era a principal cidade grega de onde saíram os pais da ciência e da filosofia, na verdade todas as grandes perguntas filosóficas foram formuladas pelos gregos e a humanidade nos séculos seguintes ainda se debruçaria sobre elas para respondê-las. Lá havia várias escolas de pensadores, cada uma querendo superar a outra pela razão ou pela retórica. O primeiro confronto entre as duas cidades vemos na visita do apóstolo Paulo ao Areópago, onde Lucas descreve… :

“E, enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se comovia em si mesmo, vendo a cidade tão entregue à idolatria. … . E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele; e uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece que é pregador de deuses estranhos; porque lhes anunciava a Jesus e a ressurreição. E tomando-o, o levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas? Pois coisas estranhas nos trazes aos ouvidos; queremos pois saber o que vem a ser isto (Pois todos os atenienses e estrangeiros residentes, de nenhuma outra coisa se ocupavam, senão de dizer e ouvir alguma novidade)… E, como ouviram falar da ressurreição dos mortos, uns escarneciam, e outros diziam: Acerca disso te ouviremos outra vez. E assim Paulo saiu do meio deles.” Atos 17:16-21; 32-33.

Outro confronto interessante entre o cristianismo nascente e os filósofos é registrado na história da conversão de Clemente, o terceiro bispo de Roma (após São Lino e Anacleto). Desta vez o embate se passa na capital do Império onde temos Clemente, já então um homem de meia idade que fora bem educado nas melhores escolas filosóficas do seu tempo todavia não encontrara sentido de vida em nenhuma delas, até que um dia ouviu o ex-companheiro do apóstolo Paulo, Barnabé, pregando numa praça pública em Roma. Não gostaria de contar toda a história aqui, ela pode ser lida em meu site no link abaixo e é uma excelente ilustração do embate ente Filosofia e Religião na época do início do Cristianismo.

A conversão de Clemente:

http://www.amai.jc.nom.br/Historias_Edificantes.html#Clemente

Apesar deste choque inicial entre a revelação cristã e a filosofia greco-romana, vemos logo após a destruição do templo de Jerusalém e da morte dos apóstolos as ideias gregas penetrando a religião Cristã. Lemos em Tertuliano, um dos primeiros apologistas cristãos do segundo século, um protesto com a indagação: “O que Jerusalém tem a ver com Atenas?”. [1]
Tertuliano não gostava desta aproximação do Cristianismo com o Platonismo e concluiu em seu tratado que a cidade dos profetas e da revelação nada tem em comum com a cidade dos filósofos e da dialética. Todavia sua percepção foi derrotada. Os filósofos e pensadores cristãos logo aprenderam a pensar como os gregos. Sem profetas ou revelação a fim de resolver várias indagações, eles foram cedendo gradativamente aos argumentos gregos. Logo após a morte dos apóstolos, vemos bispos e líderes locais de todo o Império dirigindo suas questões não para uma liderança central em Roma ou em qualquer outra grande cidade do Império, mas para grandes intelectuais cristãos, ora para Orígenes em Alexandria, ora para Santo Agostinho em Roma. Estes intelectuais fizeram o máximo possível para que os intelectuais pagãos pudessem digerir a nova religião Cristã, colocaram de lado o literalismo das escrituras, jogaram para o campo da metáfora o antropomorfismo de Deus tão presente na Bíblia e passaram a usar os escritos de Platão, Plotino, Aristóteles e outros filósofos gregos a fim de explicarem o cristianismo.[2]

Este casamento entre filosofia e cristianismo é visto no mormonismo como o início da Grande Apostasia, da fuga do cristianismo original e da substituição da revelação pela filosofia. Não é à toa que até hoje a filosofia é vista negativamente no meio SUD, onde uma das definições de Apostasia é exatamente: “Filosofias dos homens mescladas com escrituras”.

Após a conversão de Constantino e após o Cristianismo se tornar a principal religião do Império, a transição já estava definida. Uma vez que os filósofos substituíram os profetas e a revelação parecia agora inacessível, nada mais natural do que então descobrir Deus através do raciocínio lógico-indutivo. Este tipo de arrazoamento já vinha dos gregos, porém ficou mais popular através das 5 vias de Tomás de Aquino, um dos grandes filósofos medievais do Cristianismo:

As 5 vias de Aquino (As provas cosmológicas)
1. O primeiro Motor;
2. A primeira Causa necessária;
3. O primeiro Ser necessário;
4. O mais perfeito Ser;
5. A Ordem de todas as Coisas
– A Teleologia (*) sub-racional exige alguém dotado de inteligência que a produza.
– O que é desprovido de inteligência só tende ao fim porque é dirigido por um ser cognoscitivo ou inteligente, como a flecha pelo arqueiro.
– Portanto existe um ser inteligente que ordena todas as coisas naturais para um fim; esse ser nós o chamamos Deus. [3]

(*) Atenção: Não confundir a palavra Teleologia (“Teleo” = à distância + “logia” = conhecimento) com Teologia (“Teo” = Deus + “logia” = conhecimento). Teleologia refere-se ao conhecimento de antemão, conhecimento já pré-direcionado a fim de atingir um objetivo, enquanto Teologia é a disciplina que estuda Deus.

Tomás de Aquino prefere o termo “via” ao invés dos termos “prova”, “argumento” ou “demonstração”, com isto o filósofo tomista quer indicar uma trajetória a ser percorrida, designando uma estrutura dinâmica que a mente deve percorrer até encontrar Deus. Apesar destas “vias” ficarem famosas com Aquino, por lhe dar um estrutura rigorosa e lógica, as bases iniciais das mesmas foram erguidas por filósofos anteriores, as duas primeiras foram estabelecidas por Aristóteles, a terceira por Avicena e as duas últimas por Platão.

A estrutura das vias pressupõe a impossibilidade de uma regressão infinita dos fenômenos hoje observados, sempre apontando para um início que chamaríamos de “Deus”. Estas vias foram bastante debatidas ao longo da história, ora sendo mergulhadas no limbo por alguns filósofos, ora trazidas à tona com novas roupagens por outros.

A estrutura lógica destas vias, principalmente das quatro primeiras, são de uma complexidade tamanha que mais tarde o matemático e filósofo cristão Blaise Pascal afirmaria: “As provas metafísicas de Deus estão tão distantes do modo comum de pensar dos homens e são tão complicadas que perdem a eficácia; e mesmo que alguns as considerem adequadas, só lhes servem enquanto têm diante dos olhos a demonstração; uma hora depois; já temem terem sido enganados” [4].

As quatro primeiras vias são estranhas ao Mormonismo, apenas na 5ª pode-se dizer que encontramos algum paralelo com as escrituras SUD, em especial no argumento que o profeta Alma usa no Livro de Mórmon contra o anticristo Corihor (Alma 30: 44).

Historicamente esta 5ª via sempre foi a mais percorrida pelos filósofos, mesmo Kant um crítico ferrenho das vias, a respeito desta última escreveu: “Ela merece ser sempre mencionada com respeito. Ela é a mais antiga, a mais clara, a mais adaptada à razão humana comum. Ela reaviva o estudo da natureza, e deste recebe, por sua vez, a própria existência e uma força sempre nova”. [5]

Como diz Kant, essa é a via das pessoas comuns. Estatísticas recentes confirmaram que mais de 80% dos americanos fundam a própria “fé” em Deus na ordem do cosmos. Por outro lado, cientistas modernos como sempre não jogarão à toalha tão fácil, mesmo reconhecendo vários aspectos de ordem em nosso micro e macrocosmo, geralmente vão atribuir tal ordem ao acaso. Sobre esta posição o teólogo católico Battista Mondin diria:

“No entanto, incorre em grave erro o cientista que, saindo do seu terreno e investindo-se de filósofo, pretende julgar as razões últimas da teleologia e propõe como explicação da ordem admirável que reina no cosmo o acaso (como fazem Crick, Monod e tantos outros), e não uma inteligência suprema. A tese do acaso como resposta à racionalidade inscrita na ordem da natureza é absurda, e quando é proposta por um cientista torna-se também claramente contraditória, pois exibir o acaso como explicação para um fenômeno tão manifestamente racional como o do finalismo inscrito no mundo da natureza vai contra todos os pressupostos e todos os cânones da pesquisa científica, que tem como pressuposto a racionalidade do universo e como imperativo categórico não parar enquanto não conseguir decifrá-la integralmente”. [6]

Além das “5 vias” de Aquino, outras provas aventadas pelos filósofos foram cunhadas ao longo da história. Vejamos algumas delas:

a. O senso comum;
b. O Princípio Antrópico & Designer Inteligente;
c. A prova ontológica;
d. A presença da ideia “Deus” no homem (argumento da consciência);
e. O Argumento Moral;
f. A experiência pessoal com Deus.

As provas “a”, “c” & “d” acima são variantes de um mesmo conceito. Se o homem é capaz de conceber a ideia Deus, em várias épocas e diferentes culturas, então esta ideia deve ter uma realidade extrínseca ao próprio homem, tal qual o mundo das ideias de Platão. Um argumento muito questionável e que provavelmente não o verão ser repetido dentro do Mormonismo.

A prova “b” não deixa de ser uma variante da 5ª via de Aquino (e voltaremos a ela mais adiante…). A prova “e” remete à conclusão secreta de Sócrates (“Se Deus não existe, então tudo é permitido!”), porém foi melhor trabalhada e teve seus maiores expoentes em Immanuel Kant no século XVIII e C.S. Lewis no século XX.

A “prova 6” foi bem desenvolvida por Blaise Pascal. Ele mesmo um agnóstico por um bom pedaço de sua vida adulta; porém, após ter passado por uma experiência mística e ter presenciado um milagre de cura em sua sobrinha, tornou-se um grande defensor da posição teística. De certa forma esta prova seria aquela mais evidente dentro do Mormonismo, onde cada qual deve buscar seu próprio testemunho através de experiências espirituais e da revelação pessoal.

Se você nos seguiu até agora, percebeu que ao longo da história sempre houve esta dicotomia entre filosofia e religião; ou melhor, razão e espírito, raciocínio e revelação. A aproximação por uma via racional sempre foi estranha no Mormonismo, onde a restauração do evangelho procurou trazer a religião Cristã de novo para o seu centro, a revelação pessoal de Deus ao homem. A procura filosófica de Deus foi um desvio de rumo que precisou ser corrigido. Sobre este ponto um apóstolo SUD diria:

“As coisa espirituais, como a conversão e o testemunho, advêm-nos em grande parte por meio de sentimentos iluminados pelo Espírito. Quem busca uma convicção intelectual ou com ela se contenta vive sobre um alicerce espiritual edificado na areia. Para essas pessoas e seus filhos – caso seja essa toda a herança que lhes deixarem – esse alicerce estará eternamente vulnerável. As coisas de Deus, incluindo a conversão espiritual e o testemunho, precisam ser transmitidas à maneira do Senhor, “pelo Espírito”…Os métodos intelectuais – o estudo e a razão – são essenciais para nosso progresso rumo à vida eterna, mas não são suficientes. Eles podem preparar o caminho. Podem preparar a mente para receber o Espírito. Mas o que as escrituras chamam de conversão – a transformação da mente e do coração que nos proporciona orientação e força para dirigir-nos resolutamente a vida eterna – só ocorre por meio do testemunho e poder do Espírito Santo.(Élder Dallin H. Oaks – A Liahona de Agosto 2001, pág. 19).

Neste ponto devo fazer justiça ao afirmar que a atual posição Católica reconhece o valor da experiência religiosa e que a busca intelectual de Deus deve ser supletiva à busca espiritual, não substitutiva como aconteceu no início da Idade Média. O supra-citado Mondin afirma que as provas da existência de Deus são mais contraprovas do que demonstrações, “…não são abstrações de Deus, mas testemunhos recolhidos de Deus na natureza e na história a título de confirmação da voz daquele que já falou ao homem, no profundo da consciência”[7]
Concordo parcialmente com Mondin quando novamente afirma que as “provas de Deus” não devam ser ignoradas, “… elas tem o seu valor apologético, são um escudo racional contra os ataques do ateísmo. Elas fazem ver que enquanto o ateísmo não dispõe de nenhuma prova, mas somente de pretextos, a religião está armada de sólidos argumentos para sustentar a própria verdade … a respeito da não existência de Deus o ateu pode cultivar dúvidas, mas não tem provas. A respeito da existência de Deus o crente tem provas, ainda que de vez em quando possa ser perturbado pela dúvida”.[8]

Minha concordância parcial com Mondin é porque nunca podemos esquecer que a melhor defesa contra os “semeadores de dúvidas” seja sempre a lembrança de nossas experiências espirituais. Uma passagem interessante no Livro de Mórmon ilustra bem esta situação, o encontro do anticristo Sherem com o profeta Jacó: Jacó 7:1-5.

“E então aconteceu que, passados alguns anos, apareceu entre o povo de Néfi um homem cujo nome era Sherem … ele começou a pregar ao povo e a declarar-lhes que não haveria Cristo algum…; e sabendo que eu, Jacó, tinha fé no Cristo que haveria de vir, procurou muito uma oportunidade para encontrar-se comigo. E ele era instruído, de modo que tinha perfeito conhecimento da língua do povo; podia, portanto, usar de muita lisonja e muita eloquência, de acordo com o poder do diabo. E tinha esperança de afastar-me da fé, não obstante as muitas revelações e o muito que eu vira com referência a estas coisas; porque eu verdadeiramente vira anjos e recebera o seu ministério. E também ouvira a voz do Senhor, verdadeiramente me falando de tempos em tempos; portanto eu não podia ser abalado.”

Creio que perceberam aqui mais um conflito “Jerusalém x Atenas”, só que desta vez se passando no Novo Mundo. Tal qual experimentara Paulo e Barnabé, os argumentos de Sherem eram somente um jogo de palavras contra alguém que já vivenciara várias teofanias. Sherem achava que podia influenciar Jacó com a mesma facilidade que influenciara seu público menos instruído e carente de revelações pessoais. Sherem tinha seu paradigma centrado na razão, vivia no cerne da esfera filosófica, porém Jacó estava centrado no “religare”, na sua comunhão com o divino e não podia ser influenciado por um mero (popularmente falando) “blá-blá-blá”!

O grande erro da Grande Apostasia foi exatamente este, achar que o raciocínio pudesse substituir a revelação. Talvez ainda não somos privilegiados tal como Jacó e outros profetas que presenciaram várias teofanias, mas nossas pequenas hierofanias nos aproximam muito mais de Deus do que qualquer estudo ou exercício intelectual, negligenciá-las em prol de um caminho mais fácil através dos livros pode nos dar conforto num momento de tristeza mas é tão sólido quanto um prego na areia, conforme ensina élder Oaks.

É claro que o extremo oposto também não está isento de problemas. O grande erro do Fideísmo é achar que a religião possa descartar a razão. A razão não pode e nem deve substituir os espírito, mas ela é ainda um bom filtro para evitar os excessos do fanatismo, do folclore e das lendas. A filosofia pode ainda ajudar o homem a ser mais tolerante com o pensamento alheio, ajudando-o a ter uma empatia pelas ideias daqueles que tem um “Weltanschauung” (visão de mundo) diferente da nossa e pode abrir um diálogo sadio para que todos possam compartilhar seus paradigmas. (continua…)

Notas:
Foto: Rafael: Pregação de Paulo no Areópago em Atenas
[1] http://www.e-cristianismo.com.br/biografias/67-vida-e-obra-de-tertuliano-de-cartago
[2] Hugh Nibley – THE WORLD AND THE PROPHETS. Ver principalmente os Capítulos 5. Prophets and Philosophers, 9. The Schools and the Prophets e 10. St. Augustine and the Great Transition.
[3] Santo Tomás, Summa Theologiae I, 2, 3.
[4] Blaise Pascal, Pensées, n. 543.
[5] Immanuel Kant; Critica della ragione pura, Bari, 1940, vol. II, p. 488.
[6] Battista Mondin; “Quem é Deus”, Ed. Paulinas, 1997, p. 240.
[7] Idem, p. 183
[8] Ibidem, p. 182 & p. 196

Leia também os capítulos 1 e 2.

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Marcelo da Silva

Marcelo Moreira da Silva serviu missão em Porto Alegre, entre 1990 e 1992. É casado e pai de dois filhos. Serve atualmente como Missionário do Pathway e Professor de membros novos na Escola Dominical. Formou-se em Engenharia de Aeronáutica pelo ITA em 1989 e possui MBA em Finanças pela BYU. Atua voluntariamente como professor no Colégio da Polícia Militar, na preparação para as Olimpíadas de Matemática.
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