Mas será que este tipo de conhecimento religioso é real? Muitos cientistas o ignoram ou simplesmente não o aceitam (pode ser posto em um laboratório?). Entretanto, quem já passou por uma experiência espiritual reconhece muito bem a realidade desta dimensão. Deixe-me dar um exemplo:

Logo após minha Missão fui trabalhar num Banco na Avenida Paulista em São Paulo. Na hora do almoço os funcionários ganhavam um talão de tickets com um determinado valor que poderia ser trocado nos principais restaurantes da região. Estava eu um dia na entrada de um restaurante “por kilo” na Alameda Santos que estava sendo inaugurado. Antes de entrar, um mendigo me abordou e me pediu uma ajuda para que também pudesse comer. Eu destaquei um dos tickets de meu talão e lhe dei. Entrei no restaurante e comecei a me servir. Ao chegar perto da balança, já ia pesando meu prato quando a moça do caixa me disse: “Como hoje é inauguração do restaurante, estamos com uma promoção: Se você adivinhar o peso do seu prato, você não precisa pagar pela refeição”. Eu já comecei fazer uma estimativa dos pesos de meus pratos que comera em dias anteriores e já ia falar algo acima dos quinhentos gramas, quando uma voz claramente veio a minha mente “quatrocentos e oitenta!”. Então falei o número que me veio à mente e coloquei o prato sobre a balança. A moça do caixa ficou tão surpresa quanto eu… “Quatrocentos e oitenta, parabéns! Você ganhou…”. Olhei para a balança e vi que o preço que iria pagar era quase a mesma coisa do valor do ticket que havia repassado ao mendigo.

Esta simples experiência foi uma de minhas experiências espirituais pessoais. Alguns que a lerem poderão achar que foi uma mera coincidência, ou então que eu estou mentindo ou pelo menos exagerando os detalhes desta experiência. Não importa, para mim foi exatamente assim que aconteceu, eu ouvi claramente uma voz em minha mente falando um valor específico quando estava pronto para dizer outro número. Esta experiência me ajudou a entender que a dimensão do conhecimento religioso é real.

Antes mesmo das recentes pesquisas no campo da neurociência, vários filósofos já se perguntavam em como se dava o processo de aprendizado e conhecimento do homem. Há mais de trezentos anos John Locke e David Hume, especulavam achando que nosso conhecimento vinha apenas das experiências e sensações que passávamos, nós éramos apenas reflexos dos estímulos que sofríamos. Nossa mente era para eles como uma tábua rasa de cera que ficava marcada com cada sensação experimentada. Um conjunto de sensações acabava por nos levar a uma percepção e este conjunto de percepções moldavam nossos paradigmas e orientavam nossas ações. Já Imannuel Kant repudiava esta visão, em sua Crítica da Razão Pura propunha que nossa mente não poderia ser apenas um receptáculo de sensações recebidas, deveria haver algo mais. Nossa mente organiza as sensações recebidas, pondera cada uma delas, prioriza algumas enquanto outras ela ignora. Agora mesmo, o peso das suas roupas sobre sua pele está sendo ignorado, porém se estivesse nadando por sua vida, você logo decidiria em se livrar delas. O “tic-tac” do relógio mais próximo é ignorado, porém se estivesse esperando alguém muito especial, aquele “tic-tac” poderia entrar em ressonância com as batidas de seu próprio coração. Este agente de seleção e coordenação, segundo Kant, usa, antes de tudo, dois métodos simples para a classificação do material que lhe é apresentado: o sentido do espaço e o sentido de tempo. Assim como o general de batalha organiza as mensagens chegadas até ele segundo o lugar para onde se destinam e o momento em que foram escritas, e assim encontra uma ordem e um sistema para todas elas, a mente distribui suas sensações no espaço e no tempo, atribui-as a este ou àquele objeto, a este momento presente ou àquele no passado. Ou seja, a mente é inteligente a priori, assim como um processador Pentium é inteligente o suficiente para organizar todos os arquivos e programas que são instalados em seu computador e chamá-los de volta toda vez que você desejar requisitá-los. Se esta mente está de alguma forma conectada ao espírito ou alma é uma coisa que ainda religiosos, filósofos e cientistas discutem.

Creio que Kant estava certo com relação à nossa mente, mais minha experiência acima mostra que ainda existe algo maior, alguma coisa “extrínseca” a você mesmo que pode também se comunicar à sua mente (e ao seu coração, tal como diz a escritura… D&C 8:2).

Porém minha experiência pessoal não pode se colocada num laboratório, não adianta colocar um mendigo na porta de um restaurante em inauguração, doar certo valor para ele, servir-se, e antes de colocar seu prato sobre a balança você saberá o peso do prato. A experiência não se repete e; portanto, não pode ser falseável. Nem minha experiência foi filosófica ou lógica. Meu exercício mental baseado em minha experiência anterior estava me levando a dizer um valor mais próximo do que eu comia todo dia, a lógica baseada sobre o peso do prato com comida em minha mão e a experiência de pratos semelhantes em outros restaurantes estava me levando até para um valor próximo, porém inexato. Mas aquela voz em minha mente deu um valor exato e que seria comprovado na balança experimental logo em seguida.

No texto anterior discorremos um pouco sobre como nossa mente pode adquirir conhecimento. Para os que se interessam pelo assunto, foi publicado recentemente um estudo sobre percepção de nossa mente em processos de ressuscitação realizado em mais de 2060 pacientes em 15 hospitais do Reino Unido, Estados Unidos e Áustria. Os resultados são promissores e parecem apontar que nossa mente continua funcionando mesmo após o coração parar de bater e o cérebro parar de funcionar.

Os procedimentos médicos de ressuscitamento (“cardiac arrest”) foram cronometrados; e, em alguns casos os pacientes descrevem percepção dos procedimentos que aconteceram três minutos após o coração parar de bater. Isto é paradoxal uma vez que o cérebro para de funcionar 15-20 segundos após o coração parar de bater, e não volta a ser ativado até que o coração volte a bater novamente. O estudo conclui:

“Então, embora não seja possível provar definitivamente a realidade ou significado das experiências dos pacientes e as alegações de consciência (devido à baixa incidência – 2% = 41 casos dos 2060 estudados – de lembranças explícitas com consciência visual ou as tão chamadas “OBE’s” (“Out of Body Experiences” = Experiências de fora do corpo)), foi impossível também descartá-las e mais estudo é necessário nesta área. Claramente, as lembranças de experiências perto da morte merece agora mais investigação genuína e sem qualquer preconceito”.
O estudo completo pode ser lido em inglês no link abaixo: http://www.resuscitationjournal.com/article/S0300-9572(14)00739-4/abstract

(continua…)

Leia também a primeira parte deste artigo: “Ciência, Filosofia e Religião – 1”

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Marcelo da Silva

Marcelo Moreira da Silva serviu missão em Porto Alegre, entre 1990 e 1992. É casado e pai de dois filhos. Serve atualmente como Missionário do Pathway e Professor de membros novos na Escola Dominical. Formou-se em Engenharia de Aeronáutica pelo ITA em 1989 e possui MBA em Finanças pela BYU. Atua voluntariamente como professor no Colégio da Polícia Militar, na preparação para as Olimpíadas de Matemática.
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