Hoje eu gostaria de lhes falar sobre três dimensões do conhecimento humano: Ciência, Filosofia e Religião. Antes de tudo, precisamos definir bem o que é cada uma delas e como elas vêem a captura do conhecimento e da busca da verdade.

Em 1º lugar vamos definir Ciência:

Ciência é um tipo de conhecimento que pode ser obtido através da lógica e da experiência, mais desta última do que da primeira. Um conhecimento científico tem de ser experimental, tem de ser falseável, e o que for descoberto e for obviamente verdadeiro para quem o descobrir deve também ser obviamente verdadeiro para qualquer outra pessoa mais, basta que se repita na frente dela a mesma experiência. Em suma é um conhecimento extremamente objetivo. Procura responder a questão: “Como as coisas funcionam ou por que o mundo é do jeito que é…?”

Já Filosofia não depende de um laboratório físico para se extrair suas verdades. É um tipo que conhecimento que eu o chamaria de lógico-indutivo. Muitos de seus testes e ensaios são mentais, ilustrados em situações hipotéticas a fim de delinear um argumento ou raciocínio. Procura ter uma visão holística do mundo e do universo e entender como tudo pode ser relacionado e compreendido.

Costuma-se dizer que Filosofia é uma trincheira avançada da busca do conhecimento, enquanto ciência seria o território já conquistado. Exemplo: Enquanto hoje a ciência mapeia as áreas do cérebro humano responsáveis pela memória, linguagem, emoções, etc., os filósofos já estão se perguntando: O que é consciência? Ou como surge a consciência?

E por último temos a religião. Um tipo de dimensão de conhecimento que vem, como muitos a classificam, através de uma experiência espiritual (uma cura na família, e.g.) ou de uma revelação pessoal (algo lhe inspirando a fazer ou falar uma coisa diferente do que está acostumado, e.g.). Tal dimensão surge da crença que existe algo mais além de nossa percepção comum. Que existe algo ou alguém responsável por nossa existência e que seja possível o acesso, de alguma forma a este poder ou força que se encontra além de nós mesmos. Procura responder a questão: “Qual o propósito de nossa existência?”

A grande pergunta que surge hoje é saber quando estas três dimensões se interligam e quando entram em choque. A religião muitas vezes entra em choque com a ciência por lhe dar respostas simplistas e sem o devido escrutínio de um laboratório. Por que chove? Por que Deus assim o quis! Respondia os religiosos de outrora, porém esta não é uma resposta aceitável pela Ciência, aceitá-la é como jogar a toalha e desistir de pesquisar. Neste aspecto a Ciência jamais se renderá à hipótese Deus enquanto não o puder colocar em um laboratório. De outro lado os religiosos reclamam que os cientistas acham que podem colocar tudo em seus tubos de ensaio ou microscópios. Quando um cientista for casar com sua pessoa amada, qual o teste científico que ele fará para saber realmente se o(a) outro(a) o(a) ama ou não?

No meio e além dos dois, temos os filósofos, tentando extrair sentido desta eterna dicotomia entre ciência e religião. O filósofo entende que a ciência não pode dar ainda todas as respostas, então ele entra em campos de raciocínio e de lógica para averiguar se os argumentos de ambos os lados fazem sentido ou não. Muitas disciplinas de nossa vida hoje são filosóficas. No Direito ainda analisamos os argumentos lógicos da defesa e da acusação, tese e antítese são apresentadas para extrairmos então uma síntese, um veredicto sobre a situação do réu, inocente ou culpado. Os cientistas não gostam muito deste tipo de abordagem, eles sabem que a lógica pode ser enganosa. Por quase 2.000 anos o sistema geocêntrico de Ptolomeu era lógico e parecia verdadeiro, foi usado com certa precisão para prever as estações e os tempos das colheitas, não obstante estava baseado em premissas totalmente falsas. Séries modernas de TV como SCI tentam mostrar que a Ciência pode ajudar e ser essencial no ramo do Direito, uma utopia que ainda, acho eu, está longe de nossa realidade. O filósofo reconhece facilmente a fragilidade do cientista em dar todas as respostas, ou então em reconhecer as conseqüências de suas próprias respostas, e não é à toa que entre os filósofos há um adágio: “Geralmente um excelente cientista é um péssimo filósofo…”

Em Resumo, Ciência é atéia por definição. É quase um oxímoro dizer: “Acreditarei em Deus quando a Ciência provar que Ele existe!” A Ciência não vai se render à hipótese Deus tão cedo! Na verdade, quando admitir esta hipótese ela estaria admitindo sua própria incompetência em descobrir ou dar respostas às grandes questões da humanidade. Contudo, quando um indivíduo lhe pergunta: “Qual é o propósito de nossa existência?” A Ciência se vê completamente sem sentido. Não faz sentido perguntar por um propósito se estamos aqui somente por acaso, se nosso destino é voltarmos todos a ser poeira interestelar, i.e., sua resposta final é fria e insensível, com certeza não vai agradar a muitos… E o filósofo sabe disto muito bem.

Vamos analisar estas três dimensões sob o paradigma de alguém que esteja conhecendo o evangelho. Quando estava no fim do ensino médio meu irmão mais velho voltara de Missão e me apresentou um discurso chamado “O Missionário Desafiador e Testificador” por Alvin R. Dyer. Este mesmo discurso eu receberia em meu pacote missionário quando chegou minha vez de servir uma Missão. O início desse discurso é bem interessante. O autor fala de um jovem companheiro de missão que apesar de seus 20 anos de idade já havia se formado em Matemática e achava que “a conversão ao evangelho era um processo mecânico perfeito, tornando possível pelo esforço, ensinando e apresentando ao povo os fatos e verdades do Evangelho pelo poder do argumento, persuadindo-o a aceitar a verdade”. Quando o li pela 1ª vez eu tinha 16 anos era um bom aluno do ensino Médio e antes de iniciar o 3º ano já havia passado no vestibular de Odontologia na USP no 1º ano e no vestibular de Medicina USP (Pinheiros) no 2º ano. Até então meu treino acadêmico ensinara exatamente isto, chegar às respostas através de um conjunto de argumentos e raciocínio era natural para mim. Enfim, eu me identificava com o companheiro do élder Dyer, e não entendia por que ele parecia tão avesso às suas ideias. Entrei no ITA aos 17 anos e como não poderia trancar a matrícula do curso, somente saí em Missão aos 22 anos, já formado em Engenharia de Aeronáutica. Na faculdade entrei em melhor contato com o método científico e entendi as suas limitações, sempre dependendo da boa definição de premissas e do bom estabelecimento das condições de contorno para que se extraíssem as conclusões do experimento. No início da Missão também achava que o Mormonismo tinha vários argumentos positivos que poderiam, senão convencer, pelo menos atiçar a curiosidade de qualquer pesquisador para conhecer mais sobre o evangelho restaurado. No começo da Missão eu gostava de passar aos investigadores vídeos da Igreja tais como “A América Antiga Fala” ou “Cristo nas Américas”, que apresentavam vários argumentos em favor do “Livro de Mórmon” e consequentemente da restauração do evangelho. Eu não entendia por que a Igreja não mais promovia aquele tipo de material, os filmes ainda eram do fim da década de 60, estávamos já nos anos 90 e não tínhamos mais nenhum material daquela estirpe atualizado.

Foi quando comecei a perceber que minha abordagem de utilizar os vídeos e filmes não era assim tão produtiva. Quem se interessava pela Igreja buscava outras coisas e quase nunca era saber “por que o almirante Cook havia sido recepcionado como um deus pelos índios havaianos”.

Foi então que comecei a perceber a lógica por trás das palestras missionárias. O conhecimento religioso depende de uma experiência espiritual, de uma “revelação”, não de argumentos lógicos em favor de uma interpretação religiosa. Este último tipo de conhecimento era o filosófico, o argumentativo que poderia sempre entrar numa retórica espiral divergente sem nunca chegar à conclusão alguma.

A 1ª palestra missionária segue o seguinte padrão: Cremos em Deus e Jesus Cristo. Deus tem um plano para nós (um propósito para sua criação terrena). Este propósito ele revelou aos profetas. Este é o método como trabalha com suas criaturas. Este método continua ativo, chama profetas atualmente. Exemplo: Joseph Smith. E aqui estão escrituras trazidas à luz por este profeta (O Livro de Mórmon). Agora temos um convite para que você possa receber sua própria experiência espiritual, sua revelação pessoal (ler e orar).

Ou seja, toda a 1ª palestra é uma preparação para que o pesquisador possa obter um novo tipo de conhecimento, o religioso. Éramos instrumentos na mão do Senhor para tentar estabelecer o “religare”.

Quando voltávamos para a 2ª palestra missionária, percebíamos claramente a diferença em que rejeitou nosso convite (não leu nem orou), quem o aceitara parcialmente (somente leu) ou quem definitivamente o aceitara (leu e orou). A recepção e o tratamento que recebíamos nesta visita eram diretamente proporcionais ao grau de comprometimento com nosso convite. (continua…)

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Marcelo da Silva

Marcelo Moreira da Silva serviu missão em Porto Alegre, entre 1990 e 1992. É casado e pai de dois filhos. Serve atualmente como Missionário do Pathway e Professor de membros novos na Escola Dominical. Formou-se em Engenharia de Aeronáutica pelo ITA em 1989 e possui MBA em Finanças pela BYU. Atua voluntariamente como professor no Colégio da Polícia Militar, na preparação para as Olimpíadas de Matemática.
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