As antigas capelas são o legado material da infância da Igreja nas cidades onde foram construídas e constituem um testemunho da coragem, da perseverança e da fé dos pioneiros, que levantaram seus alicerces e ergueram suas paredes.

No Brasil, a expansão mais vigorosa do mormonismo começou a ocorrer nos anos 1960, mesma década em que o Programa de Construção da Igreja se instalou integralmente na América Latina [i] . Tal programa deu o suporte e estabeleceu as diretrizes para o erguimento de espantosa quantidade de capelas, edificações multiúso de alto padrão.

Era requerido, pelo programa, que os santos contribuíssem com uma porcentagem do custo da obra. Isso podia ser feito com doação de dinheiro ou das horas em que o membro trabalhava na construção. Naquela faina estavam famílias inteiras, com suas crianças.

Além dos membros locais, havia os missionários construtores e o supervisor da obra, muitos dos quais largaram uma vida confortável para servir na desafiadora Missão de Construção. Em Brasília, minha cidade, o terreno foi doado pelo governo, que queria ver rapidamente povoada a então nova capital federal [ii] , e anularia a doação se a obra não se iniciasse logo. Missionários construtores foram, às pressas, enviados para esta cidade, sem que tivesse havido tempo de providenciar condições para recebê-los. Chegaram a um terreno onde só havia mato e trabalharam duro, em meio a privações: no início, acamparam de forma precária, sob telhas de amianto, dormiam quase ao relento e não dispunham de água ou luz.

Vale lembrar que, em algumas localidades, houve escassez de alimentos para esses jovens construtores, que seguiam regras semelhantes àquelas da missão integral de proselitismo.

Construção de Capelas no Brasil 1

Abrigo que, no início, os primeiros missionários construtores de Brasília utilizaram. Observe-se a precariedade dessa cabana, que era aberta na frente e nos fundos, deixando o vento passar. Cortesia do ex-missionário construtor Cláudio Inéas Bueno, retratado na foto.

Sabemos que, em esforços braçais, acidentes são ocorrência comum. O gaúcho Ronaldo Dannemberg, ex-missionário construtor no Uruguai, país que sediava a administração da Igreja na América do Sul, viu um dos companheiros cair do andaime de cerca de dezesseis metros de altura [iii], em cima de uma pilha de blocos de concreto , e conheceu outro que perdeu a mão ao colocá-la na engrenagem da betoneira que custava a funcionar. Marlene dos Santos Oliveira, que, como muitas irmãs da Sociedade de Socorro, ia à obra para cozinhar e lavar, à mão, a roupa dos missionários, relatou o momento em que pegou a luva com o dedo decepado de um jovem que o perdera na máquina de fazer blocos – aconteceu em Santos-SP.

Excerto do caderno intitulado “Relato das Horas Dedicadas à Construção da Capela”, de Bernardino Plácido da Silva, então membro local de Brasília, ano 1964.

Excerto do caderno intitulado “Relato das Horas Dedicadas à Construção da Capela”, de Bernardino Plácido da Silva, então membro local de Brasília, ano 1964.

Contavam-se dezoito capelas edificadas[v] no Brasil quando, em 21 de novembro de 1965, conforme registrado no Mission Branch Historical Records [vi], o presidente da Missão Brasileira, Wayne Beck, subiu ao púlpito em grande comoção para dizer que elas não estavam sendo tratadas com o devido respeito e amor. Ele disse que, numa capela, nada devia ser profanado. “Como se sentirão se encontrarem tudo estragado e sujo?”, perguntou. “Um grupo se sacrifica, e o outro destrói. O que pertence a Deus deve ser cuidado com muito zelo e amor, porque se trata da casa do Senhor, onde vamos para reverenciar”. Consta ainda no referido registro que o Presidente Beck, em algum momento, parou para se recuperar da grande emoção que sentia enquanto proferia esse discurso.
Preservar e respeitar os locais de adoração era tema recorrente no material destinado às crianças. A saudosa irmã Glória Silveira[vii] , de São Paulo, que durante anos trabalhou na Primária, relatou: “Uma vez falamos sobre os bancos da Igreja, o banco era um personagem, que dizia: ‘Não gosto quando você fica me sujando. Você tem que ser reverente comigo, não precisa me bater, me machucar’”. Ressalte-se que muitas dessas peças de madeira também foram fruto do trabalho voluntário de membros. Com especial carinho, David W. Pereira, de Belo Horizonte, guarda a foto da mesa sacramental e do púlpito feitos por seu pai, o pioneiro Milton Pereira. Em Vitória, Orlando Maia manufaturou um banco para as primeiras reuniões daquela cidade, realizadas em sua casa.
Eram tempos de pioneirismo real, como costumava dizer Demétrio Teixeira, um dos primeiros conversos de Brasília. E eu, o que eu faço? Reclamo quando sou escalada para fazer a limpeza da capela.

Matéria publicada em A Liahona de agosto de 1973.

Matéria publicada em A Liahona de agosto de 1973.

A foto que ilustra a apresentação deste texto traz os élderes Walter Spät e José Lombardi trabalhando numa das obras. Foto cedida por Clarence Moon, que supervisionou a construção de várias capelas no Brasil.

i. Grover, Mark L. A Land of Promise and Prophecy – Elder A. Theodore Tuttle in South America, 1960-1965, p. 204. Provo: Religious Studies Center, Brigham Young University, 2008. Consta na referida página: “By January 1961 the Church was ready to establish the full program in Latin America. There were a few chapels being built in Argentina, Uruguay, and Brazil, but nothing like what was about to happen”.
ii. A construção da capela da Asa Sul, em Brasília, teve início em julho de 1964 e foi inaugurada em 11-7-1965. Outras cinco capelas que, neste ano, completam seu cinquentenário: a da Tijuca, a de Perdizes, a de Pelotas, a de Araraquara e a de Bauru (conforme A Liahona de agosto de 1973).
iii. O rapaz que caiu do andaime recebeu uma bênção do sacerdócio na hora e, no mesmo dia, se recuperou totalmente, o que, nas palavras de Dannemberg, foi um milagre.
iv. As paredes da capelas antigas não são constituídas de tijolos. Tijolos são feitos de barro. O que temos nas capelas são blocos de concreto, que eram fabricados pelos próprios membros. Reproduzo as palavras de Cláudio Inéas Bueno, ex-missionário construtor: “Muitas vezes nos reunimos em mutirão, de dia e de noite, na fabricação de blocos de concreto que eram a característica principal de nossas Capelas. Algumas crianças apontavam, com orgulho, dizendo: este eu que fiz! Isso aconteceu em várias construções de que participei”. (depoimento colhido pela autora deste artigo.)
v. Segundo A Liahona de agosto de 1973, na qual também consta que foram construídas trinta casas de adoração num período de dez anos, a contar do ano 1962.
vi. Mission Branch Historical Records é um registro oficial da Igreja feito pelos próprios missionários da época.
vii. O depoimento de Glória Silveira, assim como o de outras pessoas aqui citadas, foi colhido pela autora deste artigo.

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Ludmilla Gagnor Galvão

Ludmilla Gagnor Galvão é taquígrafa e revisora de Português. Seu passatempo é pesquisar a história da Igreja em Brasília, tarefa que a leva a vasculhar também a história da Igreja no Brasi
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