O que é um erro de tradução? Por exemplo, qual a melhor tradução para a expressão “It’s raining cats and dogs” do Inglês?

  1. Está chovendo gatos e cachorros
  2. Está chovendo canivetes
  3. Está chovendo muito (ou torrencialmente)

Perceba que a alternativa a) é a tradução literal da expressão, mas seria a pior escolha do tradutor, porque simplesmente seria aquela que o receptor português teria a maior dificuldade em decodificar o sentido original da mensagem que o emissor em Inglês queria transmitir. A opção b) seria melhor e geralmente é preferida por muitos pois usa uma expressão equivalente em Português onde se invoca a imagem de “coisas” caindo do céu. Mas outros simplesmente podem achar que a melhor alternativa é a c) mesmo, onde se trocam os animais caindo do céu por um advérbio de intensidade (ou modo).

Geralmente erros de tradução ocorrem quando uma palavra de uma língua é confundida com outra muito próxima da língua original (tipo 1) ou então com outra semelhante da língua traduzida mas com sentidos ou ideias diferentes (tipo 2), sendo estes últimos chamados de falsos cognatos.

Um exemplo clássico para erro do tipo 1) foi a expressão “Paraíso Fiscal” em português traduzida do inglês “Taxes Haven”. O primeiro tradutor confundiu “Haven” (= refúgio) com outra palavra bem próxima “Heaven” (=céu) do Inglês, e ao invés de escolher “Céu Fiscal”, preferiu “Paraíso Fiscal” (cuidado, seu google tradutor comete este mesmo erro!). A expressão pegou e alguns poderiam até justificar a tradução dizendo que um “Paraíso” afinal das contas é uma espécie de “refúgio”.

Um exemplo de erro do tipo 2) aconteceu na tradução da passagem de Alma 1:17 quando em Inglês se lê que os sacerdotes de Nehor “pretended to preach according to their belief”. Na versão anterior do LM em Português estava traduzido como “pretendiam pregar de acordo com suas crenças”, mas “pretend” é um falso cognato que pode significar simplesmente “fingir fazer algo” ao invés de “pretender fazer algo”. Na versão atual o verbo foi corrigido para “alegavam pregar de acordo com sua crença”.

Toda esta introdução para analisar as famosas alegações de “erros de tradução” nas passagens de Isaías na Bíblia versão do Rei Tiago e no LM, onde tentaremos identificar um erro real de uma simples variante de tradução e, neste último caso, se focamos mais na ideia do que no sentido literal da palavra.

Parece-me claro que exemplos do tipo 2) não ocorreriam numa tradução do Hebreu para o Inglês, mas erros do tipo 1) seriam bem possível. Um exemplo clássico deste tipo de erro encontramos na passagem de Isaías 33:8, onde o texto Masorético de onde temos a tradução da King James aparece a palavra <arîm> = (“cidades”), mas no pergaminho de Isaías do Mar Morto temos a palavra <adîm> =(“testemunhas”). É consenso entre os eruditos hoje que o correto e mais perto do original tenha sido <adîm> (mais em linha e dentro do contexto da passagem), e que em algum momento entre a produção do rolo de Isaías do Mar Morto e a compilação do texto Masorético algum escriba erroneamente trocou uma letra da palavra.

Se esta passagem estivesse citada no LM hoje teríamos um excelente teste para se fazer, Joseph Smith escolheria a palavra “cities” ou “witnesses” em sua tradução do LM? Infelizmente o LM cita apenas os capítulos de Isaías 2-14; 29; 49-55; o capítulo 33 está fora.

O pastor Walter Martin alegou que ocorreu um erro de tradução na tradução de Isaías 4:5 na passagem do LM em II Néfi 14:5, onde se lê:

“E criará o Senhor, sobre toda a habitação do monte Sião e sobre as suas congregações, uma nuvem e fumaça de dia e o resplendor de um fogo chamejante à noite; porque sobre toda a glória de Sião haverá uma “defesa””.

A alegação é que a palavra “defesa” estaria errada, a correta tradução do termo hebraico “chuppah” (pronuncia-se “Râh-pah”) seria “cobertura” ou uma “canópia” (do Inglês canopy).

De fato esta é a palavra usada na NKJ (e em algumas outras versões em Inglês), mas será que isto seria um erro do tipo 1) ou apenas uma variação da tradução pela escolha entre a palavra literal ou a ideia? Eu diria que se trata do último caso, não há uma confusão de letras da palavra original que induziu o autor a uma tradução diferente, tanto é assim que Jerônimo na sua Vulgata e os tradutores Portugueses da Versão Almeida revista e corrigida usam respectivamente as palavras “protectio” e “proteção”, uma ideia mais próxima de “defesa” do que “cobertura” para este versículo. No site abaixo encontramos várias versões para a mesma passagem de Isaías em Inglês, veja que apesar da maioria escolher “cover” ou “canopy”, algumas versões preferem “proteção”, “defesa”, “salva-guarda” ou mesmo ambos.

http://www.biblestudytools.com/isaiah/4-5-compare.html

Será que Jerônimo, os tradutores da Versão Almeida revista e corrigida ou os tradutores de outras versões também confundiram a mesma palavra? Claro que não! A explicação é bem mais simples.

Ao checar o site do Blue Letter Bible, vemos que a “chuppah” (substantivo) deriva da raiz “chappah” (verbo => pronuncia-se “Râh-fah”). Ao checar o significado deste verbo no famoso Léxico Genesius vemos que o verbo tem tanto o significado de “cobrir” como de “proteger”. Inclusive o exemplo que o site da Blue Letter dá para o dois exemplos é exatamente a passagem de Isaías 4:5. https://www.blueletterbible.org/lang/lexicon/lexicon.cfm?strongs=H2645&t=KJV

Agora vamos analisar esta passagem de Isaías, temos uma promessa para a futura Sião, onde a presença de Deus será visível e constante tal como foi na Antiga Israel, uma nuvem durante o dia e um pilar de fogo durante a noite, indicando aos demais povos que Israel estava sob a proteção divina. A nuvem seria tal como uma cobertura (proteção), tal qual um abrigo o é contra o calor do dia e das tempestades (versículo 6). Esta passagem inspirou o hino “Redemer of Israel” (Cantando Louvamos, em Português) e tem relação direta com uma passagem do Novo Testamento em que Jesus ao se lamentar sobre Jerusalém se revela como o Jeová do Velho Testamento: “Ó Jerusalém, Jerusalém, que assassinas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos, como a galinha acolhe os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vós não o aceitastes!” (Mateus 23:37; Lucas 13:34)

Aqui Jesus lamenta que várias vezes quis estabelecer Sião em Jerusalém através de seus profetas, quis trazer seus filhos sob a “Asas da Shekinah” (expressão em Hebraico que indica estar sob a proteção divina, no LM existe uma expressão equivalente “Asas de seu Espírito” (II Néfi 4:25)), mas seu povo o rejeitou.

Aqui claramente “As asas da galinha” são mais do que um cobertura, são uma defesa e proteção contra todos os inimigos de Sião, por isto acho que a tradução “defesa” e “proteção” em Isaías 4:5 está muito mais próxima da ideia central na mensagem do autor do que a simples tradução literal para “cobertura”.

Vamos agora para o outro extremo, i.e., a correção de passagens de Isaías no LM, as quais acontecem alguma vezes, por exemplo:

2 Néfi 19:3 (cf. Isaías 9:3) é o versículo em questão. As leituras do Livro de Mórmon (L.M.) e da versão do Rei Tiago (R.T.) assim seguem:

L.M. Tu multiplicaste a nação

R.T. Tu multiplicaste a nação

L.M. e aumentasse a alegria

R.T. e “não” aumentasse a alegria

(Nota do tradutor: O “not” que aparece na versão inglesa da “King James” já foi suprimido nas versões Almeida em Português, ou seja, nas atuais versões em Português você não achará o “não” neste versículo, contudo confira com uma King James em inglês!)

No site da Blue Letter Bible, das 18 variantes de tradução desta passagem, apenas a King James e a Webster ainda mantém o “não”, todas as outras o suprimiram, tal qual já foi suprimido no LM em 1829. Apesar da Bíblia do Rei Tiago (RT) do tempo de Joseph Smith conter o “não”, Joseph simplesmente eliminou o advérbio de negação, e parece que quase todos os tradutores posteriores da Bíblia concordaram com esta alteração.

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Marcelo da Silva

Marcelo Moreira da Silva serviu missão em Porto Alegre, entre 1990 e 1992. É casado e pai de dois filhos. Serve atualmente como Missionário do Pathway e Professor de membros novos na Escola Dominical. Formou-se em Engenharia de Aeronáutica pelo ITA em 1989 e possui MBA em Finanças pela BYU. Atua voluntariamente como professor no Colégio da Polícia Militar, na preparação para as Olimpíadas de Matemática.
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