Ao estudarmos a doutrina da vida pré-mortal, temos a oportunidade de entender pontos cruciais sobre nossa origem e possivelmente a primeira grande escolha que tivemos que fazer em nossa existência até então, apoiar ou rejeitar o plano de Deus para seus filhos.

O termo “vida pré-mortal” ou “pré-mortalidade” por vezes é chamado de “pré-existência”. No entanto, tal expressão (pré-existência) é naturalmente incorreta, visto que sua definição, “existir antes de existir” não faz sentido algum.

A doutrina d’A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias ensina que antes de nossa vida terrena, vivíamos na esfera pré-mortal em espírito, e que em determinado momento, atingímos o progresso máximo que tal esfera poderia nos oferecer. Com o propósito de permitir a continuidade do progresso de Seus filhos, Deus então convocou um conselho nos céus e apresentou o que conhecemos como “O Plano de Salvação”.

Estamos habituados com a história que conta que Lúcifer, um dos filhos de Deus e portador de grande autoridade nos céus, rejeitou o plano apresentado por Deus, propôs um plano alternativo e levou consigo um terço de todas as hostes espirituais que lá estavam, dando início à uma rebelião nos céus.

Diante desse cenário, algumas questões sérias inevitavelmente ficam no ar. Qual era o real plano de Satanás? Por que esse plano foi rejeitado?

O Plano de Progresso Apresentado Por Deus

O primeiro ponto a entender é que o Conselho dos Céus se tratava de uma apresentação e discussão sobre como um plano já existente seria executado e não um “brainstorm” para a elaboração de um. O pesquisador John E. Fossum declarou:

É improvável que o Senhor tenha convocado um conselho e em seguida dito “Ok… Eu preciso criar um plano de progresso para meus filhos. Alguém tem alguma ideia?” É mais provável que Ele sabia exatamente o que precisava acontecer para que Seus filhos retornassem a Ele, mas permitiu que alguns compartilhassem seus pensamentos de como aquele propósito poderia ser alcançado.[1]

O Livro de Moisés reforça essa ideia, tornando claro que o propósito e obra de Deus constitui no trabalho contínuo desempenhado para fazer com que seus filhos alcançem mortalidade e vida eterna. [2] A versão SUD do dicionário da Bíblia declara que “a Guerra nos Céus ocorreu primariamente com relação aos COMOS e POR QUAIS MEIOS o Plano de Salvação seria administrado para a vinda da família humana à Terra. Os assuntos envolviam coisas como arbítrio, como alcançar salvação e quem seria o Redentor”[3]

Durante minha vida como membro da Igreja, frequentemente tenho ouvido pessoas afirmando que “o propósito e plano de Deus é que possamos voltar a Sua presença um dia”. Embora habitar na presença de Deus seja uma realidade natural daqueles que perseveram até o fim, isso naturalmente não pode ser considerado como o objetivo principal de Seu plano. Se o propósito principal do Plano de Salvação fosse simplesmente “voltar à presença de Deus”, por que então deixamos a esfera pré-mortal?

O Plano de Progresso Exige Sacrifícios

De fato o Senhor deseja o retorno de seus filhos ao lar celestial, mas assim como pais que enviam filhos à missão, Ele não deseja apenas que voltemos para casa, mas que retornemos melhor do que quando partimos.

Um sábio Pai uma vez disse ao seu Filho: “Meu filho…Tudo o que eu tenho, eu desejo lhe dar – não apenas minha riqueza mas também minha posição entre os homens. O que eu tenho, eu posso facilmente lhe dar, mas o que eu sou, você precisa obter por si mesmo. Você se qualificará para a sua herança aprendendo o que eu aprendi e vivendo o que eu vivi.”[4]

O Senhor então apresentou um plano de progresso, onde seus filhos teriam a oportunidade de receber um corpo, ganhar experiência e aprender lições importantes na caminhada rumo à salvação e exaltação. Entretanto, o propósito final do plano apresentado não era negociável, pois seus termos são eternamente pré-estabelecidos. Nosso Pai Celestial então declarou:

“Quem enviarei? E um semelhante ao Filho do Homem respondeu: Eis-me aqui, envia-me. E outro respondeu e disse: Eis-me aqui, envia-me. E o Senhor disse: Enviarei o primeiro. E o segundo irou-se e não guardou seu primeiro estado; e, naquele dia, muitos o seguiram.”[5]

Naquele momento, uma guerra era declarada por Lúcifer. Mas qual foi o real plano proposto por ele?

A Intenção de Satanás

A natureza da rebelião e plano alternativo apresentado por Lúcifer tem sido motivo de amplo debate entre membros, estudiosos e líderes da Igreja. A questão é… Qual era o plano alternativo apresentado por Satanás e por que tal plano era uma abominação?

A primeira evidência que encontramos nas escrituras demonstra que Satanás pecou ao desejar para si mesmo toda a glória por qualquer sucesso na execução de um plano que já havia sido previamente definido pelo Pai. Ele disse:

“Eis-me aqui, envia-me; serei teu filho e redimirei a humanidade toda, de modo que nenhuma alma se perca; e sem dúvida eu o farei; portanto dá-me a tua honra.”[6]

A proposta de Satanás, demonstrava com clareza que sua intenção não era apenas os holofotes celestiais, mas uma rebelião deliberada contra Deus. O Presidente Ezra Taft Benson declarou:

“No conselho pré-mortal, Lúcifer apresentou seu plano em competição com o plano do Pai, que possuía Jesus como advogado. Ele desejava ser honrado acima de todos os demais. Em outras palavras, seu desejo ambicioso era de destronar Deus”.[7]

O Senhor reforçou esse princípio em D&C 29:36 quando declarou:

pois eis que o diabo(…) rebelou-se contra mim, dizendo: Dá-me a tua honra, a qual é o meu poder; e também uma terça parte das hostes do céu ele afastou de mim por causa do arbítrio que possuíam“.

O Real Plano de Satanás

A sequência da história nos conta que o plano de Satanás “procurava destruir o arbítrio do homem”(Moisés 4:3), um dom dado por Deus a seus filhos. Muitos membros da Igreja em diversas épocas, tem interpretado esse versículo de maneira a acreditar que a ideia de Satanás era forçar todos os filhos de Deus a guardarem os mandamentos durante a mortalidade.

Em outras palavras, o plano consistia em compulsão e escravidão, onde viríamos ao mundo sem a liberdade de escolha, de alguma forma seríamos coagidos a não pecar e voilà, voltaríamos todos a presença de Deus, puros e imaculados. Correto? Provavelmente não.

Embora essa seja uma visão comum entre membros da Igreja, as evidências nas escrituras e palavras dos profetas indicam que o plano de Satanás era ainda pior do que imaginamos. Ainda assim, Moisés 4:3 afirma claramente que Satanás procurara destruir o arbítrio do homem. Se tal ato não envolvia compulsão e escravidão, como poderia ele “destruir o arbítrio do homem”?

Uma Maneira Mais Eficiente e Atraente Do Que Compulsão

O Presidente J. Reuben Clark Jr. indicou uma outra alternativa que tornaria a destruição do arbítrio do homem uma tarefa ainda mais fácil e atrativa, “salvar o homem em seus pecados”.[8]

O autor e pesquisador Terryl Givens sobre isso compartilhou:

“A proposta de lúcifer pode muito bem ter consistido na promessa de que independente das escolhas humanas na provação mortal, salvação seria garantida. Seres humanos não seriam forçados a fazer escolhas corretas. Qualquer escolha que fizessem seria suficiente. O que é o mesmo que afirmar que nenhuma escolha que fizessem importaria. E se escolha não importa, então arbítrio moral é apenas um vago clichê. Isto ofereceria um cenário plausível pelo qual ele buscou destruir o arbítrio do homem, em uma estratégia tão tentadora como ainda é em nossos dias.”

Essa estratégia parece ainda mais provável ao vermos nas escrituras a influência de Satanás dizendo “Comei, bebei e alegrai-vos, porque amanhã morreremos; e tudo nos irá bem” (2 Néfi 28:7-9). Com tal plano, faríamos escolhas livremente sem distinção do que é certo e errado e o “melhor”, sem consequências negativas. Um plano um tanto “atraente”, não é?

No Livro de Mórmon, Leí também declarou que “se (…) não há lei, não há pecado. E se disserdes que não há pecado, direis também que não há retidão. E não havendo retidão, não há felicidade.” (2 Néfi 2:13)

Retiremos as consequências de nossas escolhas e o plano de progresso espiritual cai por terra, eliminando de forma efetiva o arbítrio do homem e violando a lei eterna da oposição em todas as coisas, que proporciona as circunstâncias pelo qual o livre arbítrio e crescimento espiritual podem existir.

As Escrituras Não Apoiam a Ideia de “Compulsão” Mas Evidenciam a Ideia de “Inconsequência”

Embora seja uma crença comum entre Santos dos Últimos Dias, a ideia de que o plano de Satanás consistia em compulsão e escravidão não possui apoio escriturístico. Por outro lado, o conceito de que Satanás busca destruir o arbítrio do homem com a tentativa de vender a ideia de que independente de nossas escolhas “no final tudo nos irá bem” (2 Néfi 28:7-9) está presente em praticamente todos os volumes de escrituras e até mesmo no mundo ao nosso redor.

Mórmon testificou sobre a maneira com que Satanás trabalha e sua incapacidade de persuadir ou forçar alguém a fazer o bem:

“Mas tudo que persuade o homem a praticar o mal e a não crer em Cristo e a negá-lo e a não servir a Deus, podeis saber, com conhecimento perfeito, que é do diabo; porque é desta forma que o diabo age, pois não persuade quem quer que seja a fazer o bem; não, ninguém; tampouco o fazem seus anjos; nem o fazem os que a ele se sujeitam.” (Morôni 7:17)

No Jardim do Éden, contrariando o aviso claro de Deus de que se comessem do fruto proibido “certamente morreriam”(Gên 2:17), Satanás disse a Eva “Certamente não morrereis” (Gên 3:4). No Livro de Mórmon, lemos o relato de ao menos três anti-cristos pregando ao povo o conhecido método da inconsequência dos atos.

Em Jacó 7:9, Serém prega “coisas lisonjeiras” ao povo e afirmava saber “que não existe Cristo algum, nem existiu, nem existirá.” Em Alma 1:3-6 lemos a história de Neor, que pregava que “toda a humanidade seria salva no último dia e que não precisariam temer nem tremer, mas que podiam levantar a cabeça e regozijar-se”. Alma 30:17-18 por sua vez menciona Corior, que prometia que “nada que o homem fizesse seria crime (…) e que que quando o homem morria, tudo se acabava.”

Em nosso dia a dia, encontramos ainda aqueles que ensinam que não há Deus e portanto não há consequências para os pecados, outros ensinam que não importa que religião se segue contanto que façamos coisas boas e ainda alguns que acreditam que “já foram salvos” ou que “Deus perdoará a todos no final”. Em cada caso, vemos exemplos da mesma tática de Lúcifer empregada há milênios… atrair os filhos de Deus com ensinamentos “agradáveis” que eliminam o senso de que para toda ação há uma reação ou consequência.

O exemplo nas escrituras que é semanticamente conclusivo a favor da ideia de que a proposta de Satanás não consistia em compulsão, se encontra em seu próprio discurso no Conselho dos Céus. Satanás declarou:

“(…)serei teu filho e redimirei a humanidade toda(…)”

O uso da palavra “redimirei” feito por Satanás, demonstra que uma “queda” era prevista no plano. Se uma queda era prevista, naturalmente com ela viria o pecado, o que contraria a ideia de que todos seriam “forçados a ser fiéis”. Se o plano original fosse forçar a humanidade a ser obediente e jamais pecar, do que exatamente ele nos redimiria? Mais uma vez a ideia da “fidelidade a força” parece inconsistente com as evidências escriturísticas.

Um Terço Dos Filhos de Deus Atraídos Pelo Plano De Satanás

Naturalmente, o número exato de espíritos que decidiram apoiar o plano de Satanás é desconhecido. As escrituras indicam que um terço de todos os filhos de Deus foram persuadidos por Lúcifer a rejeitar o plano de progresso apresentado pelo Pai. Mas quanto seria um terço de todos os filhos espirituais de Deus?

Apenas para que tenhamos uma noção da perda indescritível causada por essa rebelião, analisemos algumas informações. Pesquisadores do Instituto “Population Reference Bureau” estimam que no decorrer de toda a história humana, tenham existido cerca de 107 bilhões de habitantes na terra, levando-se em conta todas as épocas, incluindo os 7 bilhões de pessoas vivas atualmente.[9]

Ignoremos o fato de que a cada dia centenas de milhares de pessoas nascem no mundo e suponhamos por um momento que 107 bilhões fosse o número total de todos os filhos espirituais de Deus presentes no Conselho Celestial, incluindo eu e você. Se esse fosse o parâmetro de nosso cálculo, teríamos a seguinte estimativa:

107 bilhões de espíritos ÷ 3 = 35,6 BILHÕES DE ESPÍRITOS TERIAM SE UNIDO A SATANÁS

Naturalmente esta é uma estimativa simbólica, pois se levarmos em consideração que o Senhor criou “mundos incontáveis” (Moisés 1:33) e que a cada um desses mundos enviou uma quantidade desconhecida de seus filhos, os valores para “a terça parte dos espíritos” se tornariam astronômicos e inconcebíveis à mente humana.

As escrituras se referem à tal parcela dos filhos de Deus, como os “Filhos de Perdição”, que rejeitam aberta e deliberadamente o Evangelho após terem contemplado com olhos abertos, a realidade gritante de sua veracidade. Cometem o pecado imperdoável e permanecem como se não tivesse havido redenção (Mos 16:5), não havendo esperança de perdão “neste mundo ou no vindouro”(D&C 76:30-34). Palavras humanas são incapazes de descrever a dor de nossos Pais Celestiais, ao presenciarem tantos filhos escolhendo um caminho do qual não há retorno ou esperança.

É razoável crer que Lúcifer atrairia um número tão grandioso de filhos com uma proposta que envolveria “escravidão”, “compulsão” e perda total da liberdade de escolha? Você se sentiria tentado a apoiar um plano onde seria escravizado? Parece improvável. Por outro lado é concebível e até provável prever um cenário de grande aceitação e apoio caso o plano se resumisse à garantia de salvação, independente das escolhas feitas na mortalidade.

Conclusão

Alguns talvez se perguntem se há algum benefício em conhecer a proposta de Satanás apresentada no Conselho dos Céus. A resposta é provavelmente relativa. No entanto, as escrituras e exemplos de todas as épocas dão evidência de que conhecer as técnicas empregadas pelo inimigo, podem de maneira efetiva nos ensinar a desenvolver o mecanismo de defesa necessário para resistirmos a tais ataques.

Ainda assim, a melhor maneira de manter-nos firmes e inabaláveis no caminho que conduz à vida eterna é conhecermos de perto o plano de Deus e através disto, compreender a natureza e amor de nosso Pai e Deus. Tendo tal perspectiva, poderemos assim como Joseph declarar, “E que o sol, a lua e as estrelas da manhã cantem juntas e que todos os filhos de Deus gritem de alegria. E que as criações eternas proclamem seu nome para todo o sempre. E torno a dizer: Quão gloriosa é a voz que ouvimos do céu, proclamando a nossos ouvidos glória e salvação e honra e imortalidade e vida eterna; reinos, principados e poderes!” (D&C 128:23)

Fontes:

[1] John E. Fossum, Byu Studies, Religious Educator 12, no. 2 (2011): 181-193.
[2] Moisés 1:39
[3] Bible Dictionary, “War in Heaven,” 788
[4] With Full Puporse of Heart, Pag. 38
[5] Abraão 3:27,28
[6] Moisés 4:1
[7] Ezra Taft Benson, in Conference Report, April 1989, 4.
[8] J. Reuben Clark Jr., in Conference Report, October 1949, 193
[9] www.prb.org – Population Reference Bureal

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Luiz Botelho

Luiz Botelho serviu na Missão Santa Maria e atualmente mora em Provo-Ut, com sua esposa Kelsie e filha Elisa. É certificado em Design Gráfico e Desenvolvimento Web, mas descobriu na Ciência, História, Filosofia e Teologia sua verdadeira paixão.Atualmente trabalha voluntariamente como Diretor Internacional da FairMormon, escreve regularmente para a More Good Foundation e é autor do Interpretenefita.com.
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