Já faz um tempo que o grupo História dos Santos dos Últimos Dias no Brasil (1), criado pelo historiador alagoano Fernando Pinheiro, tem feito aflorar um sem-número de informações valiosas que nos ajudaram a resgatar fatos não muito conhecidos da História da Igreja no Brasil. Hoje eu gostaria de compartilhar uma das mais belas e inspiradoras experiências que, por meio desse grupo, já ouvi.

Quem viveu a circunstância singular foi o irmão Oswaldo Bueno de Moura, que teve o privilégio de trabalhar como construtor do templo de São Paulo. Farei agora um resumo de seu depoimento.

Oswaldo havia acabado de regressar de uma missão de três anos quando foi aceito para trabalhar, em maio de 1977, na obra do edifício que veio a ser o primeiro templo mórmon na América do Sul. Conforme o tempo passava, esse jovem de 21 anos ia conhecendo e trabalhando em vários segmentos da obra, como as placas que envolvem as paredes externas, a colocação da inscrição em ouro, a torre, a fonte, etc.

Tendo o rapaz demonstrado habilidade e granjeado confiança, o supervisor da construção do templo, Élder Ross Jensen, lhe conferiu uma responsabilidade que ele considerou monumental e fora de sua capacidade: a pia batismal e a escultura dos doze bois sobre a qual ela repousa. Havia, entretanto, esta agravante: ninguém tinha começado a fazer a bois, cujos moldes eram importados e deveriam permanecer no Brasil durante seis meses. Findo esse prazo, incidiria multa sobre cada dia que o ultrapassasse, e já se tinham escoado mais de quatro meses.

Segue a explicação de Oswaldo sobre o molde do qual se originam as estátuas dos bois:

O molde consistia de duas partes: a externa, feita de gesso; e a interna, de borracha. A parte interna é que era o molde propriamente dito. A parte externa tinha como função dar suporte ao molde de borracha e esta era a parte complicada, pois era formada de vários pedaços de tamanhos variados e irregulares que se encaixavam entre si dificultando a montagem. Para complicar todo o trabalho, os moldes não vieram com um manual de instrução de como montar e desmontar. Foi um desafio e tanto!

O irmão Magleby, responsável pela feitura das placas de marmorite que revestem a parte externa do templo, havia visto uma vez os técnicos americanos desmontarem o molde, e foi mostrar: golpeou-o a marretadas, mas, no segundo ou terceiro impacto, o molde começou a desfazer-se. Oswaldo ficou extremamente preocupado, porque só dispunham de três moldes e restavam apenas quatro semanas para fazer os bois. O tempo não era suficiente.

O departamento de construção em Salt Lake disse que não era para se preocupar, pois eles também levavam meses para realizar esse trabalho. Oswaldo, entretanto, não podia acreditar que não houvesse forma mais eficaz de desmontar os moldes. Gastou todo um dia tentando executar aquela árdua tarefa. Esforçou-se até o ponto em que, esgotado, não conseguia continuar.

Eram quase 20 horas, só havia ele e o vigia da construção no local. Num extremo estado de exaustão, como se estivesse doente, pegou o ônibus e voltou para casa. Abatido por um sentimento de derrota que parecia invencível, ajoelhou-se e fez a oração mais fervorosa que jamais havia realizado até aquele momento. Debulhando-se em lágrimas, pediu perdão pelos pecados e ajuda para realizar aquela tarefa. Sentia-se incapacitado. O que ocorreu depois ele relata:

O que passou naquela noite jamais conseguirei esquecer. Não sei se uma visão ou um sonho, o que sei é que para mim o que ocorreu foi real. Durante toda a noite foi para mim como se estivesse trabalhando na construção do templo, tudo foi tão real que não dava margem para dúvidas. Enquanto trabalhava na construção, durante esta visão ou sonho, requisitei que me comprassem certas ferramentas e correias, podendo, daquela forma, desmontar o boi em um prazo tão rápido que só mesmo sendo um sonho. Mas não podia ser somente um sonho, podia sentir dor e cansaço, interagia com os engenheiros e meu ajudante, Severino, de uma maneira tangível.

Levantou-se pela manhã esgotado, como se tivesse realmente trabalhado toda a noite. Apesar do cansaço, nunca havia se sentido tão bem. Tinha dentro de si uma motivação sem precedentes e a certeza de que, se seguisse o que lhe fora mostrado no sonho, teria êxito. Vira uma técnica perfeita de desenformar as estátuas.

Ao chegar à obra, deu para um dos engenheiros da empresa que auxiliava na construção uma lista de compras de alguns apetrechos não muito usuais na construção civil(2), como argolas, correias de cinto de segurança de automóvel e uma talha de duas toneladas.

Oswaldo narra:

Tudo aquilo que eu estava fazendo e pedindo havia visto no sonho ou visão que tinha tido naquela noite. Todo aquele dia não foi mais que uma repetição, com riqueza de detalhes, do que havia visto e ouvido no sonho ou visão, até as roupas das pessoas, assim como a de meu ajudante, eram as mesmas que havia visto naquela noite. Até hoje tenho arrepios cada vez que me lembro de como foi.

 Explica como os bois foram desentranhados do molde:

Meu local de trabalho era onde hoje ficam os assentos para as pessoas que assistem aos batismos vicários no templo. Havia, naquele lugar, um cavalete tubular de uns 3 metros de altura.  Enganchei uma das talhas (talha é um tido de guincho com correntes que em inglês significa hoist) no topo do cavalete, enganchei o boi na talha e imediatamente comecei a içá-lo bem lentamente, pois não sabia se a talha, o cavalete ou as correntes iriam ser suficientemente fortes para suportar o peso do boi. Foi um momento de muito suspense e medo, pois o gancho, que se encontrava nas costas do boi, estava fora do centro de gravidade deixando todo aquele peso fora de equilíbrio. Devido a esse motivo, quando comecei a levantar o boi, uma parte começou a subir enquanto a outra ainda estava no chão. A talha começou a estalar e a fazer um ruído metálico estranho quando, de repente, a parte do boi que ainda estava no chão subitamente deu um grande solavanco, desprendendo-se do piso. Que susto incrível, todo aquele peso subitamente começou a balançar sem controle de um lado para o outro. Eu, que estava bem próximo, quase nem tive tempo de reagir, pulei para um lado justo em tempo de evitar o golpe. O peso normal do boi foi aumentado devido à força do solavanco e quebrou a talha. Ainda bem que a talha possuía um dispositivo que a travava caso o peso fosse superior à sua capacidade, aquilo evitou um possível desastre. Não estava preparado para aquela experiência, não era o que havia se passado no sonho. Assim que o boi parou de balançar imobilizei-o com os cintos de segurança da seguinte maneira: 

  • Passei os cintos por cima do cavalete e por baixo do boi apertando bem os cintos.
  • Enganchei uma outra talha no topo do cavalete e no boi içando um pouco o boi.
  • Apertei de novo os cintos que agora estavam frouxos.
  • Retirei a talha quebrada.
Boi Içado

Ilustração cedida por Oswaldo Bueno de Moura

 

Utilizando a talha e os cintos, aprendi, no sonho, que teria que girar o boi com o molde uns cento e oitenta graus no ar, até um ponto em que certa peça do molde ficasse bem embaixo, fazendo que a força da gravidade exercesse a pressão ao ponto em que a peça saía por si mesma sem nenhum esforço.  Aconteceu exatamente como no sonho. Assim que a peça atingiu um ângulo preciso, esta se desprendeu e quase caiu no chão por si só. Dessa maneira eu girava o boi com o molde, que pesava mais de uma tonelada, trezentos e sessenta graus em qualquer direção utilizando a força da gravidade para retirar os pedaços de gesso do molde. Após haver retirado o gesso, a expectativa que sentia era incrível. Agora só faltava retirar o molde de borracha, e eu veria o produto final. Com a ajuda do Severino retirei a borracha, e lá estava, diante de mim, o primeiro boi.  Queria saltar de alegria, dei um grande abraço no Severino e outro no boi.

Esboço do boi

Ilustração cedida por Oswaldo Bueno de Moura

Oswaldo acrescenta com o testemunho do milagre que presenciou: 

Sempre que via as fotos das pias batismais dos templos sentia vontade de tocar nos bois e por muitas vezes acariciava as fotografias das revistas e livros como se isso me permitisse sentir as nuances e formas. Eu não só estava realizando o meu sonho, como também participando da construção dos bois. Com essa técnica pude colocar o primeiro boi em pé em trinta minutos. Meu corpo estava todo arrepiado, aconteceu exatamente como no sonho. Um milagre havia acontecido outra vez em minha vida.  Como é que eu pude realizar aquela tarefa? Só mesmo com a ajuda Divina!

boi templo de São Paulo

Foto do primeiro boi feito por Oswaldo Bueno de Moura

É essa a notável história do método usado para desenformar as estátuas dos bois que fazem parte da pia batismal do templo de São Paulo. Tal técnica, além de ter proporcionado significativa economia de tempo, trabalho e dinheiro para a Igreja,nos brindou com a lição de que, se tivermos fé e fizermos o nosso melhor, o Senhor nos dará a orientação de que precisamos para resolver nossos desafios.

Oswaldo Bueno de Moura se julgava um rapaz ordinário, sem muito estudo (3) ou preparo, mas foi agraciado com algo que considerou além de seu merecimento. Apenas ele e seu ajudante, Severino, presenciaram a maneira como a tarefa foi realizada. Repórteres da revista A Liahona foram até Oswaldo, entrevistaram-no longamente e tiraram fotos, mas infelizmente naquele tempo não foi permitida a publicação desses fatos que acabamos de expor.

1 – O grupo História dos Santos dos Últimos Dias no Brasil está no facebook e seu endereço é https://www.facebook.com/groups/1393503584274526/.

2 – Conforme as palavras de Oswaldo Bueno de Moura: “Na lista eu pedia que me comprassem 3 correias de cinto de segurança de automóvel com 7 metros cada uma, seis argolas de aço de 4 cm de diâmetro e uma talha de 2 toneladas”. E mais: “Ao receber os cintos, pedi que os levassem junto com as 6 argolas a um sapateiro, e que 2 argolas deveriam ser costuradas em uma das extremidades de cada um dos 3 cintos. A costura deveria ser reforçada duplamente, pois expliquei que deveriam suportar o peso de 2 toneladas. Apesar de acharem estranho, fizeram tudo de acordo com o meu pedido, e antes do meio dia tinha, em meu poder, tudo o que havia ordenado. Quando meu ajudante viu os cintos de segurança de 7 metros me perguntou para que seriam usados e eu lhe disse que logo ele veria”.

3 –Oswaldo gosta de comentar que não teve muita educação formal. Porém, é autodidata exemplar, com um belo conhecimento de idiomas. Além disso, ao exercer os ofícios que aprendeu como construtor no templo,adquiriu uma habilidade fora do comum com trabalhos manuais.

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Ludmilla Gagnor Galvão

Ludmilla Gagnor Galvão é taquígrafa e revisora de Português. Seu passatempo é pesquisar a história da Igreja em Brasília, tarefa que a leva a vasculhar também a história da Igreja no Brasi
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