Em um mundo de constante desenvolvimento tecnológico, barreiras antes intransponíveis tem sido superadas e distâncias encurtadas, tornando o acesso à informação do presente e passado uma tarefa relativamente fácil, que normalmente exige apenas o clique de um mouse.

Apesar de muitos membros da Igreja serem amplamente abençoados pela facilidade do acesso à informação e a própria Igreja fazer uma vasta utilização de recursos tecnológicos para espalhar o Evangelho, alguns membros da Igreja ainda possuem dificuldade em compreender que a busca ao conhecimento secular é vital para nosso crescimento intelectual e espiritual.

O Evangelho sem dúvida pode ser defendido com experiências espirituais e testemunho, mas ainda assim, tais elementos se tornam ainda mais sólidos quando unidos à uma fé racional e baseada em evidências. A ausência de conhecimento secular e de fatos relacionados à história da Igreja por exemplo, podem enfraquecer a credibilidade que pessoas mais informadas darão à mensagem do Evangelho Restaurado caso os membros da Igreja sejam leigos a respeito de tais assuntos.

Embora alguns membros da Igreja possuam diferentes razões para justificar a ausência de desejo em buscar informação, listamos e analisamos abaixo algumas das justificativas e expressões mais comuns utilizadas atualmente.

1. “Isso não é importante para a sua salvação”

Entre as justificativas mais comuns oferecidas por pessoas que desencorajam a busca por conhecimento secular e de história da Igreja, está o famoso “Isso não é importante para a sua salvação”. Naturalmente é requerido de todos os membros da Igreja que mantenham um contínuo curso no estudo e prática dos princípios básicos do Evangelho, no entanto, é preciso compreender que a busca pelo conhecimento de nossa própria fé e história, não é uma competição com o estudo diário do Evangelho, mas sim algo que deve andar de mãos dadas e de maneira paralela.

O Presidente Brigham Young, sobre isso declarou:

“A religião de Jesus Cristo não somente torna as pessoas familiarizadas com as coisas de Deus, desenvolvendo no íntimo delas a virtude moral e a pureza, mas também proporciona-lhes todo o incentivo e persuasão possíveis para que cresçam em conhecimento e inteligência em todos os ramos da mecânica ou no campo artístico e científico. Toda a sabedoria, todas as artes e ciências do mundo pertencem a Deus e têm como propósito o benefício de Seu povo.”[1]

Se “toda a sabedoria… e ciências do mundo pertencem a Deus” como ensinado pelo Presidente Young, quão insensato e imprudente seria não buscá-las? Brigham Young então concluiu e aconselhou:

“A maior dificuldade que temos de enfrentar é a que pode ser denominada de ignorância ou a falta de conhecimento das pessoas(…) Empreguem toda a habilidade que tiverem para adquirir conhecimento o mais rápido possível, reúnam toda a vitalidade da mente e princípio de fé que puderem e, então, transmitam o conhecimento.”[1]

Fica evidente então que a busca ao conhecimento secular e espiritual são ambas vitais para nosso engrandecimento na mortalidade e possui consequências grandiosas para a vida vindoura. As escrituras são claras ao afirmar que “a glória de Deus é inteligência ou, em outras palavras, luz e verdade”[2] e de que “qualquer princípio de inteligência que alcançarmos nesta vida, surgirá conosco na ressurreição” [3].

Joseph Fielding Smith, um dos líderes Mórmons mais conhecidos, debateu amplamente os mais variados tópicos e doutrinas grandiosas do Evangelho e uma de suas obras mais populares curiosamente se chama “Doutrinas de Salvação”, indicando que qualquer conhecimento e princípio histórico, científico e doutrinário é sim importante para a nossa salvação.

2. O mau uso da Expressão “Doutrina Profunda”

Embora a expressão “doutrina profunda” tenha sido ocasionalmente utilizada por líderes da Igreja em contextos específicos no passado e presente, sem dúvida nós como membros da Igreja frequentemente a utilizamos de maneira equivocada, entitulando como “doutrina profunda” qualquer coisa que se encontra além de nosso próprio conhecimento. Mistérios só são mistérios até o momento em que a informação é revelada ou aprendida por meio do estudo e muitas vezes o que é um “mistério” ou “doutrina profunda” para alguns, são assuntos normais e rotineiros para outros.

Em outras palavras, na maioria dos casos não existe de fato “doutrina profunda”, mas sim “doutrina que você conhece” e “doutrina que você não conhece”. A utilização corriqueira da expressão “doutrina profunda”, cria ainda um falso ar de mistério em assuntos que em muitos casos não passam de folclore e que apenas visam o entretenimento ao invés da edificação espiritual e intelectual.

3. “Não devemos nos preocupar com isso agora. Um dia essas coisas nos serão reveladas”

É verdade que a mortalidade é muito curta para compreendermos totalmente todos os pontos da doutrina de Cristo e naturalmente a resposta para muitas perguntas virão apenas na vida vindoura. Isso entretanto não é uma justificativa aceitável para não buscarmos as respostas.

Revelações ocorrem a todo momento, para muitas pessoas, sobre muitas perguntas. Somente o Senhor conhece as questões que apenas serão reveladas no final. A utilização de argumentos como “um dia essas coisas nos serão reveladas” como um ponto final a um debate, fortalece para muitas pessoas a falsa ideia de que toda religião é fanática e todo religioso preguiçoso na busca pelas respostas, o que certamente não é verdade.

Richard Dawkings, um cientista e autor ateu, em sua publicação sobre isso declarou:

“A fé é a grande saída, a grande desculpa para escapar da necessidade de pensar e avaliar evidência. A fé é acreditar apesar da, ou talvez até mesmo, por causa da falta de evidência… Sou contra a religião porque ela nos ensina a ficarmos satisfeitos com o não conhecimento do mundo”[4]

Seria “fanáticos” e “fundamentalistas” a imagem que nós Santos dos Últimos Dias gostaríamos de transmitir ao mundo? Pregamos nós uma fé cega e crença desprovida de argumentos racionais e evidências? Absolutamente não. Dessa forma, alguns membros precisam se arrepender de suas tendências naturais de não buscar respostas e em alguns casos, criticar aqueles que as buscam.

4. “Devemos acessar/pesquisar unicamente sites/materiais oficiais da Igreja”

Apesar de na maioria dos casos haver uma sincera boa intenção no coração daqueles que compartilham esse tipo de conselho, precisamos salientar que nem mesmo a própria Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias ensina este princípio. De fato, uma das regras de fé é clara ao afirmar que “se houver qualquer coisa virtuosa, amável, de boa fama ou louvável, nós a procuraremos.”[5] O problema não está exatamente na informação que pesquisamos, mas frequentemente na incapacidade intelectual de alguns em analisar tal informação.

Princípios verdadeiros, fatos verídicos e informações autênticas de valor, podem ser encontradas em muitos sites, pesquisas, notícias, artigos e publicações. O que precisamos desenvolver entretanto, é a capacidade de analisar uma informação, colocá-la sob contexto, extrair o que é correto e descartar o que é falso. Sobre isso o astrofísico Neil DeGrasse Tyson declarou:

“Siga os fatos e evidências aonde quer que elas os levarem”[6]

Santos dos Últimos Dias possuem a plenitude e verdade do Evangelho Eterno e por essa razão, não precisamos temer a direção que a ciência e descobertas irão tomar. No final, toda a verdade pura encontrada em todos os meios, direcionarão ao Criador de todas as coisas e autor de todas as verdades e conhecimentos.

5. “Apenas siga o Profeta, mesmo que ele estiver errado”

Parte da busca pelo conhecimento do Evangelho requer uma análise às palavras dos Profetas, mas não deve se limitar a tomar como verdade absoluta informações que em muitos casos são opiniões pessoais, conselhos em circunstâncias específicas e ensinamentos não canonizados. Isso de maneira alguma significa que devemos menosprezar a opinião de líderes da Igreja, mas ter em mente que a edificação da Doutrina de Cristo acontece de maneira gradual, com “linha sobre linha, preceito sobre preceito”, cujo processo vez por outra naturalmente envolve erros e acertos.

A Igreja em seu site oficial “MormonNewsRoom” tornou isso claro afirmando:

“Nem toda declaração feita por um líder da Igreja, presente ou passado, necessariamente constitui doutrina. Uma declaração específica feita por um líder específico em uma ocasião específica frequentemente representa uma opinião pessoal, embora bem considerada, mas não é feita com o objetivo de ser oficial para toda a Igreja. Com divina inspiração, a Primeira Presidência e o Quórum dos Doze Apóstolos se aconselham para estabelecer doutrina(…)”[7]

Joseph Smith em certa ocasião declarou:

“(…)A ninguém é requerido submissão cega a um homem por ter ele uma porção do Sacerdócio. Temos ouvido de homens que portam o Sacerdócio, que fariam qualquer coisa que ditas por aqueles que presidem sobre eles – mesmo que soubessem que era errado. Mas obediência tal como esta é pior do que tolice para nós. É escravidão ao extremo. O homem que de bom grado, se degrada não deveria reivindicar um posto entre os seres inteligentes, até que ele abandone sua insensatez(…) Outros, no exercício extremo de sua autoridade onipotente, ensinaram que tal obediência era necessária, e que não importa o que os Santos fossem instruídos a fazer pelos seus presidentes, deveriam fazê-lo sem quaisquer perguntas. Quando os élderes de Israel vão longe ao se engajar nestas noções extremas de obediência a ponto de ensiná-las ao povo, geralmente é porque eles têm, em seus corações, o desejo de fazer o errado eles mesmos.”[8]

Brigham Young sobre o mesmo princípio afirmou:

“Eu temo ainda mais que este povo tenha tamanha confiança em seus líderes a ponto de não inquirir ao Senhor por si mesmos, se estão de fato sendo guiados por Ele. Temo que se assentem em um estado de uma cega auto-segurança, confiando seu destino eterno nas mãos de seus líderes com uma confiança imprudente que por si mesma frustraria o propósito de Deus em suas salvações e enfraqueceria aquela influência que poderiam dar a seus líderes, caso soubessem por si mesmos, pela revelação de Jesus, que estão no caminho certo.”[9]

Em outras palavras, o papel do profeta não é nos ensinar absolutamente tudo o que devemos saber, mas através da experiência de vida e amor, nos aconselhar e indicar a direção correta a seguir. Por outro lado, nosso papel é o de considerar e confiar em suas palavras, ao passo que buscamos de Deus confirmação para toda informação que recebemos, apreciando a importante responsabilidade de seus servos, que possuem as melhores intenções e uma vida inteira de serviço, mas que são humanos e por essa razão, podem cometer erros.

Conclusão

Como um estudo publicado no “Review of Religious Research” indicou, enquanto um maior grau de conhecimento intelectual diminui a religiosidade e fé de pessoas de diferentes crenças, este não é o caso para os Santos dos Últimos Dias, que se tornam mais fieis quando possuem mais conhecimento. [10]

Ao compartilhar tais informações, minha esperança é a de plantar em cada leitor o desejo pelo conhecimento, que unido à fé nos achegará mais à Deus do que provavelmente qualquer outra coisa em nossas vidas, tornando-nos mais maduros em nossa fé, “para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente.”[11]

Fontes:

[1] Aprender pelo Estudo e pela Fé; Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: Brigham Young, 1997
[2] D&C 93:36
[3] D&C 130:18
[4] Richard Dawkings; The God Delusion
[5] Regras de Fé 1:13
[6] Neil DeGrasse Tyson; Documentário “Cosmos”
[7] Approaching Mormon Doctrine; 4 de Maio de 2007; www.mormonnewsroom.com
[8] “Priesthood,” Millennial Star 14/38 (13 November 1852)
[9] Brigham Young, (12 January 1862) Journal of Discourses 9:150
[10] Mormons more faithful with more education; Katherine Orgill on May 5, 2015; The Digital Universe
[11] Efésios 4:14

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Luiz Botelho

Luiz Botelho serviu na Missão Santa Maria e atualmente mora em Provo-Ut, com sua esposa Kelsie e filha Elisa. É certificado em Design Gráfico e Desenvolvimento Web, mas descobriu na Ciência, História, Filosofia e Teologia sua verdadeira paixão.Atualmente trabalha voluntariamente como Diretor Internacional da FairMormon, escreve regularmente para a More Good Foundation e é autor do Interpretenefita.com.
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